Previsões Eleições EUA

Longa Jornada Noite Adentro hoje na apuração norte-americana. Essa é minha previsão. Provavelmente os resultados só serão conhecidos quarta de manhã e resultados finais durante a semana. Lá vem textão de estado a estado. Mas no fim fui moderado na moderaçào: mesmo com uma virada de Trump e ele indo melhor do que nas pesquisas… perde por 268-270. No senado, os democratas que atualmente estão em desvantagem (47×53), viram para 50×48 e as duas corridas na Geórgia vão para segundo turno em janeiro, cada uma indo para um partido: 51×49.

Spoiler: em 2004 no meu fotolog eu também apostei em Kerry 270×268 Bush e deu Bush 286-252 x Kerry…

Vamos lá como cheguei nos números e coisas para ficar atento.

15 estados votam azul desde 1992 e 13 deles deve dar uma vitória larga para Biden: California (55), Connecticut (7), Delaware (3), Havaí (4), Illinois (20), Maryland (10), Massachusets (11), Nova Jersey (14), Nova York (29), Oregon (7), Rhode Island (4), Vermont (3) e Washington (12). DC (3) com menos de 90% democrata é perigo! A vitória mais difícil foi em 1980 com 74,89%. Dai já tem 182 votos.

Maine é outro que vota democrata desde 1992 e enquanto a vantagem diminuiu, deve dar 3 dos 4 votos para Biden. Colorado (9)e Virginia (13) eram republicanos na Era Bush, mas desde então se consolidaram como democratas, assim como Novo México (5). New Hampshire (4), com exceção de 2000 vota sempre democrata. Biden chega a 216.

Minnesota (10) foi o único estado a votar democrata em 1984 (lembre-se, DC não é estado e os democratas querem transformá-lo em estado, assim como Porto Rico, mas ai é outa história) e portanto tem a maior streak democrata, desde 1976. Trump quase virou em 2016, mas em 2020 ele tá mais distante. Mesma coisa de Nevada (6), outro estado Bushiano que Obama conseguiu manter como azul em 2016 e deve votar em Biden. Todos olhos vão para Michigan (16) e Wisconsin (10), anteriomente considerados seguros para o PD, mas que Trump levou e devem votar no Biden. Daí chegamos a 258. Segura o número.

No lado republicano, Trump deve levar com grande folga Nebraska (4), Arkansas (6), Louisiana (8), Tennessee (11), Alabama (9), Idaho (4), Kentucky (8), Dakota do Norte (3) e do Sul (3), Oklahoma (7), Virgina Ocidental (5) e Wyoming (3): 71 votos. Indiana (11) que votou em Obama em 2008 mas voltou para controle republicano em 2012 e Mississippi (6) também devem ir com folga para Trump: 88. Não espere resultado apertado, mas estou curioso pela diferença de Trump para Biden em Kansas (6) e Utah (6). O maximo que um democrata conseguiu desde 1972 em Utah foi Obama com 34.41. em 1968, Hubert Humphey levou 37.07; Biden aparece perdendo por 41,7×55,7. Em Kansas, se Biden fizer mais do que 41,65 de Obama em 2008 vai ser muito e ele está com 45,7% na pesquisas.

Já com 100 votos, Trump tem folga também em: Montana (3), onde a vantagem tem diminuído e Clinton levou em 1992, Carolina do Sul (9) que vota republicano desde 1980, Missouri (10), onde Clinton venceu duas vezes e Obama quase levou em 2008 e Alaska (3). Alaska é um dos quatro únicos estados fora da Muralha Azul em que Donald Trump teve forte queda em relação a Mitt Romney. Joe Biden pode fazer a melhor campanha democrata desde 2008 e talvez o aquecimento global e políticas de petróleo podem transformar o Alasca em um estado decisivo e muito vai depender desta eleição. Lembrando que para os moradores é bom que o estado seja competitivo, já que traz atenção nacional e dos políticos para os problemas locais.

Bem, daí Trump tem 125 votos. 13 estados são considerados competitivos este ano, entre eles New Hampshire, Maine, Minnesota, Michigan e Wisconsin que já falamos. O único estado em que Trump deve levar com certa folga ainda é Texas (38). As pesquisas apontam vitórias apertadas (50,2×48,9), mas Tump deve chegar aos 163 votos. E lembre-se, Biden tá com 258. 

Ohio e Iowa são autênticos swing states, que mudam os votos durante os anos. Iowa com 6 votos não parece influenciar tanto, mas…  Ohio com seus 18 votos tem a tendência de apontar o rumo da nação e desde 1964 quem vence lá ocupa a Casa Branca. Trump venceu com folga em 2016 e pesquisas sempre mostraram empate ou indecisão, mas em geral favorecendo os republicanos. Mais 24 pra conta de Trump: 187×258.

Georgia (16) e Florida (29) são estados vizinhos sulistas. Georgia vota republicano desde 1996 e Florida caminha com o vencedor nacional desde 1996. Georgia pode ter a melhor votação para um democrata desde Jimmy Carter – que é de lá – em 1980.  Biden liderou brevemente e Trump nunca decolou, mas acho que ainda leva. Biden SEMPRE liderou Florida, e chega com 50,8×48,5 MAS acho que Trump leva aqui também, talvez por muito pouco, coisa de 48,85×48,84 de Bush v. Gore em 2000. Daí Trump vai para 232 e Biden fica em 258. Se Biden vencer Ohio, Florida ou Georgia e aqueles acima em que é claramente favorito, fecha a conta.

Carolina do Norte (15) tinha uma vantagem de 3 pontos para Biden, mas últimas pesquisas o colocam 2 pontos a frente. Nos últimos 40 anos só Obama venceu em 2008 e perdeu em 2012. As pesquisas ou dizem empate ou levemente democrata, mas eu aposto em Trump aqui que chega a 247. De novo, vencendo aqui, Biden fecha a conta.

Daí, chegamos na Pensilvania (20), que votou democrata entre 1992-2016, e onde Hilary Cliton sentia-se segura… com 5 pontos nas pesquisas. Biden também tem vantagem de 5 pontos, e chegou a 7 duas semanas atrás. Todos números e pesquisas botam Biden e Biden vencendo aqui praticamente assegura a vitória, mas meu instinto aponta para vitória de Trump, que chega a 267 pontos e vira diante de Biden com 258. Lembando que os votos pelo correio vão demorar a ser contados, então Trump pode ter uma liderança pequena na noite de terça / manhã de quarta e sofrer virada enquanto votos por correios chegam e são contados. E claro… acionar a justiça. 

Daí falta só Arizona (11), que vota republicano desde 1952, com exceção de Bill Clinton em 1992, com 46,52%, contra 44,29% de Bob Dole e 7,98% de Ross Perot. Lyndon Johnson conseguiu 49,45% em 1964, perdendo por menos de 5 mil votos. Mas estranhamente, pesquisas apontam que Joe Biden pode ser o primeiro democrata desde Henry Truman a ter mais de 50% de votos no estado e levar. Aposto que Biden vence e chegue a 269 votos, contra 267 de Trump. Mas pera, não precisa de 270?

É que Nebraska e Maine dão 2 votos para o vencedor estadual e um voto por vencedor distrital. Maine é principalmente democrata e Nebraska republicana, com exceção do 2º distrito de ambos. Trump rompeu vitórias democratas no segundo distrito de MAine em 2016 com 51×41. Pesquisas apontam leve vantagem de Biden, mas… vou de Trump aqui que chega a 268×269 :O

Daí aproveito para responder: E se der empate? A Presidente Selina em “Veep” (série genial, aliás), vítima de empate, reclama de não terem criado um número ímpar de delegados. Dando empate, a Câmara de Deputados escolhe o Presidente e o Senado escolhe o Vice. 

Enquanto os democratas tem uma larga vantagem e deve continuar a ter na Câmara dos Deputados, cada estado tem um voto, e aí os republicanos passam a ter pequena vantagem, mas claro vai depender do Congresso eleito hoje.

No Senado, vantagem republicana de 53 a 47 deve cair. 12 cadeiras democratas estão em jogo e os republicanos devem virar no Alabama. Por outro lado, 23 cadeiras republicanas estão em jogo, com 7 delas seriamente disputadas: democratas são favoritos para virar em Arizona, Colorado, Maine e Carolina do Norte. Assim, os democratas ganham 3 (50×50) e outras 3 estão indefinidas. No Iowa, o candidato democrata é levemente favorito a tomar a vaga do republicano, mas provavelmente o resultado será bem próximo ao resultado presidencial. Aposto em vitória republicana. 

Daí as duas cadeiras restantes são na Geórgia. Uma delas apresenta leve vitória do candidato republicano de 49,3% contra 49%, mas se nenhum candidato chegar a 50% há segundo turno em janeiro. Mesma coisa na outra, corrida especial para repor a vaga de um político aposentado, em que há mais de um candidato republicano e democrata. Provavelmente nenhum chega a 50% mas o candidato democrata que passar é considerado favorito. Novamente, os resultados na eleição presidencial da Georgia terão efeitos aqui. 

Enfim, aposto que democratas tenham 50 cadeiras e republicanos 48 e cada um vença mais uma na Georgia em janeiro (51×49). Agora e se der 269×269 para Presidente e 50×50 no Senado, quem é o vice? não sei…

Mas voltando para nossa simulação presidencial… no voto que faltava, segundo distrito de NEbraska, onde fica Omaha… pesquisas aponta vantagem de 4,5 pontos para Biden e acho que leva, fechando em 270×268.

Exatamente mesmo placar que apostei no eu fotolog em 2004, e  Bush venceu por 286-252  cuidado… https://web.archive.org/web/20041130094214/http://www.fotolog.net/nagime/?photo_id=8525314

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#Desafio REF @dia9- “A Flor do Pântano” (“Tammy and the Bachelor”, 1957, Joseph Pevney)

Demorou, mas chegou: primeiro filme bem bobo do livro, “A Flor do Pântano” é um filme bem esquecível e total veículo para Debbie Reynolds, interpretando uma menina do interior com 17 anos e sonhos de grandeza, de conhecer o mundo, mas ainda ligada a seus valores familiares. Rubens admite que a fita é ingênua e uma “sessão da tarde de antigamente”, e justifica sua seleção pela presença de Debbie. Por mais que eu adore ela e ela disparada é a melhor coisa do filme (Leslie Nielsen, décadas antes do sucesso em Corra que a polícia vem ai, é meio canastrão, mas não estraga), não vejo muitos méritos no filme. Mas convenhamos que é menos irritante que atentando aos astros de “Cantando na Chuva” é menos irritante que a série “E a mula falou”, estrelada pelo Donald O’Connor/. De qualquer maneira como eu digo ao D., é um filme que eu nunca veria, provavelmente, se não fosse pelo livro do Rubens… mas como diria Ariana Grande, thank you, next!

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#DesafioREF @dia8- “Feios, Sujos e Malvados” (Ettore Scola, 1976)

Que filme! Rubens Ewald Filho aponta que “Scola considera os favelados como colonizados, só que defende a tese de que o corrompido nunca é culpado. O responsável é sempre corruptor, ou seja, sociedade”.

Concordo quando ele diz que “coloca os personagens da forma mais humana posívelm, retratando-os sem vergonha ou condescência”. Os sentimentos, emoções, atitudes e ações de muitas personagens são naturalmente universais, reconhecíveis em várias pessoas. É um filme que apesar do visual claustrofóbico, sujo e pesado, é antes de tudo um filme humano.

O elenco está numa sintonia impressionnante. Fica a sensação, óbvia de que alguns personagens poderiam ter sido mais explorados, que alguns atores não foram tão bem aproveitados… mas num filme tão plural, que poderia se abrir para uma série ou grande épico não pode-se esperar outra coisa.

Nino Manfredi é um protagonista fenomenal, o último sobrevivente da fase de ouro da comédia italiana, neste filme com uma dignidade impressionante (“com ressonância de tragédia shakespereana”, diz REF) que apesar de todos as ações seu Giacinto ainda é alguém humano, com um olhar assustador pois podemos o reconhecer em pessoas próximas a nós.

Assim, percebemos naturalmente que nós também somos, obviamente um personagem daquela casa em que vivem mais de vinte pessoas de quatro gerações de uma família (importante ressaltar aqui o achado final maravilhoso!), e daria um ótimo teste de buzzfeed saber qual. Luciano Pagliuca tem um certo físico típico de um Ninetto Davoli, pensei que fosse um ator regular de Pasolini, e me surpreende que ele não tenha feito nenhuma outra película.

Franco Merli, famoso por Saló, exibido também em 1976 é marcante também como o filho que se prostitui vestido de mulher, mas se aproveita da cunhada. Inclusive, essa personagem é a maior exemplificação do sentimento de comunidade que une a favela, em que não existem muitos julgamentos – ou se eles existem, são privados e o sentido de união e apoio aos próximos é maior do que tudo. Maria Luisa Santella é outro destaque e tem a primeira participação de maneira impressionante, em um momento de contemplação típico de um cinema de Antonioni, que Scola tenta nos mostrar não acontece apenas na alta classe. Todos sonhamos, sentimos, e pensamos na vida, no passado, no futuro.

Algumas cenas ou passagens marcantes: a Basílica de São Pedro ao fundo, o Vaticano e toda pompa e história tão perto e tão longe; as crianças, sem nenhuma ajuda governamental ou algo assim brincando num playground trancado enquanto os adultos seguem a vida; a mãe do protagonista, uma velhinha responsável pela pensão que sustenta a casa passando o dia na RAI, vendo filmes e aprendendo inglês; a RAI que vai filmar alguma matéria de “importância social” na favela; o treino do coro; os “banquetes” na casa de praia e no bar da favela, etc.

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#DesafioREF @Dia7- “Fantasma do Paraíso” (Brian de Palma, 1974)

Que filme sensacional, minha gente!! Tem um Q de Hitchock nas referências a Psicose e a O Homem que Sabia Demai, mas um espírito bem próprio que como Rubens comenta em seu texto é um pouco parecido com Tommy, mas melhor. 

A história é bem louca, sendo impossível prever o que acontecer e conta com cenas memoráveis. Em algum momento acho que se perde um pouco, talvez com tantas referências e questòes apresentadas que nem sempre se formam de forma mais coesa. Mas ainda assim tem um visual espetacular e músicas cativantes e é um filme forte. 

AS músicas são incríveis, em especial a primeira, “Faust”, bem linda. Abaixo a versão sintetizada que lembra bastante Daft Punk e não por acaso, o compositor e autor Paul Williams é um dos colaboradores da banda francesa:

Um filme memorável sobre o poder da criação e influência artística, que ainda toca em temas do envelhecimento e memória – uma quase gag interessante faz referência a um “Arquivo Swan” que a figura interessante do empresário musical (PAul Williams) parece gerir. 

O filme deve ser espetacular de ser visto no cinema. Rubens Ewald Filho diz ter sido um dos “primeiros filme cults de verdade no Brasil”. O elenco é espetacular, em especial Williams. William Finley, um frequente colaborador de Brian De Palma também está ótimo, além da figura andrógina de Gerrit Graham e Jessica Harper, a protagonista de Suspiria

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#DesafioREF @Dia6- “O Estranho Caminho de São Tiago ou A Via Láctea” (La voie Lactée, 1969, Luis Buñuel)

Foi sem dúvida o filme mais difícil que assisti neste desafio e já vi um pouco cansado. Não tem como insistir e apenas de curtir o filme, e quem sabe, revisitá-lo em outro momento. Nem tenho muito o que falar também.

De qualquer maneira, é um filme delicioso, divertido, por mais que não faça muito sentido a princípio. O filme é uma coleção de momentos de heresia da igreja e várias sequências são geniais e tem diálogos super ferozes. Rubens Ewald Filho fala que é ö filme de um jovem contestador que faz brincadeiras à la Godard”e realmente algumas coisas do filme lembram Weekend do ano anterior. Um filme para ver ou rever e que pode ser curtido sem muita preocupação ou ser analisado em detalhes a cada sequência.

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#DesafioREF #Dia5 – “Diabólicos Sedutors” ( “Something for Everyone”, 1970, Harold Price)

Um filme super delicioso de assistir, uma espécie de variação de “Teorema”, mais livre e que se leva menos a sério do que o trabalho de Pasolini. Michael York tem um corpo estranho e um olhar super sedutor, com sua bicicleta e shortinho vai conquistando tudo e todos. Ao avistar o castelo dos seus sonhos e livros de infância, Conrad parte destinado a fazer parte daquele mundo.

Os habitantes do castelo bavariano vão pouco a pouco se apaixonando pelo estranho que traz uma vida nova: a mãe viúva, Condessa Herthe von Ornstein (Angela Lansbury), e seus filhos Konrad  (Anthony Corlan e Jane Carr). A família decadente é salva pelo casamento arranjado de Konrad e de Annelisse (Heidelinde Weis), filha de turistas americanos novo-ricos.

O filme não poupa críticas, seja à burguesia e nobreza decadente vivendo nas ruínas de um passado e dos novos ricos apegas a memórias e aos desejos de uma fantasia;  até uma inusitada aparição do filho de um antigo coronel nazista que se apega a sua memória.  

Comentei brevemente no texto de “Amor Estranho Amor” que era a contribuição tardia brasileira a uma tradição de liberdade sexual na tela e é muito perceptível aqui. Konrad é apresentado como um homem bissexual, mas que o sexo e o desjeo não somente é totalmente livre, quanto é usado como moeda de poder. Se tem alguém em todo o filme que ele não se entrega a qualquer relação é justamente a mais nova, gordinha e chata, e parece apontar que sim, Konrad ainda que usando de seu charme, escolhe os parceiros por um desejo, mas o final surpreendente quebra essa ideia. É uma breve e súbita mudança de perspectiva, mas que é importante. Ele confessa que “tem suas preferências” para Konrad, mas é difícil ter certeza se é uma fala honesta ou interesseira, inclusive pelo destino dado a seu primeiro relacionamento no filme. 

Rubens Ewald Filho diz que Lansbury “tem pouco mais a fazer que dar longas caminhadas”, mas eu discordo. Acho ela sensacional e interessante no filme e se como REF mesmo diz, seus diálogos são memoráveis é em parte por conta de sua presença e atuação. O roteiro é sensacional e os diálogos fluem perfeitamente.

York é fascinante e tem seu melhor momento no cinema, a meu ver, superior ao de Cabaret em que faria basicamente um personagem parecido mas num mundo mais “realista”. Anthony Corlan (atualmente conhecido como Anthony Higgins), que não conseguiu uma carreira apesar do porte de galã, também está muito bem como o jovem atormentado e apaixonado por Conrad.

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#DesafioREF #Dia4- “De Punhos Cerrados” (“I pugni in tasca, 1965) de Marco Bellocchio

Um poderoso e inquietante filme sobre o papel da família na sociedade burguesa italiana dos anos 1960, mas que soa atual e poderoso ainda para a atualidade. A família isolada numa casa decrépita e a agonia de ver tantos personagens sem rumo, . 

Rubens Ewald Filho, que considerou esse filme o melhor do ano dentre os que estrearam no Brasil em 1970, fala em “família de epilépticos” e “todos doentes”, mas nem sei se isso é importante. O tema da doença em si é um tanto negligenciado, mas o filme lida com essa série de personagens que parece reconhecer um local na sociedade em que estão mais sugando do que participando e ficam felizes em ocupar tal espaço.

REF fala ainda de “choque final: brutal, humano  desesperado” e que “o espectador é literalmente violentado em sua plácida comodidade, em todas as coisas que ele acreditou serem: sagradas, intocáveis e imortais”. Talvez o tempo tenha retirado este caráter mais chocante e revolucionário do filme, o que é uma benção: fica o retrato cru e poderoso de uma família num espaço xis de tempo e espaço, mas que não pretende-se ser original: é uma história que se passa a todo tempo e a todo lugar e não à toa a parte final envolve tantos espelhos e recordações).

Curioso que REF coloca o protagonismo no irmão mais velho Augusto (Marino Masé) e parece compreender que o irmão mais novo Alessandro (Lou Castel), age daquele jeito para ajudá-lo. Eu já discordo desta interpretação. Me parece que Alessandro, em tanto que reconhecendo suas limitações e seus problemas a princípio pensa sim em livrar o irmão (como na famosa cena do passeio) de todo o sofrimento, mas depois ele resolve tomar para si o protagonismo de sua vida e percebe que ele também tem o “direito” de viver uma vida normal, longe destas pessoas neuróticas a seu lado.

É uma mudança de chave importante e um redirecionamento de interesses e perspectivas que tanto assusta quanto liberta, expondo assim as assustadoras liberdades da consciência humana. A mesma família que afaga e faz cafuné e o faz esquecer dos problemas, é aquela que causa todos os conflitos, num eterno círculo vicioso e tóxico, que Alessandro identifica e tenta resolver a seu modo.

É o filme de estreia de Marco Bellocchio, com uma interpretação poderosa de Lou Castel, também em seu primeiro filme. Eu já era fã dele em Warnung vor einer heiligen Nutte de Fassbinder e fiquei curioso para ver mais filmes com ele (especialmente um enigmático Cambio de Sexo de Vicente Aranda, de 1976). Ele por vezes parece estar num filme (contemporâneo) de Andy Warhol especialmente quando a câmera foca apenas nele com fundo preto, focalizando neste corpo todas as dores e anseios do mundo, ainda que forçando uma sensação de isolamento completo, um desligar-se não só das dores e dificuldades, mas especialmente das outras pessoas, que pode não somente ser imoral, mas mortal.

Quanto à Bellocchio, que eu conheço principalmente pelo cinema político do século XXI, já botei na listinha gigante Il diavolo in corpo, baseado no prodígio francês Raymond Radiguet.

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#DesafioREF #Dia3 – “Cria Cuervos” (1976) de Carlos Saura

Primeira obra-prima que vi neste desafio. Não conheço muito do cinema de Carlos Saura nos anos 1970, quando ele era bem “cult” (sempre tive curiosidade por “Mamãe faz 100 anos”), e não esperava um filme tão lindo quanto este. Escrito especificamente para Ana Torrent, então com 9 anos, e vinda do sucesso de “O Espírito da Colmeia”, é um filme cheio de ternura sobre uma infância difícil ainda que num ambiente aparentemente tranquilo.

Ainda sofrendo pela morte de sua mãe, Ana culpa o pai pelos momentos tristes e pela infelicidade da mãe, interpretada por Geraldine Chaplin e o envenena, passando a morar com a tia rígida e a avó solitária, que passa seus dias silenciosa numa cadeira de rodas além de suas fieis companheiras: as duas irmães (uma mais velha e uma mais nova) e a empregada doméstica Rosa que cuida da família há anos..   

É neste ambiente feminino, em que todos os homens em volta são todos militares que as seis mulheres (ou sete, com a mãe, ou oito com Ana adulta, ambas interpretadas por Chaplin). A Ana adulta é dublada por Julieta Serrano em um castelhano fluente, enquanto a mãe de Chaplin com o castelhano permado por um leve sotaque dá a sensação sempre de estar em um fora de lugar, um local que está sufocando sua própria identidade.

Não a toa, o filme é lido como um retrato perfeito dos últimos dias do franquismo, em que uma casa grande e abandonada – a tia repete sempre do estado em que ela estava -, se esconde por trás de uma pujante avenida madrilenha, com suas publicidades. É um filme que provavelmente ressoava com o Brasil e com os dois outros filmes já vistos – seja a tirania política de “A Confissão” ou a mansão isolada no meio de uma metrópole de “AMor Estranho Amor”

Acho particularmente bonito como Saura cria a personagem da tia, entre o autoritarismo e falta de amor maternal, mas ao mesmo tempo uma preocupação real no que ela acha que é o melhor para as meninas. É uma caracterização complexa, mas Monica Randall encontra o tom perfeito. Florinda Chico é outro achado como a empregada amorosa e que luta comandar a casa de forma silenciosa. 

As cenas relacionadas a memória são bem emocionantes e não a toa, o filme inicia-se com uma panorâmica por um caderno de fotos. O vai e vem da mãe de Ana é bem bonito, numa relação quase proustiana que a menina tem com os locais e objetos da casa: as cenas na piscina em especial são muito bonitas. O uso de “porque te vas”, como balada bubble gam que expressa os sentimentos tristes de Ana é perfeito, assim como a cena maravilhosa em que sua mãe toca uma música triste no  piano.

Um grande achado de Saura e da montagem foi intercalar cenas do presente com o futuro, em que Ana reflete sobre sua infância, de forma muito seca e triste. O filme funciona bem como uma desmistificação da infância e poderia entrar em qualquer mostra de filmes sobre crianças assustadoras, talvez por mostrar simplesmente que as crianças não são tão fofas quanto gostamos de imaginar – daí lembro do “Won’t you be my neighbour?”, filme incrível sobre Fred Rogers.

Como Rubens Ewald Filho aponta em seu texto, existe uma fronteira entre o real e imaginário que perpassa todo o filme, notadamente na “surpresa” do final que acaba colocando muita coisa em cheque, mas dando uma maior complexidade às imagens apresentadas anteriormente. Um filme que provavelmente ganhará muito em uma revisão. 

Esse texto é parte de um desafio de finalmente assistir, durante o mês de junho, a todos os filmes listados no “Cult-Movies do Século XX” de Rubens Ewald Filho no mês de junho. Ele inclui 101 filmes em seu livro, que foi o primeiro de cinema que comprei em dezembro de 2001 – junto com eus outros “Os cem melhores filmes do século XX” e os “100 Maiores Diretores”. Até maio eu já tinha visto 76 e resolvi me desafiar em ver esses 25 filmes que sempre me marcaram pelos títulos e informações incluídas no livro. No final do mês comento sobre os outros que já tinha visto e faço minha lista de preferidos. Foi o quarto filme visto.

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#DesafioREF #Dia2 – “A Confissão” (L’Aveu, 1970) de Costa-Gavras

Sou um grande fã de “Missing” e curto muito “Z” também mas não conheço tanto os outros filmes políticos de Costa-Gavras e foi um prazer assistir “A Confissão” (Faltam “Estado de Sítio”, “Crime no carro dormitório” e “Um homem aa mais”, dentre os clássicos). O interesse maior pelo lado político aqui foi exibir os mesmos métodos de tortura e opressão política mas do lado do regime comunista, num país do centro europeu. A referência aqui é ao caso que matou Rudolph Slanaky e acabou absolvendo Arthur London, autor do livro que originou o filme.

O início do filme é bem confuso, com as muitas referências à segunda guerra, guerra civil espanhola e luta pelo socialismo e anti-nazismo, além de evidentes disputas internas pelo poder. O que aparentava ser um complicado quebra-cabeças político, se torna um libelo contra o autoritarismo em cenas gráficas e fortes de tortura contra o político que é acusado de ter uma conexão com um espião britânico ao qual era próximo durante a Guerra.

O julgamento falso e midiático é apresentado de forma correta e interessant e as questões políticas permanecem atuais, mas o filme segue uma didática muito clara. Assim como o filme acusa o teatro apresentado pelos líderes do Partido Comunista, Costa-Gavras sabe de imediato quem interpreta qual papel neste espetáculo. Falta o humanismo neste filme, ainda que como Rubens Ewald Filho comenta em sua crítica que “A Confissão é uma reflexão sobre o sujeito e o objeto da política: o homem”.

Os atores seguram muito bem, seja Yves Montand que incorpora com precisão o peso de uma tortura física e mental nos muitos meses de prisão, e especialmente Simone Signoret, a prisão em liberdade, vivendo um dia-a-dia pesado e sem perspectivas seja para o seu futuro ou para a relação com  Ainda que o filme deixe claro que “Nesta engrenagem, o homem é a maior vítima”, falta no filme o aprofundamento seja de Gerard (Montand) enquanto tenta sobreviver na prisão ou de sua esposa Lise (Signoret) tentando readequar sua vida de esposa de um poderoso político a uma esposa de um acusado”. 

Visto em 2 de junho de 2020, em Campos dos Goytacazes

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#DesafioREF #Dia1 “Amor, estranho amor”

Adorei ter começado o desafio com o único filme brasileiro da lista e justamente um que eu tento ver desde o início da era da internet. Acho que eu até baixei ele no emule mas nunca vi. Inclusive consegui ver o filme através de uma cópia norte-americana, já que ainda existe todo o imbróglio jurídico do filme, ao qual o Rubens Ewald Filho já tinha mencionado 19 anos atrás. O crítico participou inclusive como ator da “fita” e conta detalhes de bastidores dos três dias em que participou. 

REF ainda revela que ele escreveu o texto-roteiro de um trailer/making-off estrelado por Xuxa, ao qual eu já vi em um dos arquivos de cinema no qual trabalhei. Achei bacana que Xuxa já defendeu o filme nas redes, mas é a principal responsável pelo atual bloqueio jurídico. Curioso também que Vera Fischer tenha passado imune às críticas, já que tem cenas ainda mais fortes com o garoto. É importante ressaltar que o filme é talvez uma contribuição brasileira a um tema que era recorrente nos anos 1970 no cinema em todo mundo, o início e amadurecimento sexual de crianças (em geral, garotos),  em títulos como “Ernesto”, “Um Sopro no Coração” e “Uma Criança na Multidão”.

Saindo da polêmica e indo para o filme, é um belíssimo estudo de memórias a partir da arquitetura de uma casa, no caso o bordel onde Hugo (curioso não ser Marcelo) passou alguns dias em “visita” a mãe, interpretada por Vera Fischer, amante favorita de um importante político paulista às vésperas do Golpe de 1937. É um belíssimo filme sobre o olhar a um período marcante de uma vida, uma situação-limite em que vida pessoal, romântica, sexual, política, etc se aproximam.

O caráter político serve de background, e dá um toque mais impressionante às maquinações e relações entre personagens. O filme todo é visto a partir de uma visita de Hugo antes, já um político importante agora, antes de doar a casa para um instituto cultural. As cenas em que o Hugo adulto está presente e dialoga com a sua infância são particularmente bonitas. Em seu livro, REF defende que “finalmente Khouri deixou de complicar, mas nem por isso se tornou óbvio”.

Dito tudo isso, Fischer domina completamente as cenas e é uma pena que sua carreira cinematográfica não seja mais valorizada (alô alguém aí para organizar uma Retrospectiva Vera!). Desde sua entrada em cena ao descer a grande escada, tal qual uma diva hollywoodiana, ela domina as sequências de maneira impressionante e até consegue ter uma boa química com Tarcísio Meira, tradicionalmente durão, mas que aqui está bem.

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