Oscar 2021: Apostas, torcidas e minicríticas de TODOS OS FILMES

EU VI TODOS OS FILMES DO OSCAR PARA VOCÊ SÓ PRECISAR VER OS BONS, E SÃO POUCOS, VENHA COMIGO!

Esse post será em duas partes. Primeiro eu falo sobre o que deve acontecer em cada categoria e depois faço um parágrafo ou mais sobre cada filme em duas subpartes: primeiro sobre longas e depois os 12 curtas, sempre na ordem de preferência.

No fim, aposto em The Trial of Chicago 7 levando três oscars incluindo filme, mesmo número de “Ma Rainey’s Black Bottom”. Mas minha torcida vai toda para  “Nomadland” e “The Father”, filmes do coração, junto com “Quo vadis, Aida”.

Sigo achando que “Nomadland” é muito bom para Oscar, mas estão me deixando sonhar… vamos ver!

Sem mais delongas segue aí:

FILME

Aposto em: 1- The Trial of Chicago 7; 2- Mank; 3- Nomadland

Minha Torcida: 1- Nomadland; 2- The Father; 3- Promising Young Woman

Tenho falado a temporada toda de premiação que “Nomadland” é muito bom para vencer – seria meu favorito dentre os vencedores desde “Million Dollar Baby”. Não vou subestimar a capacidade dos eleitores do Oscar em escolher um filme grandioso e ruim como Chicago 7 ou Mank, mas tá todo mundo falando que Nomadland deve ganhar e eu espero que estejam certos. Seria o terceiro (ou quarto) Oscar para Frances McDormand e o primeiro como produtora. The Father seria um típico filme sério vencedor, e ficaria feliz; Promising Young Woman seria aquela surpresa divertida.

DIREÇÃO

Aposto em: 1- Chloé Zhao, “Nomadland”; 2- David Fincher, “Mank”; 3- Emerald Fennall, “Promising Young Woman”

Minha Torcida: 1- Chloé Zhao, “Nomadland”; 2- Emerald Fennall, “Promising Young Woman”; 3- Lee Isaac Chung, “Minari”

Acho que Chloé Zhao é mais segura aqui, já que seria um filme mais pessoal. Acho que só Fincher tem chances aqui ou não acho tão fora de tom se Fennall levar direção e Nomadland filme.

ATOR

Aposto em: 1- Chadwick Boseman, “Ma Rainey’s Black Bottom”; 2- Anthony Hopkins, “The Father”; 3- Riz Ahmed, “Sound of Metal”

Minha Torcida: 1- Anthony Hopkins, “The Father”; 2- Riz Ahmed, “Sound of Metal”; 3- Gary Oldman, “Mank”

Sem Tahar Rahim por “The Mauritanian”, Hopkins deveria ser o grande favorito pelo que possivelmente é a melhor interpretação de sua carreira. Mas os eleitores podem escolher dar o prêmio póstumo para Boseman, especialmente se não votarem em Viola Davis pelo mesmo filme. Acho difícil os dois atores de Black Bottom levar aqui.

ATRIZ

Aposto em: 1- Andra Day, “The United States vs. Billie Holiday”; 2- Viola Davis, “Ma Rainey’s Black Bottom”; 3- Frances McDormand, “Nomadland”

Minha Torcida: 1- Frances McDormand, “Nomadland”; 2- Viola Davis, “Ma Rainey’s Black Bottom”; 3- Carey Mulligan, “Promising Young Woman”.

Única categoria que não vou ficar meio chateado se qualquer uma levar. Vanessa Kirby tá ótima também, e Day carrega um filme ruim nas costas. McDormand é minha favorita do coração, mas ela ganhou por um filme horrível uns anos atrás interpretando um mesmo tipo de personagem, então carma é isso. Uma vitória de Mulligan seria bem legal.

ATOR COADJUVANTE

Aposto em: 1- Daniel Kaluuya, “Judas and the Black Messiah”; 2- Sacha Baron Cohen, “The Trial of Chicago 7”; 3- Paul Raci, “Sound of Metal”

Minha Torcida: 1- Daniel Kaluuya, “Judas and the Black Messiah”; 2- Paul Raci, “Sound of Metal”; (bem atrás) 3- Leslie Odom Jr., “One Night in Miami”

Houve uma época em que eu acreditava que Baron Cohen era o grande favorito, por estar no filme que eu considero o mais “oscarizável” e seria uma maneira de premiar ele também pelo ano maravilhoso, que incluiu “Borat”.

Mas Kaluuya ganhou terreno, o filme virou o assunto do momento nos EUA e parece que a vitória dele é certa. Meio incompreensível que Lakeith Stanfield também esteja indicado. Como que os dois protagonistas incontestáveis são coadjuvantes?

ATRIZ COADJUVANTE

Aposto em: 1- Youn Yuh-jung, “Minari”; 2- Maria Bakalova, “Borat”; 3- Amanda Seyfried, “Mank”

Minha Torcida: (write-in para Jodie Foster, “The Mauritanian”, pode, produção?) 1- Maria Bakalova, “Borat”; 2- Olivia Colman, “The Fater”; 3- Youn Yuh-jung, “Minari”

Sou fã mesmo de Borat e acho que Bakalova tem um timing perfeito para o filme. A vitória dela parece ser daquelas histórias tradicionais de categoria, uma jovem e bonita atriz, mas a veterana atriz sul-coreana também tem o “perfil” aqui. Colman tem um estilo específico de interpretaçao que funciona muito bem e ainda não acredito que tiraram a maravilhosa Jodie Foster de “Mauritanian” para colocar essa coisa da Glenn.

ROTEIRO ORIGINAL

Aposto em: 1- Aaron Sorkin, “The Trial of Chicago Seven”; 2- Emerald Fennell, “Promising Young Woman”; 3- Will Berson, Shaka King, “Judas and the Black Messiah”

Minha Torcida: 1- “Promising Young Woman”; 2- Abraham Marder, Darius Marder “Sound of Metal”; 3- Minari

É a categoria perfeita para “Promising Young Woman” e de certa maneira acho que leva, mas não duvido nada darem um prêmio para Sorkin aqui, seja se curtirem muito o filme ou se não curtirem a ponto de darem outros prêmios. E que falta faz “Palm Springs” aqui hein

ROTEIRO ADAPTADO

Aposto em: 1- Christopher Hampton, Florian Zeller, “The Father”; 2- Chloé Zhao, “Nomadland”; 3- Sacha Baron Cohen et al, “Borat Subsequent Moviefilm”

Minha Torcida: 1- “Nomadland”; 2- “Borat”; 3- “The Father”

Acho que tá entre esses três filmes mesmo, e feliz de Ramin Bahrani ter uma indicação em seu nome por “The White Tiger”. Nomadland seria o vencedor ideal, mas Borat e The Father podem levar se curtirem muito o filme mas não encontrar apoio em outras categorias.

FILME DE ANIMAÇÃO

Aposto em: 1- “Soul”, de Pete Docter; 2- “Wolfwalkers” Tomm Moore, Ross Stewart; 3- “A Shaun the Sheep Movie: Farmageddon”, de Will Becher e Richard Phelan

Minha Torcida: 1- “Wolfwalkers”; 2- “A Shaun the Sheep Movie: Farmageddon”; 3- “Soul”

Um dos Oscars mais certos da temporada, e muita gente só deve estar vendo “Soul”. Filme muito inspirado nos trabalhos de Don Hertzfeldt, não é ruim, e não merece mas é ok. Torço muito para uma surpresa aqui. 

FILME ESTRANGEIRO

Aposto em: 1- Another Round (Dinamarca), de Thomas Vinterberg; 2- Quo Vadis, Aida (Bósnia) de Jasmila Zbanic; 3- Better Days (Hong Kong), de Derek Tsang

Minha Torcida: 1- Quo Vadis, Aida? (Bosnia); (bem atrás) 2- The Man Who Sold His Skin (Tunísia), de Kaouther Ben Hania; 3- “Collective” (Romênia) de Alexander Nanau

Nossa, nem era para estarmos discutindo nada, Quo Vadis, Aida? é o melhor filme disparado do Oscar, junto a Nomadland. Triste que não foi indicado em outras categorias, mas Vinterberg foi e isso mostra o quanto o pessoal curtiu. Nem acredito que vou torcer para o moralismo americano condenar uma história de amor aos valores etílicos e dar um prêmio para o “filme de genocídio”, mas aqui pode!

E não duvido nada uma surpresa aparecer, e o pior filme de todo o Oscar, “Better Days” levar essa bagaça. Ainda não superei que “La Llorona” da Guatemala ficou de fora.

DOCUMENTÁRIO

Aposto em: 1- “Crip Camp”; 2- “My Octopus Teacher”; 3- “Time”

Minha Torcida: 1- “The Mole Agent”; 2- “Crip Cramp”; 3- “Collective”

Parece que “My Octopus Teacher” é o franco favorito, mas um filme tão insosso pode levar o prêmio? Faz sentido… mas ainda acho que “Crip Cramp”, um filme tão poderoso quanto é bonito e inspirador pode levar. O chileno “The Mole Agent”, melhor disparado, pode surpreender, assim como “Collective”, também indicado em filme estrangeiro.

CURTA FICÇÃO

Aposto em: 1- “Two Distant Strangers”; 2- “White Eye”; 3- “The Letter Room”

Minha Torcida: 1- “The Present”; 2- “The Letter Room”; 3- “White Eye”

Israel e Palestina estão indicados e seria curioso se fosse um ano normal, com os dois diretores estando presentes no almoço, na cerimônia e em todo trabalho de mídia. Desculpa por politizar o politizável, mas enquanto “White Eye” é um filme que tenta criar um espetáculo em si-mesmo (filme de tomada única) enquanto explora e observa de longe os problemas que imigrantes ilegais passam em Israel, “The Present” é um filme cru e real e que você sente ao estar na pele do protagonista.

Farah Nabulsi, a diretora, nasceu em Londres de pais palestinos e trabalhou em grandes bancos na City. Após visitar a Palestina pela primeira vez aos 35 anos, decidiu mudar de carreira e investir em produção de conteúdo jornalístico e audiovisual com intuito de denunciar as injustiças vivias pelos palestinos em seu dia-a-dia. É o típico filme que o Oscar adoraria, mas palestino?

Dentre os norte-americanos, “The Letter Room” é o mais interessante, mas “Two Distant Strangers” parece ter o momentum e falar para os EUA atual.

DOCUMENTÁRIO CURTA

Aposto em: 1- “Colette”; 2- “A Love Song for Latasha”; 3- “Hunger Ward”

Minha Torcida: 1- “ Love Song for Natasha”; 2- “Hunger Ward”; 3- “Colette”

Confesso que tou um pouco perdido aqui, mas “Colette” é o típico filme a vencer Oscar, mas talvez os eleitores podem reconhecer “Hunger Ward” aqui para não votar em “The Present”. Talvez o governo chinÊs e de Hong Kong com o boicote a “Do not split” podem ter dado uma forcinha para o filme ganhar.

Mas “A Love Song for Latasha” é o único grande filme aqui.

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO

Aposto em: 1- “If Anything Happens I Love You”; 2- “Opera”; 3- “Burrow”

Minha Torcida: 1- “Yes-People”; 2- “Genius Loci”; 3- “Burrow”

Me parece que “If Anything Happens I Love You” é o franco favorito, mas acho tão fraco. Torcendo para que o islandes “Yes-People” leve ou até mesmo “Burrow”, da Pixar.

MELHOR TRILHA

Aposto em: 1- “Soul”; 2- “Mank”; 3- “Da 5 Bloods”

Minha Torcida: olha, Britto, sinceramente… 1- “News of the World”; 2- “Da 5 Bloods”; 3- “Mank”

Achei todas trilhas bem qualquer coisa. Sinceramente, não me lembro de nenhuma nota musical delas, mas eu lembro que achei a de Mank um tanto invasiva, mas interessante. Na dúvida eu vou do classissismo de James Newton Howard, que pode levar finalmente seu primeiro Oscar em nove indicações.

MELHOR CANÇÃO

Aposto em: 1- “Speak Now”, de “One Night in Miami”, 2- “Fight For You”, de “Judas and the Black Messiah; 3- “Io sì (seen)” de “The Life Ahead”

Minha Torcida: 1- “The Life Ahead”; 2 “Husavilk” de “Eurovision Song Contest: The Story of Fire Saga”

Sinceramente, não curto nenhuma das músicas, mas seria legal ver Laura Pausini vencer o Oscar ou “Eurovision” ser um filme vencedor do Oscar, especialmente com uma música sobre Islândia e composta por um islandês. Parece que teremos performance ao vivo de Husavik também.

MELHOR SOM

Aposto em: 1- “Sound of Metal”; 2- “Soul”; 3- “Greyhound”

Minha Torcida: 1- “Sound of Metal”; 2- “News of the World”; 3- “Soul”

O único dos indicados que usa o som de forma criativa dentro de sua narrativa, “Sound of Metal” deve ser o franco favorito, mas “Soul” e “Greyhound” tem bons trabalhos de som também, apesar de eu curtir “News of the World”.

DIREÇÃO DE ARTE

Aposto em: 1- “Mank”; 2- “Ma Rainey’s Black Bottom”; 3- “The Father”

Minha Torcida: 1- “The Father”; 2- “News of the World”; 3- “Mank”

Assim como no caso acima, “The Fahter” é o filme que melhor utiliza o cenário e a direção de arte para mostrar as mudanças na mente de seu protagonista e sua adequação (ou falta de) ao espaço em volta. “Mank”, “News of the World”, “Ma Rainey’s Black Bottom” e “Tenet” estão todos na categoria ostentação que faz sucesso aqui. Como amam “Mank”, deve dar “Mank”.

FOTOGRAFIA

Aposto em: 1- Erik Messerschmidt, “Mank”; 2- Joshua James Richards, “Nomadland”; 3- Phedon Papamichael, “The Trial of Chicago 7”

Minha Torcida: 1- “Nomadland”; 2- Dariusz Wolski, “News of the World”; 3- Sean Bobbitt, “Judas and the Black Messiah”

Nunca subestime o poder da fotografia preto e branca desnecessária em conseguir um Oscar, ainda mais essa de “Mank” que é francamente bem fraquinha. E adivinhe, ganhou o prêmio do sindicato americano de forografia.

A de “Nomadland” é disparada, a melhor e mais interessante, trabalhando muito bem as paisagens e os interiores insólitos. Josh Richards assinou a fotografia de “God’s own country”, outro filme incrível.

 Bobbitt, colaborador de Steve McQueen em seus longas tem a primeira indicação ao Oscar – seu trabalho em “Shame” é maravilhoso.

FIGURINO

Aposto em: 1- “Ma Rainey’s Black Bottom”; 2- “Mulan”; 3- “Emma”

Minha Torcida: 1- “Emma”; 2- “Ma Rainey’s Black Bottom”; 3- “Pinóquio”

Comento abaixo no parágrafo sobre “Emma” como eu achei o filme chato, mas curti como apresenta o vestuário – e a nudez – como uma certa forma de hierarquização e atividade social. Posso ter bolado tudo isso só porque o material de direção era tão fraco, mas os figurinos são lindos e merecem um Oscar. Mas “Black Bottom” seria um vencedor merecido também.

EFEITOS VISUAIS

Aposto em 1- “Tenet”; 2- “Love and Monsters”; 3- “The one and only ivan”

Minha Torcida: 1- “Love and Monsters”; 2- “The One and Only Ivan”; 3- “Tenet”

A explosão no aeroporto deve ter garantido o Oscar a Tenet, mas acho o uso de efeitos em “Love and Monsters” muito mais divertido e original.

EDIÇÃO

Aposto em 1- “The Trial of Chicago 7”; 2- “Promising YOung WOman”; 3- “Sound of Metal”

Minha Torcida: 1- “The Father”; 2- “Nomadland”; 3- “Promising Young Woman”

Se amarem “Nomadland” e Chloé Zhao podem dar esse Oscar também, mas acho mais provável darem direção. Eu confesso que não curti tanto a edição de “The Father” na primeira vez, achei um pouco esquemática, chamativa, mas hoje eu gosto como mostra os “pulos” na narrativa. “Promising Young Woman” é inventivo, refrescante e pode agradar aos votantes do Oscar. Dito isso, acho que a edição chatérrima e baseada na palavra de Sorkin vai ganhar. 

MAQUIAGEM E CABELOS

Aposto em: 1- “Ma Rainey’s Black Bottom”; 2- “Pinóquio”; 3- “Mank”

Minha Torcida: 1- “Pinóquio”; 2- “Emma”; 3- “Ma Rainey’s Black Bottom”

Acho que nenhum indicado se supera, mas a de “Pinóquio” é um trabalho de maquiagem bem bonito e integrado a história. A maquiagem de “Black Bottom” e “Mank” são bem chamativas, e acho aquele suor todo em “Black Bottom” parte integrante da história – merecia indicação a fotografia no lugar de “Mank”, inclusive. 

OS LONGAS

Nomadland (d. Chloé Zhao, 2020, EUA)

É o filme do ano e não é à toa. É um filme que ao mesmo tempo que aborda a liberdade ‘imposta’ de uma vida sem emprego fixo e casa imóvel. Um filme perfeito para os tempos atuais, deve ser um escândalo ver no cinema – especialmente drive-in. 

Baseado em uma história real que se transformou num livro-reportagem sobre americanos mais velhos que passam a viver em vans, tem vários destes personagens interpretando a si mesmo no filme, em que convivem muito bem com a protagonista, papel feito sob medida para Frances McDormand, que a defende com forte vigor.

A edição é maravilhosa, a fotografia que alterna vistas incríveis com uma movimentação de câmera perfeita, e uma trilha discreta mas bonita. Me lembra um “Na Natureza Selvagem” mais maduro. Um filme para ficar no coração e tocar a alma.

Quo Vadis, Aida (d. Jasmila Zbanic, 2020 BOS)

Assim como Nomadland, é uma ficcionalização a partir de uma história real e trágica. Todos sabemos o final, então nem é uma questão de o que vai acontecer, mas como

O filme apesar de ser bósnio é feito explicitamente para a comunidade internacional. Não a toa os protagonistas são uma família intelectual, uma intérprete que trabalha na missão da ONU em meio à guerra civil da Bósnia e seu marido, ex-diretor de colégio. Uma personagem “do mundo” que o público-alvo do filme pode se conectar em meio a uma tragédia que afeta milhares de pessoas.

Não à toa também, os soldados holandeses responsáveis pela base da ONU ocupam um papel de destaque. O trauma dos dutchbats, que ainda é vivo nos Países Baixos, país que mergulha a fundo nos dilemas éticos nos conflitos (étnicos) alheios são o trauma do ocidente – similar ao que Michelle Aaron aponta em sua análise de “Hotel Ruanda”, outra mancha no ocidente -. Não somos nem os bósnios-sérvios que estão ali atrás de vingança, nem os cidadãos bósnios vítimas na tragédia. Somos os holandeses, que veem de mãos atadas e acabam sem querer querendo colaborando com o genocídio, antes de voltar seguros para seus lares. Tanto os coroneis, quanto os jovens soldados de 18 anos – e todos perfeitamente capturados em sua babyface e bermudas como participantes de um grande e trágico summercamp – são mais do que as testemunhas oculares da tragédia, como a consciência moral que ficará responsável em relatar ao mundo na volta ao lar.

Eu digo tudo isso – parece que não curto o filme! – mas é para dizer como a diretora operou bem seus personagens para contar de maneira mais crível a tragédia do dia-a-dia na Srebinica sitiada, pronta para a queda, ao fracasso enquanto se espera que o dia seguinte será a salvação, que não podemos piorar mais do que estamos. Guardada as devidas proporções, há diferença para o Brasil atual? Emn um país que vive um genocídio sanitário nas mãos de um governo incompetente e negligente, com três mil mortes diárias por Covid… é difícil não sair totalmente quebrado ao fim do filme.

Filme que merece muita atenção. Jasna Duricic, atriz sérvia,  é minha atuação favorita das que eu vi este ano e se Oscar fosse um prêmio “sério”, não me surpreenderia com Johan Heldenbergh como ator coadjvuante, pela interpretação do Coronel Karremans. 

The Father (d. Florian Zeller, 2020, FRA/RUN)

Filme fortíssimo sobre uma família que ameça se desintegrar quando o patriarca (Anthony Hopkins, sublime) começa a apresentar sinais que sua saúde mental está piorando. Claro que a pancada é mais suave quando a família consegue navegar por ondas tão violentas num navio um tanto suntuoso e temos espaço para nos preocupar apenas com o que importa. 

Porém, essa ressalva não compromete o sucesso do filme. A montagem que trabalha bastante com repetições me deixou um pouco incomodado achando que poderia ser um thriller barato ao fim, mas talvez numa revisão funcione melhor ainda. 

El Agente Topo / The Mole Agent (d. Maite Alberdi, Marcela Santibáñez, 2020, CHI/EUA/ALE/HOL/ESP)

Se Borat (ver abaixo) a gente já assiste sabendo ser documentário apesar de parecer ficção e do absurdo disso tudo, a situação é diferente neste maravilhoso filme chileno. A naturalidade dos personagens em meio às câmeras e os absurdos da situação em meio a uma trama de espionagem divertida nos fazem crer se tratar de uma ficção, mas nada.

É um retrato bonito sobre a velhice com atuações maravilhosas do elenco principal que embarca no filme. As diretoras conseguiram extrair algo de realmente sensível do filme, que pode ser lido com uma crítica ao sistema e à sociedade em como cidadãos de terceira idade são tratados, sem esquecer de prestar uma homenagem aos personagens principais de sua história.

Borat Subsequent Moviefilm: Delivery of Prodigious Bribe to American Regime for Make Benefit Once Glorious Nation of Kazakhstan (d. Jason Woliner, 2020, EUA/RUN)

Eu assisti o primeiro filme no cinema e odiei. De lá até aqui, gostei de Bruno e amei O Ditador. Não consegui rever o primeiro mas suspeito que o problema fosse comigo e não com o filme.

O segundo é um retrato perfeito dos Estados Unidos no início de 2020, com a ‘sorte’ de ter pego o início da pandemia e ter conseguido incluir tão perfeitamente na trama. Jason Woliner é o diretor do filme, em seu filme de estreia, mas é difícil negar a força criativa de Baron Cohen, desta vez sem a parceria de Larry Charles.

O modo de filmar, similar ao primeiro, de convencer pessoas reais a agirem de forma autêntica para a câmera funciona tão bem que francamente parece ser encenado. Maria Bakalova, atriz de pouco currículo até então, embarca com fluência nata no estilo do filme e tem a grande cena e grande golpe com Rudolph Giuliani, antigo prefeito de NY e advogado de Donald Trump, em fim de carreira melancólico – achei que seria indicado ao Framboesa de Ouro inclusive.

Minha maior paixão, porém, foi a visão do filme do verdadeiro presidente cazaque  Nursultan Nazarbayev – que deu o nome para a capital do país – interpretado por  Dani Popescu.

Promising Young Woman (d. Emerald Fennell, 2020, EUA)

Um filme refrescante, inspirador com uma interpretação fenomenal de Carey Mulligan que carrega o filme, não por deficiência em outras partes, mas porque ela é a alma e carne de toda a trama. O filme de vingança aqui é renovado e as referências inundam o filme, mas ainda assim o filme apresenta-se como completamente original. Por enquanto é minha utilização favorita de uma música de Paris Hilton no cinema. 

The Man Who Sold the Skin (d. Kaouther Ben Hania [ar-rajul allaḏī bāʿa ẓahrihu], 2020, TUN)

Um filme um tanto simples que sobrevive a partir da ideia principal do filme – genial, aliás – mas que é bem honesto nas questões apresentadas e na forma que as coteja. 

Gostei muito do protagonista Yahya Mahayni. Acho que as questões éticas e morais do filme são um pouco simplificadas durante o filme, mas a força ainda persiste. Baseado na obra “Tim” do artista belga Wim Delvoye e enquanto o verdadeiro Tim parece ser mais interessante que Sam, a questão política do filme é bem explorada, apesar de por vezes parecer gratuito. 

Sound of Metal (d. Darius Marder, 2019, EUA)

Um filme que se propõe a ser realizado com base no ponto de audição e não no ponto-de-vista é um experimento que pode dar muito errado, mas Sound of Metal consegue não ficar preso em sua base teórica e emociona com uma história de auto-conhecimento.

Ruben e Lou não são os protagonistas mais carismáticos e isso não só traz uma dose maior de veracidade ao filme, como nos conecta mais ainda com suas tentativas (cheias de erros) em melhorar e tentar dar um sentido para suas vidas. 

A parte no centro para surdos é conduzida com notável habilidade e dá um certo respiro necessário ao filme, que “volta com um estouro” na parte final muito incrível. 

Judas and the Black Messiah (d. Shaka King, 2021, EUA)

Apesar de ser um tanto longo, a relação dos dois protagonistas (que foram indicados ao Oscar de ator coadjuvante haha!) carrega bem o filme. Daniel Kaluuya, como o líder Fred Hampton é o destaque definitivo do filme, que não esconde sua militância – ao contrário, faz dela seu trunfo e força. Quase um embaixador americano do projeto Small Axe, de Steve McQueen. 

Wolfwalkers (d. Tomm Moore, Ross Stweart, 2020, IRL/RUN/FRA)

Um belíssimo conto irlandês transformado num filme sensível e cheio de nuances que talvez fiquem mais interessantes ainda numa revisão. Eu achei um tantinho longo e sem ritmo as vezes, mas ao final a experiência vale muito a pena.

Crip Camp (d. Nicole Newnham, James Lebrecht, 2020, EUA)

Um documentário direto mas muito interessante sobre como um acampamento de verão para pessoas com desabilidades trouxe não só um crescimento pessoal e sentido de união para as pessoas presentes, mas também uma consciência política que teria grande impacto na vida norte-americana.

Contado através de entrevistas e impressionantes imagens de arquivo, é um filme inspirador mas que não usa seus personagens de escada para uma tese pré-fabricada. Ao contrário, é uma costura muito talentosa e interessante equilibrando bem os vários personagens e as histórias divertidas e importantes.

Pieces of a Woman (d. Mundruczó Kornél, 2020, CAN/EUA)

Quanto menos souber do filme mais interessante será a experiência, principalmente por conta da primeira parte. Shia LeBeouf comprova aqui ser um grande ator e Ellen Burstyn tem uma participação muito boa, mas é Vanessa Kirby quem tem o papel de destaque e sua atuação é um verdadeiro tour de force. Porém, me impressionou mais a atuação contida, discreta e poderosa de Molly Parker como a parteira. Seu olhar no espelho logo após o parto é uma das cenas mais interessantes do ano.

The White Tiger (d. Ramin Bahrani, 2021, EUA/IND)

Um filme divertido, cínico e inteligente, mas que se alonga por muitos momentos. Curto muito um certo ar anti-punição-pelos-maus-atos (que mancha um pouco o divertidíssimo I Care a Lot), e o filme acerta bem em apontar as questões sociais das relações dos personagens.

Aliás, todos os personagens principais são bem interessantes e multifacetados, o que promove a integração rápida do público com o filme que não só se vê na tela, mas enxerga também uma realidade muito próxima a sua, mesmo que o cenário seja diferente – mas curiosamente tudo se encaixa muito bem no Brasil.

Bahrani é um dos diretores mais interessantes do século, com Man Push Cart e 99 Homes e aqui faz sua entrada no mainstream.

A Shaun the Sheep Movie: Farmageddon (d. Richard Phelan, Will Becher, 2019, RUN)

Um filme meio alucinante, mas muito fofinho, que envolve ovelhas inteligentes, uns britânicos meio broncos movidos a fish and chips e alienígenas. Faz tempo que assisti o primeiro filme, então posso ter perdido alguma referência, mas o filme diverte bem e consegue prender a atenção mesmo sem qualquer diálogo, de forma bem natural.   

Collective (d. Alexander Nanau [Colectiv], 2019, ROM)

Conta muito bem a história de transformação política pela qual a Romênia passa quando um acidente numa casa de shows (algo similar ao que rolou na Boate Kiss no RS) expôe as fraquezas no sistema de saúde local. 

O filme toma partido declarado do Ministro da Saúde no governo tecnocrata que se segue, o colocando como um profissional competente, dedicado e humanista que tenta navegar no emaranhado de corrupção política da Romênia. 

Ele também se bota ao lado dos jornalistas defensores da verdade. Assim, seria curioso saber a história por trás do filme daqui a alguns anos…

News of the World (d. Paul Greengrass, 2020, EUA)

Tom Hanks é daqueles atores coringas que consegue trazer classe e sobriedade a basicamente qualquer filme. Ainda que a atriz mirim alemã Helena Zengel seja o destaque e principal chamariz, ele é o centro do filme e carrega bem o longa, uma jornada no coração dos EUA.

Ele trabalha como leitor de notícias e jornais “do mundo” nas comunidades que passa e o filme dialoga de forma curiosa com Nomadland, 150 anos atrás. O cenário, que auxiliou uma grande parte do cinema norte-americano é velho conhecido, mas 

Minari (d. Lee Isaac Chung, 2020, EUA)

Filme bem fofinho, sobre uma família de origem sul-coreana instalada no coração dos EUA, suas lutas por adaptação e ao mesmo tempo uma defesa de seu status mais do que postulante ao sonho norte-americano mas como integrante da fundação das bases comunitárias que serve à América.

Como qualquer filme-tese, seus personagens são bem delimitados e os atores são muito bons em trabalhar a partir destas… limitações. Youn Yuh-jung, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante, tem o melhor papel e faz uma festa com ele (lembram de Alan Alda em Pequena Miss Sunshine?).

Love and Monsters (d. Michael Matthews, 2020, EUA)

Sim, mais um filme de fim de mundo, apocalípse, monstros, zumbis, aquelas coisas todas, que a gente já viu bastante, mas com um tom refrescante, um protagonista jovem e espirituoso (Dylan O’Brien) e um roteiro inteligente e energético que trabalha bem as convenções de gênero.

Soul (d. Pete Docter, 2020, EUA)

Um filme que prometia muito, mas entrega bem pouco. Todas as discussões filosóficas sobre morte são bastante chupadas dos trabalhos recentes de Don Hertzfeldt, e entregues num formato mais palatável e mastigado, e sem a invenção criativa e de cores do diretor americano.

É um filme interessante, de introdução, e curto muito como ele recria o metrô novaiorquino, mas penso que o corre-corre do final estraga um bocado a experiência.

Eurovision Song Contest: The Story of Fire Saga (d. David Dobkin, 2020, EUA)

Um eurotrash divertidíssimo. Eu como não entendo bulhufas de Eurovision, só como um local de onde saem um bando de música ruim, me diverti com uns estreótipos de vários países do velho continente e do espetáculo em si.

Apesar de pintarem uma Islândia meio mitológica e inocente com Will Ferreel, Rachel McAdams e Pierce Brosman como islandeses (!), o país funciona muito bem como uma divertida homenagem – parece até que os islandeses curtiram se ver e os fãs de Eurovision também aprovaram. 

Time (d. Garrett Bradley, 2020, EUA)

Uma história bonita e acho legal que o filme não busca em nenhum momento a salvação do casal protagonista ou apresentá-los como inocentes em alguma trama maldosa. A tese do filme justamente é a de que não justifica um crime passado ter repercussão por décadas na vida das pessoas à margem do sistema, algo que afeta endemicamente a comunidade negra.

Gosto do uso de imagens de arquivo, mas achei as discussões filosóficas a respeito do tempo bem perdidas na história toda.

Another Round  (Thomas Vintergerg [Druk], 2020, DIN)

Divertido, mas acho que busca muito ser um “Introdução à Filosofia” com umas referências pseudo profundas, mas pouco instigantes. Confesso que não entrei nem um pouco no filme, achei os personagens todos muito chatos e as questões discutidas um pouco bobas.

Senti falta de um aprofundamento maior entre as duas gerações do filme, o que seria óbvio pelo fato deles serem professores. Digo isso porque é clara a intenção do filme de apresentar estes quatro homens de meia-idade como de encontro a sua juventude perdida. 

Onward (d. Dan Scanlon, 2020, EUA)

Animação divertida, mas esquecível. Os personagens dos irmãos são bem interessantes, mas quando o pai volta à vida, acho que o filme se perde um pouco, pois deixa de se interessar pelos personagens e passa a se focar nas ações que são meio chatas. O luto que os irmãos sentiam por exemplo é bem mais instigante do que as tentativas para resgatar o corpo completo que vira o tema principal do filme.

Ma Rainey’s Black Bottom (d. George C. Wolfe, 2020, EUA)

As várias partes deste filme funcionam bem, mas não encaixam de algum modo. O filme é um tour de force maravilhoso de Viola Davis e Chadwick Boseman também está bem no filme. A direção de arte, figurino e maquiagem são estonteantes e a fotografia em tons quentes nos deixa com vontade de tomar coca-cola o filme todo.

Mas apesar de ser um retrato da gravação de um disco seminal para a indústria musical norte-americana, o filme é muito preguiçoso e se contenta em estar “ali”, registrando este momento dito importante, de maneira menos invasiva – e criativa – possível.

The Midnight Sky (d. George Clooney, 2020, EUA) 

Um filme bonito, espirituoso e de certa maneira filosófico, mas que termina por ser muito vazio, especialmente com a descoberta ao fim.

Da 5 Bloods (d. Spike Lee, 2020, EUA)

Um filme a qual estava muito interessado, mas talvez pelas expectativas eu sai bem frustrado. A história de um grupo de combatentes negros norte-americanos que volta ao Vietnã 45 anos depois para recuperar um tesouro escondido e  honrar um amigo morto lá vira um filme de ação qualquer destes que se vê na televisão.

As promissoras discussões sobre a importância dos soldados negros na Guerra do Vietnã e a relação contemporânea entre norte-americanos e vietnamitas (ainda mais com o novo fluxo turístico que atinge a região) são deixadas de lado sem cerimônias por Lee, num filme longo e pouco engajante.

The Life Ahead (d. Edoardo Ponti [La Vita davanti a sé], 2020, ITA)

Veículo para Sophia Loren, o filme funciona bem como tal. Ela interpreta Madame Rosa, uma sobrevivente do holocausto, que mora em Bari e cuida de um jovem senegalês. Na relação entre os dois, os personagens crescem, num filme bem batido, mas ainda bem bonito. O filme de 1977 é mais interessante. Loren não traz muita coisa, além de sua perssona e o filme pode dar um Oscar a diva italiana Laura Pausini.

Greyhound (d. Aaron Schneider, 2020, EUA)

Aqui novamente temos Tom Hanks dando um certo grau de dignidade a um filme, mas desta vez ele não tem muito a oferecer. É um filme que se passa todo um navio durante guerra, mas nunca parece nem um pouco claustrofóbico, é um filme de guerra, mas o perigo parece passar longe. É aquele típico filme de ação, em que alguns personagens vão morrer e o protagonista vai passar ileso, com muitas lições aprendidas que levará para a vida. 

My Octopus Teacher (d. Pippa Ehrlich, James Reed, 2020, AFS)

Imagens impressionantes do mundo submarino não sustentam um filme interessante, mas pouco criativo, com uma mensagem de auto-conhecimento que já está muito batida. As imagens do polvo brincando com a câmera são bem bonitas, e até trazem uma reflexão momentânea mas duram pouco.

Emma (d. Autumn de Wilde, 2020, RUN)

Uma outra adaptação de Jane Austen, sem nada de realmente interessante ou novo para agregar na discussão. Não sei se eu tava tão entediado que fiquei procurando mínimos detalhes, mas achei bacana como o filme apresenta tanta nudez em meio a opulências de figurino e cenário, e traz o vestir-se (e despir-se) como uma atividade cerimonial importante no século XIX, especialmente ao estabelecer relações entre mestre-empregado. Não à toa, o filme foi indicado a figurino e maquiagem. Mas pode ser só coisa da minha cabeça mesmo, já aviso. The Personal History of David Copperfield, indicado ao Globo de Ouro é uma adaptação de outra história meio batida, mas muito mais interessante.

Pinocchio (d. Matteo Garrone, 2019, ITA)

Socorro, quantas vezes Roberto Benigni vai interpretar Geppetto? O filme é bonito, tem umas cenas interessantes, a maquiagem é impressionante, mas o filme é um tanto frio e pouco criativo. Vale a pena ver se você não conhece a história, ou gosta muito dela, mas acho que as questões mais interessantes da obra ficaram de lado.

Over the Moon (d. Glen Keane, 2020, EUA/CHN)

O começo era promissor, mas um mês depois de ter assistido, tenho dificuldades em me lembrar do filme. Como Onward, o filme parte de um tema super interessante, o luto familiar – MUITO bem introduzido – para se transformar numa aventura meio barata, ainda que divertida, até que seus personagens superam medos e traumas e se reinventam.

The United States vs. Billie Holiday (d. Lee Daniels, 2021, EUA)

Outro filme biográfico sobre uma cantora fundamental da música norte-americana mas que é desprovido de algo mais do que a Importância da história ser contada. A direção e edição são muito fracas e a trajetória de embates de Holiday com o governo ganha força pela interpretação maravilhosa da estreante Andra Day, que aqui sim carrega o filme e o salva completamente.

The One and Only Ivan (d. Thea Sharrock, 2020, EUA)

Filme hollywoodiano típico da sessão da tarde, sobre um gorila e vários outros animais que vivem num circo e são explorados por seu dono de bom coração.

Mank (d. David Fincher, 2020, EUA)

Um filme muito aborrido, como os amigos espanhois e latinos falam. Li em algum lugar que é o típico filme da Netflix, em que você vê com o celular na mão buscando as referências jogadas pela trama, o que permite ao realizador (no caso o super competente David Fincher) só jogar elas no ar e não aprofundar nada direito. 

O preto e branco parece dar apenas um ar mais pomposo aos vários travellings do filme, que tenta endeusar um pouco a figura da competente Amanda Seyfried que interpreta Marion Davies enquanto ao interpretar Herman Mankiewicz Gary Oldman tenta se transformar num bêbado consciente memorável da história do cinema à la Albert Finney em À Sombra do Vulcão, mas falta um bom material para ele. 

Aqui, o público deve saber de antemão que ele acabou produzindo uma obra-prima e esses são os passos pelo qual teve que passar, tal qual as doze chagas de Cristo. Resumindo, uma lambança, mas com momentos que se você conhece Cidadão KAne, Uptown Sinclair ou outras das centenas de referências pode se divertir.

Mulan (d. Niki Caro, 2020, EUA)

Mais uma daquelas histórias batidas que de alguma maneira precisam ser contadas várias vezes. Mas nenhuma inventidade ou novidade neste filme formulaico.

One Night in Miami (d. Regina King, 2020, EUA)

Mais um filme da série “histórias reais poderosas para os espectadores de 2020”, é um filme que coloca quatro ótimos personagens num quarto e não sabe o que fazer com eles. Leslie Odom Jr. é o destaque ao interpretar Sam Cooke, prestes a lançar A Change is Gonna Come .

The Trial of Chicago 7 (d. Aaron Sorkin, 2020, EUA)

Difícil acreditar que Aaron Sorkin, roteirista dos maravilhosos A Rede Social e Steve Jobs, criou um filme tão verborrágico, mas com diálogos pavorosos e tão sem criatividade quanto este. Basta assistir a “Mangrove”, de Steve McQueen, também lançado este ano, para ver o quão fraco é.

Outro filme da linha de curiosidades históricas da Netflix, mas que parte para contar uma grande história, que nos emociona e esquecemos logo em sequência.

Tenet (d. Christopher Nolan, 2020, EUA)

Sinceramente, Nolan… nada de novo no front, um filme chato, confuso, megalomaníaco que serve mais para confundir do que qualquer coisa. Sobre o que é o filme, além de umas viagens loucas no tempo? Uma cena boa na ONU e a explosão no aeroporto até valem ser vistas, mas sinceramente…

Hillbilly Elegy (d. Ron Howard, 2020, EUA)

Muita gente estava ansiosa por esse filme no primeiro semestre e acho que só isso explica a indicação de Glenn Close num papel tão ruim quanto este. Ela traz o melhor que pode, mas não consegue salvar um filme insosso sobre valores familiares baseado nos maiores clichês possíveis, em que nem Amy Adams consegue ter uma boa interpretação. 

Better Days (d. Derek Tsang, 2019, CHN)

Um filme pavoroso repleto de clichês e imagens de caráter de exploração afetiva. Filme-tese sobre bullying e sobre o sistema escolar de Hong Kong que exige tanto de estudantes que estragam seus futuros. Mas o filme foca tanto nas misérias específicas de uma personagem (que acaba virando professora, então deu certo ao fim…) que parece só usar ela de vítima heróica.

Curtas e Médias

Curtas e médias são filmes perfeitos para se assistir durante o almoço, ou quando você tem aquele tempinho. Em geral, os festivais aceitam filmes de até 25 minutos e são os prêmios nos festivais ao redor do mundo – como o brasileiro É Tudo Verdade – que serve de inscrição ao Oscar. 

Talvez por conta da pandemia e o lançamento virtual da maioria sem a necessidade de compor sessões físicas, muitos filmes esse ano são bem longos, enquanto outros – em geral, os melhores! – são curtinhos. Mas quem sabe agora finalmente começa um bom mercado para médias?

The Present (d. Farah Nabulsi, 2020, PAL)

Um filme bem forte e interessante sobre os esforços do dia-a-dia de uma vida na Palestina, em especial numa cidade com fronteira imediata a um campo israelense, em que todos habitantes são constrangidos pelas mínimas coisas durante todos os dias em suas atividades regulares. Filme bem bonito, que emociona, que tem um tema poderoso, m

A Love Song for Latasha (d. Sophia Nahlie Allison, 2019, EUA)

Filme bem bonito sobre como a morte de uma menina negra por um motivo fútil incita protestos em Los Angeles e nos EUA. Esta parte é até conhecida, mas o filme foca no efeito de sua morte em sua família. A falta de imagens de arquivos parecia um grande problema, mas acaba criando uma força poderosa criativa com poder transformador. 

The Letter Room (d. Elvira Lind, 2020, EUA)

Oscar Isaac protagoniza o filme como um funcionário de um presídio que se apaixona (ou se excita?) pela esposa/namorada de um prisioneiro a partir das cartas sensuais que ela envia para ele. O ritmo é muito bom, e entrega um final interessante. 

Hunger Ward (d. Skye Fitzgerald, Michael Shueuerman, 2020, EUA)

Filme forte, potente sobre crianças famintas no Iêmen, país que sobre uma guerra civil há dez anos (confira um especial aqui sobre o país no Surto Olímpico). Talvez seja um pouco longo, mas todas histórias são tão incríveis, que vale a pena.

Yes-People (d. Gísli Darri Halldórsson, Arnan Gunnarssson, 2020, ISL)

Acho que o filme tinha espaço para ser excelente, mas a boa ideia que é bem trabalhada até cerca de metade do filme não sustenta tão bem até o final. Ainda assim, animação bem curiosa e fofa. 

White Eye (d. Tomer Shushan, 2019, ISR)

Filme impactante em seu estilo de tomada única, mas que parece servir mais para conquistar impacto, vagas e prêmio em festivais do que exatamente colaborar em algo com a história de um israelense comum que se vê envolvido (ou se envolve até não conseguir sair…) com imigrantes eritreus. 

Two Distant Strangers (d. Travon Free, Martin Desmond Roe, 2021, EUA)

Filme-tese, mas interessante, com um fim que segura bem e dá aquele golpe final impactante. Um filme perfeito para o momento atual mas que provavelmente funcionará bem no futuro. 

Burrow (d. Madeline Sharafian, 2020, EUA)

Um curta bem ao estilo pixar, fofo, inteligente e divertido. Seis minutos que vale muito a pena.

Genius Loci (d. Adrien Merigeau, 2020, FRA)

Uma animação francesa bem bonita e um pouco melancólica sobre o ambiente urbano. Personagens não são muito claros, as vezes, mas o estilo do filme conquista fácil.

If Anything Happens I Love You (d. Will McCormack, Michael Govier, EUA)

O filme é bem tocante, mas acho que as vezes poderia ser mais suave em sua apresentação de um casal  em luto pela morte de sua filha nas mãos de um assassino em série em sua escola. 

Do Not Split (d. Anders Hammer, 2020, EUA/NOR)

Mal comparando, seria um “Democracia em Vertigem” honconguês: pela primeira vez, a maior emissora do país não transmitirá o Oscar em 50anos e a China também proibiu a transmissão do evento e pediu para que não fosse dada tanta importância ao Oscar, que é o mais justo, importante e belo prêmio do cinema – contém ironia!

O filme é um passeio de câmera ao lado na onda da vídeo-militância que tanto chacoalhou os debates audiovisuais em meados da década passada e segue os protestos de Hong Kong contra a dominação chinesa. Como um filme que já se posiciona numa luta específica pela liberdade de expressão é ótima, mas claro que o buraco é mais embaixo.

Colette (d. Anthony Giacchino, 2020, EUA)

História bem emocionante sobre uma sobrevivente do holocausto que resolve voltar para a Alemanha a convite de uma historiadora, para prestar uma homenagem a seu irmão morto pelos nazistas. Bem convencional, nada muito original, mas bonito.

A Concerto is a Conversation (d. Ben Proudfoot, Kris Bowers, 2021, EUA)

Um jovem músico negro está prestes a estrear um concerto e conversa com seu avô, que abandonou o sul do país para ir a Los Angeles e se tornar um empresário. Duas gerações, duas Eras racistas, cada uma a seu jeito, se juntam. Mas justamente, acho que faltou uma colagem mais interessante, um diálogo entre as duas trajetórias, que parecem andar em paralelo até o fim. 

Opera (d. Erick Oh, 2020, CRS/EUA)

Eu até entendo o esplendor visual que o filme apresenta em tentar mostrar a vida e sociedade humana como uma grande orquestra, mas acho bem pobre cinematograficamente, com apenas uma ideia mal-trabalhada.

Feeling Through (d. Doug Roland, 2019, EUA)

Um filme bem bonito, e importante historicamente por trazer um ator cego-surdo como protagonista, alegadamente pela primeira vez num filme. Bonito, legal, mas nada muito incrível. 

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Filed under Cinema, Críticas

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