#DesafioREF @dia8- “Feios, Sujos e Malvados” (Ettore Scola, 1976)

Que filme! Rubens Ewald Filho aponta que “Scola considera os favelados como colonizados, só que defende a tese de que o corrompido nunca é culpado. O responsável é sempre corruptor, ou seja, sociedade”.

Concordo quando ele diz que “coloca os personagens da forma mais humana posívelm, retratando-os sem vergonha ou condescência”. Os sentimentos, emoções, atitudes e ações de muitas personagens são naturalmente universais, reconhecíveis em várias pessoas. É um filme que apesar do visual claustrofóbico, sujo e pesado, é antes de tudo um filme humano.

O elenco está numa sintonia impressionnante. Fica a sensação, óbvia de que alguns personagens poderiam ter sido mais explorados, que alguns atores não foram tão bem aproveitados… mas num filme tão plural, que poderia se abrir para uma série ou grande épico não pode-se esperar outra coisa.

Nino Manfredi é um protagonista fenomenal, o último sobrevivente da fase de ouro da comédia italiana, neste filme com uma dignidade impressionante (“com ressonância de tragédia shakespereana”, diz REF) que apesar de todos as ações seu Giacinto ainda é alguém humano, com um olhar assustador pois podemos o reconhecer em pessoas próximas a nós.

Assim, percebemos naturalmente que nós também somos, obviamente um personagem daquela casa em que vivem mais de vinte pessoas de quatro gerações de uma família (importante ressaltar aqui o achado final maravilhoso!), e daria um ótimo teste de buzzfeed saber qual. Luciano Pagliuca tem um certo físico típico de um Ninetto Davoli, pensei que fosse um ator regular de Pasolini, e me surpreende que ele não tenha feito nenhuma outra película.

Franco Merli, famoso por Saló, exibido também em 1976 é marcante também como o filho que se prostitui vestido de mulher, mas se aproveita da cunhada. Inclusive, essa personagem é a maior exemplificação do sentimento de comunidade que une a favela, em que não existem muitos julgamentos – ou se eles existem, são privados e o sentido de união e apoio aos próximos é maior do que tudo. Maria Luisa Santella é outro destaque e tem a primeira participação de maneira impressionante, em um momento de contemplação típico de um cinema de Antonioni, que Scola tenta nos mostrar não acontece apenas na alta classe. Todos sonhamos, sentimos, e pensamos na vida, no passado, no futuro.

Algumas cenas ou passagens marcantes: a Basílica de São Pedro ao fundo, o Vaticano e toda pompa e história tão perto e tão longe; as crianças, sem nenhuma ajuda governamental ou algo assim brincando num playground trancado enquanto os adultos seguem a vida; a mãe do protagonista, uma velhinha responsável pela pensão que sustenta a casa passando o dia na RAI, vendo filmes e aprendendo inglês; a RAI que vai filmar alguma matéria de “importância social” na favela; o treino do coro; os “banquetes” na casa de praia e no bar da favela, etc.

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