Category Archives: Política

Considerações a respeito das eleições norte-americanas

Quase uma semana já se passou depois da eleição norte-americana mas ainda vale a pena comentar algumas coisas, especialmente depois da entrevista dada a Lesley Stahl, que foi ao ar no último domingo no programa 60 minutes, da CBS. Alguns fatos, curiosidades, observações de início:

  • Das últimas sete eleições norte-americanas, o candidato republicano só ganhou no voto popular em 2004, e isso quando George W. Bush era super criticado pela Guerra do Iraque, que começava a se tornar o grande fardo da política norte-americana. Em 2000 Al Gore teve 48,4% contra 47,9% de George W. Bush, mas perdeu no colégio eleitoral: 271 versus 267.
  • Desta vez, Hilary Clinton ganhou no voto popular (47,7% x 47,5%, mas teve derrota acachapante no colégio eleitoral: 306 a 232). Isso se explica principalmente pelos 2,5 milhões de votos a mais que conquistou na Califórnia.
  • Em 2000, Gore venceria a eleição com uma vitória em qualquer um dos estados em que a eleição foi apertada: New Hampshire (diferença de 1,27%), Missouri (3,34%), Ohio (3,51%), Nevada (3,55%), Tennessee (3,88%) ou claro, os meros 537 votos de diferença na Florida.
  • Desta vez, Clinton ficou 38 votos aquém, o que implica que ela precisaria de uma  combinação de resultados, já que Texas (exatamente 38 delegados) continua fora da disputa para os democratas. 5 estados viram Trump vencer com menos de 5% de vantagem: Arizona (11 delegados, diferença de 4,4%), Florida (29, 1,27%), Pennsylvania (20, 1,24%), Winsconsin (10, 0,93%) e Michigan (16, 0,27%).
  • Muito se falou nos republicanos que não votariam em Trump (como os presidentes George H Bush e George W Bush), mas as pesquisas de boca de urna apontaram ele foi o escolhido entre 90% dos republicanos contra 7% destes eleitores que preferiram Hilary; Já entre os democratas, apenas 89% votaram na candidata derrotada enquanto 9% votaram em Trump.
  • 52% dos que responderam os questionários declararam que a economia era o principal tema na hora de depositar o voto: neste grupo, Hilary ganhou bem (52% a 42%). Interessante que 13% declararam que política internacional era o principal assunto em suas mentes (e claro que Hilary levou essa turma com 60% contra 34%), mas iguais 13% estavam mais preocupados com imigração e estes ajudaram a eleição de Trump: 64% a 34%

A partir disso tudo fica a questão: o que faltou a Clinton? Obviamente ela não poderia ter perdido em três estados que votavam democrata desde 1992: Michigan, Pennsylvania e Wisconsin (este desde 1988 ainda que George W. Bush quase o levou nas duas eleições). Se Hilary tivesse ganho na Florida, apenas um desses estados precisaria ter “virado”.

Mais do que pensar matematicamente é importante agora tentar entender o que levaram as pessoas a votar em Donald Trump, especialmente em uma eleição que muitas forças minoritárias, oprimidas e tradicionalmente democratas compareceram em peso às eleições. Ou seja para cada latino, negro, imigrante, etc que foram as urnas na Flórida, foi um outro americano que se incomoda com a presença destes em seu dia-a-dia. Ou simplesmente: estes grupos que eram considerados avassaladoramente democratas ajudaram na eleição de Trump. A quantidade de latinos que votou no Trump foi bem grande: 29% contra 65%, eleitores de Clinton (contra 27% a 71% em 2012): eles não se preocupam com o que o presidente eleito possa fazer com os recém chegados ao país: é a lógica do “eu lutei, eu venci, me proteja”. O outro que ainda está lutando não merece uma proteção ou incentivo. Enfim, vitória do individualismo. Entre os negros, Trump teve mais votos do que Mitt Romney (8% a 88%, contra 6% a 93% em 2012).

Foi o ponto alto de uma campanha que reuniu duas das figuras mais odiadas da política norte-americana. Os democratas ignoraram que a figura de Hilary não levaria os eleitores a apioá-la massivamente. Bernie Sanders deve estar secretamente feliz – mas publicamente irado e já apoiou as manifestações anti-Trump. Elizabeth Warren, a outra líder progressista já fez vários discursos se perguntando onde os democratas erraram.

Enquanto isso, Trump já se aproxima dos principais líderes republicanos numa clara tentativa de se proteger de um potencial impeachment à la Dilma: sem apoio da base congressista ele sabe que não irá muito longe. Ou ele se transforma em um novo Reagan ou sabe que terá poucas chances em 2020 e pior, sairá com uma imagem completamente manchada.

Muitos perguntam se isso pode acontecer em outros países, como Brasil (em 2018) ou França (em 2017). O fato é que de certa maneira os dois países apontam uma falha em ter novos nomes para estimular tanto o eleitorado liberal ou conservador. Em São Paulo a vitória de João Dória tanto serve como um estímulo a Geraldo Alckmin como uma prova que assim como os trumpistas, os brasileiros acham que o sistema eleitoral está corrompido e os atuais congressistas e poderosos distantes do povo. Isso pode acabar atrapalhando o próprio Alckmin e também os candidatos ultraconservadores como Bolsonaro. A ver se alguma figura midiática (Joaquim Barbosa, Sérgio Moro, Henrique Meirelles, algum apresentador de televisão ou técnico olímpico…)  consiga reunir forças e vencer a eleição ou se apresentar como uma figura viável, da maneira como Marina Silva não conseguiu.

É importante lembrar que Trump desafiou primeiro todo o establishment republicano vencendo as primárias de seu partido a contragosto dos figurões. No Brasil é impossível conquistar um voto popular internamente. O PSDB cogitou fazer isso em 2014 mas não é comum aqui a filiação ou registro em um partido, como acontece nos EUA, limitando qualquer votação aos same old caciques.

Já na França, não vejo Marine LePen com muitas condições de ultrapassar 40% de votos. Mais provável que o colapso do Partido Socialista aumente e haja uma união no segundo turno em nome de algum candidato dos Republicanos. Pela primeira vez haverá uma primária aberta. O primeiro turno acontecerá dia 20 de novembro e o segundo turno dia 27, provavelmente entre o ex-presidente Nicolas Sarkozy e o ex-ministro das relações exteriores, Alain Juppé, grande favorito. Entre os socialistas, François Hollande ainda não decidiu se concorre, o que a meu ver não faz sentido algum para um presidente com popularidade tão baixa. Assim, abriria a vaga para Manuel Valls, atual primeiro-ministro. Ou seja, nada de novo no front.

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A comemoração ontem

O Felipe tirou umas fotos, mas enquanto isso posto um vídeo aqui no qual apareço (de casaco laranja), no fundo de uma entrevista a partir de 0:29 ontem na comemoração pela vitória do Presidente eleito François Hollande (PS) na Place de la Bastille

[http://www.youtube.com/watch?v=vepvduPzx0E&feature=player_embedded]

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Vitória de Hollande e da união

A vitória para François Hollande chegou, mas apertada do que era o esperado. 52% dos votos, mas suficientes para dar um novo respiro à França, atrofiada pelos valores de extrema direita que vinham se mostrando cada vez mais forte na campanha de Nicolas Sarkozy. Não devemos esquecer também a posição que este président sortant teve na crise de 2005, além do aparato policial que cresceu imensamente nos últimos cinco anos.

Me perguntam sobre para quem eu torço, Nicolas Sarkozy ou François Hollande. Acredito que não seria necessário para eu analisar os projetos de governo dos dois. A posição anti-imigracionista de Sarkozy, com a promessa de corte de metade das imigrações legais é suficiente. Como estrangeiro na França, e quem sabe um futuro estudante de máster e alguém em busca de trabalho não teria como apoiar a reeleição de Sarkozy.

Mas mesmo em outros aspectos, é óbvio que a escolha de Hollande é uma questão bem mais humanista. Todos os projetos econômicos são ótimos em teoria, seja os de direita e os de esquerda, mas o difícil será por-los em prática, e tentar fazer isso com uma importância humanista. É o que Hollande propõe a França, sem preconceito, com uma tentativa de direitos de minorias para todos os franceses (de todas origens) e imigrantes, pessoas de todas religiões, raças, opções sexuais, políticas, etc.

A França do medo perdeu, assim como aquele Brasil de 2002, tão bem registrado pela declaração de Regina Duarte. Aqui a campanha foi a mesma. Os socialistas com uma vitória criariam um clima de violência, insegurança, levariam a França ao fundo do poço. Não funcionou, mas é preciso continuar com a cautela, a mesma que viu Sarkozy se aproximar durante toda a campanha do segundo turno, tirando mais de três pontos a partir de uma vitória prognóstica de 55% há duas semanas.

É preciso lembrar os 18% que Marine Le Pen, da extrema direita teve, e a pesquisa que mostrou que cerca de 30% dos franceses simpatizam com a Frente Nacional, partido da Le Pen. É preciso levar em conta os 48% dos votos de Sarkozy, o que ele próprio não fez em 2007. O país está dividido, e parece que Hollande percebe isso muito bem, ao não se aproximar da extrema esquerda de Melochon e culminou com o apoio inesperado do centrista François Bayrou na quinta-feira. Agora é partir para a comemoração na Place de la Bastille, imortalizada no cinema contemporâneo francês pelo Christophe Honoré…

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O resultado que não pode ser dito

Eleições na França tem algumas coisas estranhas. Todo mundo já sabe desde as 18h (13h no Brasil) que o candidato socialista François Hollande ganhou, mas a lei francesa proíbe qualquer mídia do país de anunciar resultados antes das 20h (15h no Brasil), pois alguns postos de votos ainda estão abertpos. Porém, sites belgas e suíços, livres, já apresentaram os primeiros números, mostrando Hollande na frente com 52,6% dos votos.

Enquanto isso, os principais sites estrangeiros preferem também a cautela e não apresentam os resultados de boca-de-urna. E a TV francesa já em cobertura dos resultados, com análises e reportagens sobre o dia de votos, não pode falar nada. E mostra em tela dividida o público em delírio na sede do PS e um público murcho e desanimado na sede do UMP, partido do Président sortant. Mas o apresentador tem a obrigação oficial de dizer que os “dois lados estão animados na espera dos resultados”.

Para comprovar a vitória de Hollande, o UMP já cancelou a festa que seria na Place de la Concorde, enquanto a festa de Hollande está confirmadíssima na Place de la Bastille, na qual estarei lá em algumas horas.

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Clima eleitoral em Paris

Hoje foi dia de eleições aqui na França. As mais importantes em muitos anos aqui, em efeito um teste de popularidade de Nicolas Sarkzoy. Aquele candidato carismático, quase um Kennedy europeu de 2007 desapareceu no que se transformou em alguém de políticas fortemente direitistas e fortes, causando um grande racha na França, algo que não se via desde a época de Mitterand. Sua campanha, então, pior ainda, o levou a tentar se diferenciar mais ainda de um estilo centrista, apoiando causas como a “discussão de temas” como saída do Schengen, redução da imigração legal, etc. Tudo de uma maneira tipicamente eleitoral.

 

Porém, ao contrário do que geralmente acontece no Brasil, nas ruas de Paris a tranquilidade imperava. O que me fez perceber que hoje, especialmente nas grandes metrópoles, se aprende mais em casa diante da internet, televisão e rádio do que nas ruas, o que não deixa de ser uma coisa um tanto triste. Eu saí de cada por volta das 17h e fiquei na rua até as 22h. Só em um lugar eu consegui informações sobre as eleições pela rádio. Enquanto isso, se eu estivesse em casa, desde as 18h30 através de sites belgas e suíços eu já estaria a par de todos os detalhes. Nas ruas, nenhuma manifestação, o que seria normal de se esperar de todos os três principais candidatos.

 

A única multidão que eu vi foi na volta para casa, mas não era tão grande. Depois soube que ali era

a Maison de la Mutualité, local em que Sarkozy escolheu para fazer seu discurso. Talvez seja diferente no segundo turno, com a eleição definitiva do presidente, no dia 6 de maio. A princípio François Hollande tem 54% dos votos, mas tudo pode mudar. O candidato da direita em pleno desespero, sugeriu três debates sobre temas distintos, o que foi prontamente recusado por Hollande, que acusou uma mudança de regras e sugeriu um único debate sem tempo de duração.

 

Enquanto isso, nos canais de televisão, a tensão era alta. Partidários de Sarkozy atacavam a esquerda, como se defendessem um candidato de oposição. Suas ideias, todas “novas e liberais” iriam melhorar a França. Enquanto isso, os que apoiavam candidatos de esquerda atacavam os quase 20% de Marine Le Pen, acusando o governo Sarkozy de ter criado essa extrema direita, enquanto ironicamente, na internet os pró-Sarkozy passavam a culpa para Hollande e o candidato de extrema esquerda Jean-Luc Mélenchon. O fato é que a batata de Le Pen está mais quente do que nunca.

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