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Filmes que mudam a vida e a cinefilia

SANTIAGO – Não sei se isso acontece com todo mundo, imagino que sim, mas a forma com que vemos os filmes vai mudando com o passar do tempo, talvez a medida que nós mesmos vamos mudando. Eu sempre fui de fazer listas, por exemplo, e não creio que vá abandonar muito cedo este costume, mas outro cujo conceito se encontra bem arraigado está cada vez mais complicado de seguir: o das notas.

Talvez esteja dando sorte com os poucos filmes que tenho conseguido acompanhar mas os dois que eu vi essa semana eu pude dizer bem claramente que “mudaram minha vida”: Depois de Maio nos cinemas e O Preço da Solidão videoprojetado na parede a partir de um tvrip. O que me reconfirma que o espaço e modo de fruição de uma arte até pode influenciar em seu impacto mas não é fundamental. (Mas isso é outra conversa)

Me deu a sensação de que mesmo vendo poucos filmes dá para acompanhar bem o Cinema. Mais ainda, como dar nota? Um 10 seria natural mas é realmente um 10? O que é 10? Funciona nas brincadeiras do RYM e para me lembrar daqui a seis anos do impacto de um filme (um 3, 6,5 e 9 ainda são bem diferentes). Mas é isso, nada sério.

Bom (finalmente) saber!

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Freud no cinema

Estou no meio da leitura de “Amigos Íntimos, Rivais Perigosos” de Duane Schultz. O livro trata da relação tempestuosa entre Sigmund Freud e Carl Jung, o fundador e o maior propagantista (ao menos nos primeiros anos) da psicanálise. Acabei de ler a parte que trata de uma visita dos médicos a Nova Iorque, aonde teriam visto um filme pela primeira vez, em 1909. A reação de Freud teria consistido de “discretos risos”.

 

Óbvio que o cinema naquela época era completamente outro do que temos hoje, mas penso se Freud em algum momento pensou que aquele mecanismo seria hoje o principal propagador de suas idéias um século depois. Tudo bem que a recepção às teorias freudianas alcançaram outros patamares nas últimas décadas mas é óbvio como vários conceitos criados pelo austríaco encontram grande eco na produção Hollywoodiana.

 

Talvez o fato da maioria dos filmes norte-americanos ser baseado na figura de um adolescente tentando se libertar diante das figuras paternas e maternas mas sem criar um choque diante dos dogmas da socidade.ajuda bastante. O fato é que os norte-americanos geralmente se assustam diante da franqueza de filmes europeus (e além-mar) em tratar adolescentes já livres do conforto da infância.

 

Assim, os protagonistas de filmes americanos se assemelham geralmente a pacientes dos seguidores do pai da psicanálise. Analisemos a parte final por exemplo de “Homens de Preto 3”. Mesmo depois de um filme cheio de voltas no tempo, brincadeiras com personagens históricos e muita ação, os roteiristas precisavam encaixar uma revelação que remete a infãncia do Agente J (Will Smith) e que diretamente injeta o papel paterno que o Agente K (Tommy Lee Jones/Josh Brolin) exerce sobre ele.

 

O mesmo acontece em “American Pie: O Reencontro” quando até a parte em que os protagonistas se encontram em busca de novas aventuras, o “buraco” no roteiro parece ser preenchido com uma relação entre Jim e seu pai, com o primeiro tentando ajudar o segundo a superar a perda da mãe além de pedir conselhos sobre o casamento.

 

Não sei ao certo se o filme que liderou toda essa leva de complexos edípianos no cinema foi mesmo “Beleza Americana”, que coincidentemente foi lançado poucos meses depois de “American Pie” e apesar de focar na mesma geração e contar inclusive com Mena Suvari no elenco de ambos filmes, tem uma mensagem completamente diferente, mas é um filme-marco em como lidar com personagens adolescentes no cinema norte-americano.
O que me irrita ainda é que justamente essas relações pai-mãe-filho-filha são completamente superficiais no cinema americano, servindo apenas de escada para um clímax, uma decisão “importante” ou uma ação “forte”. É uma pena não termos um cinema que trata com sutileza e realidade seus personagens, por mais que tenhamos aqui e ali bons exemplos de cinema vindo dos Estados Unidos.

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Je est un autre

That’s when she knew it was over for good. The longest running war in television history. The war that hung like a shadow over the same nine years as her marriage. So why was it suddenly so hard to breathe?”

É interessante rever um filme que mexeu tanto comigo depois de um ou dois anos sem o ver e perceber o quanto aquela obsessão de quatro anos atrás faz muito mais sentido agora, conectado com outros interesses, novas experiências e maiores estudos sobre alguns temas queridos. Aqui falo sobre “I’m Not There” e mais especificamente sobre a parte protagonizada por Heath Ledger e Charlotte Gainsbourg.

Logo nas primeiras revisões no Cine Arte Icaraí (digamos da 5ª a 8ª (editado em 28/04/2012) 8ª a 11ª vez que eu vi o filme), começei a me cansar um tanto da parte mais célebre, a protagonizada por Cate Blanchett. O longa era o meu favorito já e se existia uma parte que eu acreditava ser a mais fraca, a mais enrolada era essa. E apesar deu ter lido um texto que mencionava o fato da parte com Ledger e Gainsbourg ser uma paródia, sempre achei o completo oposto e essa quase homenagem aos filmes de Godard dos anos 60 (dos quais a maioria eu não gosto) acabou se tornando uma das duas partes que mais me interessava (junto com a protagonizada por Gere).

Sempre me emocionou muito os momentos musicais. Desde a explosão sensual de “I Want You”, quanto a sobriedade e melancolia de “Idiot Wind” mostrando o rompimento do casal e finalmente, a sequência que abre o “núcleo”, uma grande ode ao lirismo de “Visions of Johanna”. O visual, os ângulos, o diálogo, os personagens sempre seguiram comigo.

Hoje revendo, aleatoriamente, enquanto escrevo, converso e janto, paro na cena em que já divorciada, em meados da década de 70 (provavelmente 1973), em Los Angeles, 10 anos depois de ter conhecido o ator Robbie Clark, a pintora francesa Claire zapeia e vê por acaso na televisão uma cena de um filme com seu ex-marido. Foi durante a filmagem dessa cena que ela o conheceu, iniciou um papo e começou o turbulento romance.

Antes é necessário abrir um parênteses. Uma das coisas que me incomodam geralmente em filmes é o fato do personagem ligar a tv e estar exatamente num canal com uma reportagem sobre a notícia específica que vai alterar a trama. Pode-se reclamar dessa “coincidência” mas incrivelmente ela é tão bem feita que nunca me incomodou, mas eu nunca soube precisar exatamente o porque.

Hoje acho que consigo interpretar melhor. A grande sacada dessa cena é que justamente ela zapeia e para por total acidente na cena. Pode-se, obviamente, supor que ela poderia ter passado por uma sequência anterior e aí ela teria que escolher entre continuar a ver o filme, ou não… mas pouco importa. Perderia o impacto e não funcionaria.

Visto hoje temos um impacto muito forte. Nesse meio tempo Heath Ledger morreu e não podemos esquecer disso ao ver essa sua melhor interpretação. Até porque como eu dizia, antes de perder o fio da meada, o mais genial dessa sequência é que ela pára por acidente. É a vida jogando em sua cara que o mundo seguiu, as coisas evoluíram, as guerras acabaram, as pessoas mudaram, o tempo passou, o sonho acabou. É um pouco o mesmo choque que eu tenho revendo essa cena, me lembrando da época em que eu revia sem parar, seja no início de 2008 no cinema, seja virando noites (como essa) no primeiro semestre de 2009. Cá estou, Niterói-Rio-Europa-Rio-Paris, com uma especialização que não imaginava, com experiências que nunca sonhava, com desilusões não desejadas, esperanças mortas, surpresas que chegaram…

“Car Je est un autre. Si le cuivre s’éveille clairon, il n’y a rien de sa faute. Cela m’est évident : j’assiste à l’éclosion de ma pensée : je la regarde, je l’écoute : je lance un coup d’archet : la symphonie fait son remuement dans les profondeurs, ou vient d’un bond sur la scène.” (RIMBAUD, Arthur, carta à Paul Demeny, 15/05/1871)

O filme é todo sobre a memória, o efeito de uma música, de uma personalidade em nossas crenças, seja de uma infância, seja na vida de um astro, seja na vida de alguém que passa a vida inteira tentando justamente mudar, ser diferente, virar outra pessoa. Essa é, sem dúvidas, a maior virtude de toda a carreira profissional de Bob Dylan, e é também o grande triunfo do filme. Em algumas partes, como na de Bale e Gere, é extremamente claro.

Nas cenas com Ledger é um tanto mais obscurso, melódico. Charlotte Gainsbourg, em especial, radiante, parece ser um alter-ego de Todd Haynes, ou melhor, um espectador, alguém que vive tão proximamente a vida de uma pessoa louca e sempre on the run como Robbie/Bob, mas que tem seu próprio rumo, seu próprio tempo. E depois de 10 anos, percebe o quanto as coisas mudaram e ao mesmo tempo estagnaram… No quanto o tempo se passou. E nisso eu me lembro do meu querido amigo, que hoje começa a ler Proust, “Em Busca do Tempo Perdido” e como eu tenho certeza que será o meu livro favorito quando começar a ler. E como eu tenho que voltar a desenvolver um texto meio interrompido, meio feito em cima da hora, em 2008, para um trabalho de faculdade sobre o filme. E como, quatro anos depois eu ainda o considero o trabalho de estudante mais interessante que eu já fiz.

Voltando ao filme, é a melhor cena do filme, em parte por conta da atuação magistral de Charlotte. Exaltando nostalgia, uma introspecção fantástica em todas as cenas, nós estamos diante de um personagem que parece viver a flor da pele, sempre ter uma visão diferente a cada pessoa, a cada dia, a cada momento de sua vida, mas ainda assim viver tudo de forma um tanto passiva. E de repente, numa noite no sofá, num programa de televisão, tudo desaba, toda a memória do mundo, toda sua vida de 10 anos (e os sonhos anteriores para os acontecimentos de um futuro do pretérito) cai em seu colo, assim como tinha acontecido um tanto antes, ao saber da notícia que a Guerra do Vietnã, tinha acabado, a “guerra que se pendurou como uma sombra nos anos de casamento”, e que serviu basicamente de tema de fundo para o longo relacionamento com Robbie.

Outras cenas da parte Godardiana dão muita atenção ao fato da memória: Quando Robbie, já divorciado, derruba a caixa de fotografias de família e passa a se lembrar da esposa e dos filhos, ou mesmo na cena mais amarga, quando os dois saem com outro casal e começam a brigar sobre as posições reacionárias dele, que acredita que homens e mulheres possuem emoções e dores diferentes, “e por isso que mulheres nunca poderão ser poetas”, ao que o amigo acusa “você mudou”, ao passo que Robbie toma essa declaração como um elogio e sinal de libertação para criar uma persona ainda mais misteriosa.

“People are always talking about freedom. Freedom to live a certain way, without being kicked around. ‘Course, the more you live a certain way, the less it feel like freedom. Me, I can change during the course of a day. I wake and I’m one person, when I go to sleep I know for certain I’m somebody else. I don’t know who I am most of the time. It’s like you got yesterday, today and tomorrow, all in the same room. There’s no telling what can happen”

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Novos de Andrea Arnold e Ermanno Olmi no Festival de Veneza

Sabem aqueles míticos aplausos de 15 minutos que falam que acontecem em Cannes? Nunca acreditei muito, porque você já tentou aplaudir por 5 minutos? Não acaba nunca! Mas acabei passando por uma situação um pouco parecida aqui em Veneza pela primeira vez agora, estranhamente numa das menores salas do complexo. Foi no final de “Would you have sex with an arab?”. Não chegou a ser de 15, mas foi exatamente a metade, 7 minutos e meio contados. Um filme que discute preconceitos sexuais, amorosos e emotivos entre israelenses e árabes. Muito bom, mereceu mesmo, mas não sei se o entusiasmo todo teve a ver com Lady Gaga, cuja “Bad Romance” toca nos créditos finais!

Por agora, vamos a três novas críticas: Um filme ótimo do veterano cineasta Olmi, a adaptação de “O Morro dos Ventos Uivantes” por Andrea Arnold, terceiro filme da cineasta duplamente premiada em Cannes, pelos seus anteriores “Red Road” e “Aquário”, mas cujos filmes nunca me agradou. Este achei bem feito, não pode dizer que é “ruim ruim” mas falta realmente uma mão boa. E um curta sobre carros do Saddam Hussein.

Tou aqui na fila, já gigante para o filme surpresa. Que é chinês todo mundo já sabe, agora qual filme é realmente, até agora, vou te dizer não descobri, talvez vocês aí até saibam melhor do que eu. Alguns falaram que era da China continental, outros de Hong Kong. Tentei um nome, mas não sabia se era do diretor ou do filme e não descobri nada. Mais tarde, Ferrera e talvez Mary Harron se tiver pique

Il Villagio di cartone (Itália) de Ermanno Olmi (7/10)

Ao contrário do filme do filme de Crialese, esse novo trabalho do veterano diretor italiano (Palma de Ouro com “A Árvore dos Tamancos”) é bem mais maduro e com uma visão mais completa sobre o problema não só da imigração ilegal, mas também como da presença e participação deles na sociedade, e em como a sociedade também pode moldar uma melhor vida para esses recém-chegados a Europa. É uma pena que não é esse o filme que está na Competição oficial.

No filme, um grupo de imigrantes ilegais chega numa igreja que tinha acabado de ser desativada, mas mesmo sem nenhum instrumento, o Padre que m0rava há 50 anos se recusa a sair. Ele decide acolher os imigrantes, mas desde o início alguns mostram que não estão com boas intenções na Europa.

A entrada da Igreja no filme, acaba ajudando tanto narrativamente, já que toda a ação passa a ser feita em interiores e isso agiliza muito, como também ajuda a expandir mais o tema principal. Claro que poderia ter piorado muito, mas a maneira que Olmi trata o assunto só faz melhorar. É interessante também que ninguém é visto puramente por ser bom ou ruim, coisas que atrapalharam muito o longa de Crialese.

Wuthering Heights (Reino Unido) de Andrea Arnold (5/10)

Ao final do filme me fiquei pensando: Pra que fazer uma nova versão de “O Morro dos Ventos Uivantes”? Sério! O livro é um clássico, mas nem só isso é desculpa: Já existe uma versão espetacular feita em 1939, além de sei lá quantas outras versões menos sucedidas. O que se espera é que se traga algo de novo à história, uma interpretação diferente, original. Mas ela não consegue transcender para algo além de ser uma meramente boa adaptação, um filme bem realizado.

É interessante que mostra bem como eles se conheceram e o filme trabalha bem com o fato de estar lidando com crianças na descoberta da sexualidade e do amor. Outra diferença positiva é o fato de que se utiliza mais da segunda parte do livro, geralmente negligenciada nas adaptações passadas, relatando o retorno de Heathcliff ao Morro e a vida adulta dos personagens.

A visão é moderninha, dando um frescor necessário, com muita câmera na mão, travelling, e uma fotografia meio digital, mas que consegue capturar bem as imagens de forma digital, com os pequenos borrões de fundo sempre nos lembrando. Mas acho que poucas pessoas percebem essa sutileza (vida de preservação…). As cores, justamente por serem muito monocromáticas, ajudam a compor um ar de desolação que o P&B fazia muito bem na versão de Wyller. Mas se nele, o som era importantíssimo, aqui tenta ser com uma captação dita natural, mas que não traduz bem na projeção, perdendo o impacto que tinha a versão antiga.

O problema é que isso só é alcançado formalmente, sem uma coragem maior da parte de Andrea Arnold de expor as personagens e atores, como fez bem em “Aquário”, seu segundo longa. Aqui apesar da tentativa de “indienização”, o que inclui uma música do Mumford & Sons junto dos créditos finais, o filme soa antigo ainda, uma mera adaptação mais livre cinematograficamente, mas que continua tendo a mesma visão das personagens que as outras.

Arnold também não consegue dar um tom adequado a Catherine da segunda parte. Ficamos perdidos se ela é uma pessoa apaixonada ainda por Heathcliff ou se ela já mudou de vida e ainda se apega a um amor de juventude, que talvez foi o maior de sua vida, o que é em parte culpa também da atuação ruim de Kaya Scodelario. O resto do elenco não faz nada demais, mas também. O filme em si se sustenta, mas é uma pena que uma grande chance de tentar algo além dos limites tradicionais foi perdida tão ordinariamente.

The Track of my Tears 2 (Suéciia) de Axel Petersén (curta) (5/10)

Curta meio bizarro sobre o destino dos carros de Saddam Hussein. Vários deles foram roubados após a ocupação americana e apareceram em vários países como Líbano, Turquia e outros europeus. Alguns, em especial sua Ferrari vermelha, porém, continuaram em Bagdá e viraram uma pequena lenda, sendo inclusive feitos jogos de vídeo-game em que ela era a protagonista. O filme não se alonga muito, nem explica direito a situação, só joga a história e nos deixa com curiosidade.

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3º dia do Festival de Veneza, parte 1

Enquanto penso se gostei ou não de “Alpes”, do grego da competição (do mesmo diretor de “Dente Canino”), e vou comer alguma coisa antes de ver um dos 2 títulos brasileiros da mostra (“Histórias que só existem quando lembradas” da Júlia Murat), deixo 3 textos de filmes que passaram pela manhã e início da tarde, incluindo o Cronenberg que é muito bom (e olhem a Keira no Oscar!) e o pior do festival até agora.

A Dangerous Method (Reino Unido, Alemanha, Suíça, Canadá) de David Cronenberg (7/10)

Na entrevista coletiva, Cronenberg foi meio claro:  “sempre procuram algum traço de “cronenberguismo” nos meus filmes, mas não sei o que é isso. Cada filme é diferente um do outro, não preciso ficar pondo coisas esquisitas para impor uma marca autoral”. Afinal, ele que sempre dividiu com o outro David a aura de diretor mainstream mais outsider da América do Norte, começou a fazer de um tempo pra cá histórias cada vez mais convencionais.

E é fantasiado deste modo que “A Dangerous Mind” é apresentado ao público. Desde o inicio vemos um filme de época, com locações estonteantes, figurino meticuloso, etc, todos estes tiques. Mas pouco a pouco, a história da primeira psic(o)análise, feita por Jung (Michael Fassbender) em Sabina Spielrein (Keira Knightley) e a subseqüente relação tumultuosa dele com Freud (Viggo Mortensen) vai revelando ser um estudo muito interessante de personagens, motivações, desejos e escolhas de vida.

Não sei até que ponto a trama é historicamente correta e apresenta os termos tratados de forma adequada, mas todo o arco central é bem estruturado, apesar de uma certa simplificação das querelas entre os dois fundadores da terapia, o que é normal visto que o filme parece se focar mais nas relações de Jung com Sabina (seja profissional e pessoalmente), quanto com a esposa afastada (Sarah Gordon).

Keira está numa atuação típica de Oscar: Uma personagem que na primeira parte é cheia de tiques físicos, com sobresaltos corporais que impressionam e soam falso apenas em um ou outro momento (como logo no início, como ela claramente faz uma deixa “fácil” sobre a origem de seus problemas). Na segunda parte, a medida que o tratamento com Jung vai ajudando ela, ela aparece bem diferente, mas mantém o mesmo estilo e alguns tiques, criando uma unidade importantíssima.

Fassbender se esconde completamente dentro do papel – nada lembra aquele garoto de “X-Men: A Primeira Classe” e é sua interpretação sóbria que garante o sucesso do filme. Aqui ele transmite toda a segurança que marca o início de seu tratamento até que a medida que vai tendo contato com Freud, Sabina e um outro médico/louco Otto Gross (Vincent Cassel) de ideias liberais e poligâmicas, ele vai se confrontando cada vez mais com suas ideias e tendo mais e mais dúvidas sobre sua vida e profissão.

Marécages (Canadá/Alemanha) de Guy Édoin (7,5/10)

Um filme complicado e corajoso, sobre ações humanas que ficam na berlinda entre o bem e o mal, o proposital e o ato falho. A história é sobre uma família cujo destino parece estar sempre traçada pelas ações de um garoto, Simon, que passa também pelo despertar de sua sexualidade. Os personagens, presos numa fazenda da qual não gostam (numa espécie de “A Árvore” amargo – e sem a Charlotte Gainsbourg) são interessantes e o fluxo da narrativa funciona com planos longos e explorativos.

Birmingham Ornament (Rússia) de Andrey Silvestrov, Yuri Leiderman (1/10)

Filme russo que trabalha com fragmentos de cenas aparentemente sem sentido para tentar encontrar um significado sobre ser judeu seja hoje como na época da segunda guerra. O filme é totalmente perdido, sem significado, tentando juntar cenas engraçadinhas, como um rapaz cantando, com um noticiário-paródia, com apresentações musicais, uma manifestação pela Anne Frank em Amsterdã e uma vítima da segunda guerra contando seu drama. Sem dúvidas o pior filme do festival até o momento.

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Manhattan

É engraçado né, como funcionam os ciclos. As pessoas as vezes até me falavam “ah você é muito novo para entender esse filme” e parecia ser uma coisa meio sem noção, algo desproposital. Mas é verdade como o cinema cresce com as pessoas e nisso eu lembro aquela fala linda da Virginia Madsen em “Sideways” sobre as razões para ela amar o vinho, de como ele cresce e de como faz pensar nas pessoas que trabalharam para transformar a uva em vinho, e como aquele vinho carrega toda uma história por trás dele. Porque não nos esquecemos, se o filme nos toca de um modo, no mínimo é de se imaginar que em certo momento da vida o diretor e roteirista (e por que não produtor, fotografo, atores, etc) chegaram numa situação parecida com a nossa.

Toda essa volta porque eu acabei de rever Manhattan nesta madrugada e da primeira vez que eu vi lá com uns 14 ou 15 anos eu achei bacana mas nada demais. Numa revisão já aos 20, acho, percebi a genialidade do Allen, mas sinto que é um daqueles filmes que cresce cada vez mais. Até pode não ser material para se por numa lista de 10 ou 20 melhores filmes de todos os tempos, mas certamente é um filme que se pode apreciar melhor com o tempo e relacionar com as nossas experiências. No meu último top100, cheguei a por ele em 38º.

Hoje o filme do Woody me encanta, briga palmo a palmo com “Zelig” pelo posto de sua obra-prima. Os diálogos são sensacionais, puro New York anos 70/80, como a cena em que os personagens se encontram no Museu logo no início do filme. mas não pude deixar de chorar na cena do “Primeiro encontro” dos protagonistas, culminando naquela coisa maravilhosa que é o plano da Queensboro Bridge ao amanhecer. É fácil entender porque Allen não gosta tanto do filme, é uma coisa tão pessoal, que até hoje todo mundo tenta imitar, mas sem se entregar tanto quanto Woody (aparentemente pelo menos) se entrega neste filme. E quase como uma lição ao final da projeção, a gente precisa ter mais fé nas pessoas né? Em nós mesmos. Ou até no poder transformador da arte, em seu sentido mais puro. Seguir em frente, tentar ser mais Tracy (Mariel Hemingway), menos Mary (Diane Keaton), e quem sabe um dia chegar em um nível mais Isaac (Woody Allen), conviver com nossas falhas e nossos defeitos, conhecer e valorizar nossas qualidades.

Hoje vi pela primeira vez “Marley e eu” e “O Amor é cego” e é incrível como apesar de simpáticos, estes filmes empalidecem perto de uma obra verdadeira. Eles superficializam emoções, você fica triste porque um cachorro que viveu toda sua vida morreu (ou por que percebe que uma vida inteira se passou durante aquele ciclo e você não fez o que queria? rs), ou aprende que pode amar uma pessoa obesa ou com um defeito físico bizarro, pois o coração é que importa. São coisas que não ficam com a gente no final, não nos fazem pensar, evaporam ainda nos minutos pós-exibição. É engraçado como pessoas citam “Marley e eu” como melhor filme, filme mais inspirador, etc, mas aqueles sentimentos que despertaram ali você sempre teve, e sempre soube, ou seja, é um mero catalizador de emoções, e não um potencializador, como se espera que a arte seja.

Assim se apresenta “Manhattan”: É um filme no qual todos podemos nos relacionar, mas um pouco como no cinema de Ozu, em um nível sentimental, não cópia carbono. As vezes de um jeito que você nem sabe porque te emociona, mas tem um certo feeling que te arrebenta. Acredito que ele se inspirou um bocado no Conceito de Angústia de Kierkegaard, em que se você está vivo, deal with it, tem que fazer alguma coisa, tem o mundo ao seu redor, mil escolhas, dormir ou continuar escrevendo (lendo) esse texto ou ver outro filme ou ver outro filme enquanto se escreve um texto, ou grava um cd, ou toma uma Coca, ou água, etc. Não há tempo de se pensar. Os personagens de Woody agem assim, precisam decidir constantemente se ligam pra pessoa com quem está apaixonada (“Match point”!), se leem os jornais para se inteirar dos assuntos da atualidade ou de puro interesse (“Ah não, não estava lendo o artigo sobre as massas anônimas da China, estava vendo os artigos de lingerie” diz Isaac para Mary) e sempre lendo, fazendo referências, tentando acompanhar mostras, conhecer restaurantes, estar um na frente do outro. Mary uma hora diz que sabe vários fatos e curiosidades de cabeça, mas isso não parece ajudar nem um pouco na relação dela com outras pessoas, seja de modo romântico ou pura amizade. Apesar de inteligentes e engraçados, os personagens de Allen (principalmente a feminina principal) parece não saber lidar com o mundo em sua volta e com as exigências da vida.

E enquanto tudo isso acontece, ele ainda consegue valorizar a sua paisagem, o ambiente ao seu redor, fazer a mais incrível carta de amor a uma cidade no audiovisual. É incrível como o filme lida com emoções universais, mas ainda assim consegue captar, assim como o Allen anterior “Annie Hall”, o espírito de uma cidade que passava por tempos complicados, em uma época cheia de crime e vandalismo – é a mesma de “Taxi Driver” do Scorsese, lembremos! – e que era cada vez mais vista como decadente pelos americanos, mas Woody não se entrega, se destinando a mostrar o lado bom de Nova York (e Manhattan em especial), com suas belezas naturais (ressaltadas pelas lentes do Gordon Willis, no que é na minha opinião a fotografia em preto e branco mais bonita da história do cinema), suas neuroses e hábitos, dando corda para a idéia estereotipada de uma Nova York neurótica (que Woody Allen foi o grande porta-bandeira), em que os analistas ou ligam as três da manhã para o paciente chorando e entram em coma depois de uma viagem de ácido ou são super severos no estilo mais tradicional de Freud.

Manhattan pulsa no filme, é vibrante e decadente, não por acaso os dois adjetivos mais pertinentes ao se referir a obra de Woody Allen do meio dos anos 70 para cá. É um filme que faz chorar por nunca ter ido naquela cidade e ser hoje impossível vivenciar aquela atmosfera particular presa numa cápsula espaço-temporal, ou de qualquer maneira por nunca conhece-la como o Woody a conhece(ia), até porque aquela cidade ali talvez nem exista. É parar de querer o que é dos outros e tentar se contentar com o que é seu, olhar pela janela, olhar para as pessoas em seu redor – seja os amigos mais próximos ou a população em geral – e amar aquilo que lhe pertence, segurar ao máximo o seu espaço e o seu tempo, pois nada mais lhe fará conexão do que esta experiência. O difícil é reconhecer e tentar se expressar da melhor maneira possível, transformar a vida em arte, como fizeram todos aqueles nomes citados na Academia dos Supervalorizados ou as coisas que nos fazem a vida valer a pena. Woody Allen conseguiu tudo isso neste filme de 1979.

Manhattan
“Manhattan” (1979, EUA) de Woody Allen
10/10

A minha cena favorita:

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