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#Desafio REF @dia9- “A Flor do Pântano” (“Tammy and the Bachelor”, 1957, Joseph Pevney)

Demorou, mas chegou: primeiro filme bem bobo do livro, “A Flor do Pântano” é um filme bem esquecível e total veículo para Debbie Reynolds, interpretando uma menina do interior com 17 anos e sonhos de grandeza, de conhecer o mundo, mas ainda ligada a seus valores familiares. Rubens admite que a fita é ingênua e uma “sessão da tarde de antigamente”, e justifica sua seleção pela presença de Debbie. Por mais que eu adore ela e ela disparada é a melhor coisa do filme (Leslie Nielsen, décadas antes do sucesso em Corra que a polícia vem ai, é meio canastrão, mas não estraga), não vejo muitos méritos no filme. Mas convenhamos que é menos irritante que atentando aos astros de “Cantando na Chuva” é menos irritante que a série “E a mula falou”, estrelada pelo Donald O’Connor/. De qualquer maneira como eu digo ao D., é um filme que eu nunca veria, provavelmente, se não fosse pelo livro do Rubens… mas como diria Ariana Grande, thank you, next!

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#DesafioREF @Dia7- “Fantasma do Paraíso” (Brian de Palma, 1974)

Que filme sensacional, minha gente!! Tem um Q de Hitchock nas referências a Psicose e a O Homem que Sabia Demai, mas um espírito bem próprio que como Rubens comenta em seu texto é um pouco parecido com Tommy, mas melhor. 

A história é bem louca, sendo impossível prever o que acontecer e conta com cenas memoráveis. Em algum momento acho que se perde um pouco, talvez com tantas referências e questòes apresentadas que nem sempre se formam de forma mais coesa. Mas ainda assim tem um visual espetacular e músicas cativantes e é um filme forte. 

AS músicas são incríveis, em especial a primeira, “Faust”, bem linda. Abaixo a versão sintetizada que lembra bastante Daft Punk e não por acaso, o compositor e autor Paul Williams é um dos colaboradores da banda francesa:

Um filme memorável sobre o poder da criação e influência artística, que ainda toca em temas do envelhecimento e memória – uma quase gag interessante faz referência a um “Arquivo Swan” que a figura interessante do empresário musical (PAul Williams) parece gerir. 

O filme deve ser espetacular de ser visto no cinema. Rubens Ewald Filho diz ter sido um dos “primeiros filme cults de verdade no Brasil”. O elenco é espetacular, em especial Williams. William Finley, um frequente colaborador de Brian De Palma também está ótimo, além da figura andrógina de Gerrit Graham e Jessica Harper, a protagonista de Suspiria

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#DesafioREF #Dia5 – “Diabólicos Sedutors” ( “Something for Everyone”, 1970, Harold Price)

Um filme super delicioso de assistir, uma espécie de variação de “Teorema”, mais livre e que se leva menos a sério do que o trabalho de Pasolini. Michael York tem um corpo estranho e um olhar super sedutor, com sua bicicleta e shortinho vai conquistando tudo e todos. Ao avistar o castelo dos seus sonhos e livros de infância, Conrad parte destinado a fazer parte daquele mundo.

Os habitantes do castelo bavariano vão pouco a pouco se apaixonando pelo estranho que traz uma vida nova: a mãe viúva, Condessa Herthe von Ornstein (Angela Lansbury), e seus filhos Konrad  (Anthony Corlan e Jane Carr). A família decadente é salva pelo casamento arranjado de Konrad e de Annelisse (Heidelinde Weis), filha de turistas americanos novo-ricos.

O filme não poupa críticas, seja à burguesia e nobreza decadente vivendo nas ruínas de um passado e dos novos ricos apegas a memórias e aos desejos de uma fantasia;  até uma inusitada aparição do filho de um antigo coronel nazista que se apega a sua memória.  

Comentei brevemente no texto de “Amor Estranho Amor” que era a contribuição tardia brasileira a uma tradição de liberdade sexual na tela e é muito perceptível aqui. Konrad é apresentado como um homem bissexual, mas que o sexo e o desjeo não somente é totalmente livre, quanto é usado como moeda de poder. Se tem alguém em todo o filme que ele não se entrega a qualquer relação é justamente a mais nova, gordinha e chata, e parece apontar que sim, Konrad ainda que usando de seu charme, escolhe os parceiros por um desejo, mas o final surpreendente quebra essa ideia. É uma breve e súbita mudança de perspectiva, mas que é importante. Ele confessa que “tem suas preferências” para Konrad, mas é difícil ter certeza se é uma fala honesta ou interesseira, inclusive pelo destino dado a seu primeiro relacionamento no filme. 

Rubens Ewald Filho diz que Lansbury “tem pouco mais a fazer que dar longas caminhadas”, mas eu discordo. Acho ela sensacional e interessante no filme e se como REF mesmo diz, seus diálogos são memoráveis é em parte por conta de sua presença e atuação. O roteiro é sensacional e os diálogos fluem perfeitamente.

York é fascinante e tem seu melhor momento no cinema, a meu ver, superior ao de Cabaret em que faria basicamente um personagem parecido mas num mundo mais “realista”. Anthony Corlan (atualmente conhecido como Anthony Higgins), que não conseguiu uma carreira apesar do porte de galã, também está muito bem como o jovem atormentado e apaixonado por Conrad.

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#DesafioREF #Dia4- “De Punhos Cerrados” (“I pugni in tasca, 1965) de Marco Bellocchio

Um poderoso e inquietante filme sobre o papel da família na sociedade burguesa italiana dos anos 1960, mas que soa atual e poderoso ainda para a atualidade. A família isolada numa casa decrépita e a agonia de ver tantos personagens sem rumo, . 

Rubens Ewald Filho, que considerou esse filme o melhor do ano dentre os que estrearam no Brasil em 1970, fala em “família de epilépticos” e “todos doentes”, mas nem sei se isso é importante. O tema da doença em si é um tanto negligenciado, mas o filme lida com essa série de personagens que parece reconhecer um local na sociedade em que estão mais sugando do que participando e ficam felizes em ocupar tal espaço.

REF fala ainda de “choque final: brutal, humano  desesperado” e que “o espectador é literalmente violentado em sua plácida comodidade, em todas as coisas que ele acreditou serem: sagradas, intocáveis e imortais”. Talvez o tempo tenha retirado este caráter mais chocante e revolucionário do filme, o que é uma benção: fica o retrato cru e poderoso de uma família num espaço xis de tempo e espaço, mas que não pretende-se ser original: é uma história que se passa a todo tempo e a todo lugar e não à toa a parte final envolve tantos espelhos e recordações).

Curioso que REF coloca o protagonismo no irmão mais velho Augusto (Marino Masé) e parece compreender que o irmão mais novo Alessandro (Lou Castel), age daquele jeito para ajudá-lo. Eu já discordo desta interpretação. Me parece que Alessandro, em tanto que reconhecendo suas limitações e seus problemas a princípio pensa sim em livrar o irmão (como na famosa cena do passeio) de todo o sofrimento, mas depois ele resolve tomar para si o protagonismo de sua vida e percebe que ele também tem o “direito” de viver uma vida normal, longe destas pessoas neuróticas a seu lado.

É uma mudança de chave importante e um redirecionamento de interesses e perspectivas que tanto assusta quanto liberta, expondo assim as assustadoras liberdades da consciência humana. A mesma família que afaga e faz cafuné e o faz esquecer dos problemas, é aquela que causa todos os conflitos, num eterno círculo vicioso e tóxico, que Alessandro identifica e tenta resolver a seu modo.

É o filme de estreia de Marco Bellocchio, com uma interpretação poderosa de Lou Castel, também em seu primeiro filme. Eu já era fã dele em Warnung vor einer heiligen Nutte de Fassbinder e fiquei curioso para ver mais filmes com ele (especialmente um enigmático Cambio de Sexo de Vicente Aranda, de 1976). Ele por vezes parece estar num filme (contemporâneo) de Andy Warhol especialmente quando a câmera foca apenas nele com fundo preto, focalizando neste corpo todas as dores e anseios do mundo, ainda que forçando uma sensação de isolamento completo, um desligar-se não só das dores e dificuldades, mas especialmente das outras pessoas, que pode não somente ser imoral, mas mortal.

Quanto à Bellocchio, que eu conheço principalmente pelo cinema político do século XXI, já botei na listinha gigante Il diavolo in corpo, baseado no prodígio francês Raymond Radiguet.

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#DesafioREF #Dia3 – “Cria Cuervos” (1976) de Carlos Saura

Primeira obra-prima que vi neste desafio. Não conheço muito do cinema de Carlos Saura nos anos 1970, quando ele era bem “cult” (sempre tive curiosidade por “Mamãe faz 100 anos”), e não esperava um filme tão lindo quanto este. Escrito especificamente para Ana Torrent, então com 9 anos, e vinda do sucesso de “O Espírito da Colmeia”, é um filme cheio de ternura sobre uma infância difícil ainda que num ambiente aparentemente tranquilo.

Ainda sofrendo pela morte de sua mãe, Ana culpa o pai pelos momentos tristes e pela infelicidade da mãe, interpretada por Geraldine Chaplin e o envenena, passando a morar com a tia rígida e a avó solitária, que passa seus dias silenciosa numa cadeira de rodas além de suas fieis companheiras: as duas irmães (uma mais velha e uma mais nova) e a empregada doméstica Rosa que cuida da família há anos..   

É neste ambiente feminino, em que todos os homens em volta são todos militares que as seis mulheres (ou sete, com a mãe, ou oito com Ana adulta, ambas interpretadas por Chaplin). A Ana adulta é dublada por Julieta Serrano em um castelhano fluente, enquanto a mãe de Chaplin com o castelhano permado por um leve sotaque dá a sensação sempre de estar em um fora de lugar, um local que está sufocando sua própria identidade.

Não a toa, o filme é lido como um retrato perfeito dos últimos dias do franquismo, em que uma casa grande e abandonada – a tia repete sempre do estado em que ela estava -, se esconde por trás de uma pujante avenida madrilenha, com suas publicidades. É um filme que provavelmente ressoava com o Brasil e com os dois outros filmes já vistos – seja a tirania política de “A Confissão” ou a mansão isolada no meio de uma metrópole de “AMor Estranho Amor”

Acho particularmente bonito como Saura cria a personagem da tia, entre o autoritarismo e falta de amor maternal, mas ao mesmo tempo uma preocupação real no que ela acha que é o melhor para as meninas. É uma caracterização complexa, mas Monica Randall encontra o tom perfeito. Florinda Chico é outro achado como a empregada amorosa e que luta comandar a casa de forma silenciosa. 

As cenas relacionadas a memória são bem emocionantes e não a toa, o filme inicia-se com uma panorâmica por um caderno de fotos. O vai e vem da mãe de Ana é bem bonito, numa relação quase proustiana que a menina tem com os locais e objetos da casa: as cenas na piscina em especial são muito bonitas. O uso de “porque te vas”, como balada bubble gam que expressa os sentimentos tristes de Ana é perfeito, assim como a cena maravilhosa em que sua mãe toca uma música triste no  piano.

Um grande achado de Saura e da montagem foi intercalar cenas do presente com o futuro, em que Ana reflete sobre sua infância, de forma muito seca e triste. O filme funciona bem como uma desmistificação da infância e poderia entrar em qualquer mostra de filmes sobre crianças assustadoras, talvez por mostrar simplesmente que as crianças não são tão fofas quanto gostamos de imaginar – daí lembro do “Won’t you be my neighbour?”, filme incrível sobre Fred Rogers.

Como Rubens Ewald Filho aponta em seu texto, existe uma fronteira entre o real e imaginário que perpassa todo o filme, notadamente na “surpresa” do final que acaba colocando muita coisa em cheque, mas dando uma maior complexidade às imagens apresentadas anteriormente. Um filme que provavelmente ganhará muito em uma revisão. 

Esse texto é parte de um desafio de finalmente assistir, durante o mês de junho, a todos os filmes listados no “Cult-Movies do Século XX” de Rubens Ewald Filho no mês de junho. Ele inclui 101 filmes em seu livro, que foi o primeiro de cinema que comprei em dezembro de 2001 – junto com eus outros “Os cem melhores filmes do século XX” e os “100 Maiores Diretores”. Até maio eu já tinha visto 76 e resolvi me desafiar em ver esses 25 filmes que sempre me marcaram pelos títulos e informações incluídas no livro. No final do mês comento sobre os outros que já tinha visto e faço minha lista de preferidos. Foi o quarto filme visto.

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