Category Archives: Críticas

Kerouac visto por Salles

Na Estrada (On the Road, 2012, FRA/BRA/RUN/EUA) de Walter Salles 8,5/10

Difícil saber por onde começar um texto sobre o novo filme de Walter Salles, em competição pela Palma de Ouro de Cannes. Ao mesmo tempo que minha as minhas expectativas eram altíssimas, assim como a de vários fãs do livro, hoje eu acordei com uma sensação de que sofreria uma tremenda decepção. Impossível o cineasta captar em duas horas e vinte minutos todas aquelas sensações e angústias de Dean, Sal e toda sua miríade de personagens que povoaram o romance clássico de John Kerouac. Afinal, o que esperar de uma adaptação tão ambiciosa?

A transposição é correta, todas os blocos do filme estão representados, as passagens mais clássicas, um ritmo e um senso geral foram plenamente captados por Salles e sua equipe. Óbvio que isso acaba também trabalhando contra. A parte que mais me emocionou na leitura, aquela na California, quando Sal e Terry (Alice Braga) têm um breve relacionamento em meio aos campos, aqui se resume a meros cinco minutos, se tanto. Aquela sensação de abandono inerente, de perda prévia, da vida que segue e de um futuro que não consegue se lançar por si só frente a um presente constante e pulsante parece impossível de ser traduzida de forma linear.

Haynes tinha percebido isso tão claramente no seu “On the Road” que foi a biografia de Dylan, “Não Estou Lá”.. Mas lá ele tinha uma inspiração livre e Salles, um grande diretor, o mainstream mais obviamente engajado nas mudanças, nos trajetos que percorrem diariamente a vida do homem (Terra Estrangeira, Central do Brasil, Diários de Motocicleta e seu episódio de Paris eu te amo, em especial) parecia o diretor mais adequado. A estrada está lá, os personagens a percorrem, mas parece faltar um tanto o trajeto psicológico, o percorrer mental tão único e tão particular de cada um. É basicamente um filme um tanto careta, bem padrão independente, mas nunca passa perto de estragar o forte material que possui.

Aqui o transcendental, tão recorrente na obra original, não é alcançado. O que não anula o filme de maneira alguma. A última cena, em especial, numa noite fria de Nova York é em especial emocionante e bem realizada, quando a vida se confunde com a arte, e a amizade é retratada como a própria estrada, em que não importa a velocidade, um dia chega ao fim. Ali estão os dois caminhos da América, os dois caminhos do cinema e da arte. O vagabundo que vive por pulsões, sem se preocupar muito com suas escolhas, fazendo o que vem na telha e basicamente sua outra metade intelectual, quase um alter ego, que está sempre com vontade de, a beira de cruzar a linha (seja no ménage, seja na carona, seja no México) mas é impedido seja por um limite mental, físico ou sexual.

Essa segunda opção também é aquela abraçada por Salles. Ele (Sal/Kerouac/Salles) mostra os “loucos, loucos para viver, falar, serem salvos” que tanto ama, mas em nenhum momento ameaça se transformar num deles. Assim, de certa maneira, claro, ele toma partido do seu protagonista (visto por ele e pelo roteirista José Riveira), o que acaba fazendo algum sentido, mas não diminui o tom de decepção. Teria que reler o livro, finalizado há tantos anos, mas não me lembrava de Sal ser um personagem tão passivo assim, por mais que faça sentido vide ao caráter de Kerouac.

Aliás, essa é uma liberdade poética que Salles usa e abusa. Os personagens do filme são criados, sim, a partir dos homónimos do livro, e em um padrão geral seguem as mesmas ações, pensamentos e diálogos, obra. Mas obviamente o diretor foi além e buscou relacioná-los mais com os personagens reais que serviram de inspiração. Carlo Marx praticamente desaparece para dar lugar a Allen Ginsberg, o maior poeta de sua geração que parece ter sido um juiz e o mais sensato e crítico de todos eles (“eu vi os expoentes de minha geração serem destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus…”) e aqui tem toda essa função especialmente na primeira parte enquanto Sal se deslumbra mais e mais pelo Dean. Mas também sua obsessão sexual por Dean/Neal Cassidy é bem mais representada do que no livro, assim como passagens da vida dos dois protagonistas (Neal e Jack, no caso), como o fato da tia italiana de Sal ter sido trocada por uma mãe canadense, companheira por toda a vida de Kerouac, o passado como prostituto, etc, além de uma grande ênfase dada na obra-prima de Proust, “Em busca do tempo perdido”, que não me lembro de ser nem citada por Kerouac em suas páginas, mas certamente evoca o mesmo espírito. E é perfeitamente compreensível e até louvável que o filme termina justamente com Paradise/Kerouac escrevendo todo o livro, inclusive as partes já mencionadas e termina justamente com o parágrafo final.

Mesmo assim, e até por isso, senti falta de uma tentativa de liberdade, explosão maior do diegético por Salles. O filme poderia ter uma explosão musical tremenda, mas resulta em uma trilha um tanto banal de Gustavo Santaolalla e algumas peças de jazz, matrizes de impulso no livro. Mas tantos anos depois, ainda seriam elas as forças por trás? Apesar de ideias boas de fotografia, como a câmera sempre colada aos rostos dos atores, e uma certa distensão quando eles estão prestes a abandonar. Esses momentos soam bonitos, mas em geral os planos são inteiramente controlados, por mais que existam alguns incríveis, especialmente em Nova York – e é uma pena que Eric Gautier não consegue capturar justamente a estrada ou a Califórnia com tanta beleza. Seria uma forma de se por nos olhos de Sal/Jack, que apesar de tantas viagens e experiências acabava sempre achando um caminho para casa, em seu quarto mais máquina de escrever?

Algumas cenas possuem uma espécie de gás, como o ritual no México e os delírios febris de Sal que o seguem (por mais que soem forçadamente como um clímax). Os protagonistas estão corretos, mas não criam interpretações memoráveis. Sam Riley carrega sempre um olhar um tanto observador e um tanto perdido que fazem sentido com essa visão de Walter Salles sobre Jack Kerouac, enquanto Garrett Hedlund tem altos e baixos como Dean, mas tem êxito em apresentar seu mais forte traço, uma mistura de sensualidade e inocência que acaba conquistando tantas mulheres e homens durante o filme. Kirsten Dunst tem poucas cenas mas as rouba, enquanto Kirsten Stewart não tem muitas dificuldades para fazer uma personagem um tanto boba, sem grandes interesses, uma subtração um tanto forte a partir do livro. Já Tom Sturridge aproveitou muito bem o forte interesse do diretor pelo personagem e consegue criar um Carlo Marx/Allen Ginsberg em formação, sendo ao mesmo tempo seduzido por Sal e por ideias redentoras na África e tendo uma visão cada vez mais clara de sua geração e de questões mais profundas.

Pontos que ainda podem ser levantados como falhas ou dois passos para frente e um para trás, como as cenas de sexo serem tão púdicas acabam tendo ressonância no próprio livro. Esses e outros temas um tanto mais polêmicos são bem mais explorados no filme, por mais que mais de meio século faça uma grande diferença em questões de auto-controle artístico. Mesmo que sejam considerados independentes, tanto Kerouac quanto Salles ainda acabam participando do mainstream e é inevitável que um sacrifício seja feito, mas a grande questão é: ele era desejável? Enquanto isso outras falhas são mais evidentes, como todo o segmento com Old Bull Lee (Viggo Mortensen), que por sinal já era uma barriga um tanto longa no livro.

São questões como essa que ficaram na minha cabeça depois do filme. Talvez seja uma crítica bem forte de Salles ao próprio movimento beat, à passividade de Jack/Sal, a um exagero de persona e uma falta de personalidade por parte de Neal/Dean e o próprio partido que toma por Allen/Carlo, o mais sensato, o mais analítico, e que apesar de delírios Rimbaudianos foi também o que mais soube fazer essa ponte entre o mundo real, as aventuras e o mundo das ideias, um pouco encarnando a persona de Salles. E na figura de Dean, temos o rebelde, o desejo de ir além dos próprios limites, mas que ao mesmo tempo é criado por uma falta de uma base (histórica?), nas buscas pelo pai, esposas e filhos e acaba não encontrando um destino próprio. Seja para Jack, Neal, Carlo, Allen, Walter (ou o espectador), resta a figura de uma pessoa perdida, sem rumo, sem futuro, com um passado que artisticamente, historicamente e até socialmente apresentam nulo valor. Um homem que foi a estrada e continua em busca de seu ponto final.

Ao menos, Salles conseguiu o que muita gente não acreditava ser possível: Fez uma leitura sua da obra de Kerouac, não uma mera adaptação. Por mais que possa ter falhas e momentos mortos, isso em si já é algo louvável.

PS: Um adendo bem rápido que eu esqueci de mencionar no texto. O Steve Buscemi está incrível, como sempre, num minúsculo papel, praticamente não-creditado (e que acredito não ser originário do livro).

Leave a comment

Filed under Cinema, Críticas

A veracidade do mundo segundo Godard

Duas ou Três Coisas que eu Sei Dela (2 ou 3 choses que je sais d’elle, 1967, FRA) de Jean-Luc Godard 7,5/10

Esse é o primeiro filme em que Godard parece se colocar na posição de uma personagem feminina e isso talvez já mostra o turbilhão de sentimentos pelo qual ele passava, cujo ápice seria com seu pseudo-rompimento, mais publicitário do que real com o cinema de autor/narrativa. Sua figura de machista e misógino tão clara nos filmes anteriores se perde aqui e temos finalmente uma protagonista forte, Juliette Jeanson, encarnada por Marina Vlady.

Ela questiona o mundo ao seu redor, assume suas escolhas e admite estar em constante mutação. “Uma paisagem é como um rosto” (“le paysage, c’est pareil qu’un visage”), ela constantemente diz. Em um mundo cada vez mais atropelado pela mídia, publicidade, drogas (“se você não toma LSD, compre uma TV a cores”), que oferecem uma percepção do mundo completamente diferente, como saber o que é real, o que é artificial, quais passos tomar, como ser fiel a si mesmo?

A protagonista, uma esposa e mãe que mora no subúrbio de Paris deve-se prostituir para ajudar a pagar as contas. Godard aproveita esse fato para nos perguntar: Mas para viver (ainda mais em uma cidade burguesa como Paris), para ser, para existir, não devemos nos prostituir, nos deixar vender por marcas, ideias e pensamentos? Ao fim, sua protagonista explica a diferença entre o amor verdadeiro e o falso: “O Falso é quando eu volto a mim mesma. O verdadeiro é o qual eu mudo ou a pessoa amada muda. Eu mudei ao mesmo tempo em que voltei a mim. E agora, o que é isso?”*

Assumindo uma posição ensaista, abandonando qualquer narrativa clássica, deixa mais clara e viável sua mensagem, fazendo seu filme um ensaio poético de primeira ordem. Se as metáforas anti-capitalistas funcionavam melhor em “Masculino/feminino”, aqui a fotografia colorida de Raoul Coutard capta melhor todo o sentimento pós-moderno e ainda existe algumas cenas fortes, como os depoimentos no meio do filme, num salão de cabelo, nos quais Godard, em um momento Coutinho/”Jogo de Cena” capta de forma precisa os sentimentos das mulheres e a dúvida que paira no ar, se seriam atrizes ou personagens, talvez só sirva para nos sentirmos mais confortáveis com toda essa situação exposta. “Depois quando eu me casei com François, o que eu fiz? Um monte de coisas banais”.

Essa visão de uma vida real é algo que transpira no filme, ao mesmo passo em que Godard nos lembra minuto após minuto que nada é real. A cena da divagação sobre o café (que inspiraria uma passagem de “I’m not there.”) é certamente o ponto alto do filme em sua divagação cada vez mais atual. Reproduzo a passagem narrada por Godard.

Voici comment Juliette à 15h37 voyait remuer les pages de cet objet que dans le langage ou en linguistique on nomme une revue. Et voilà comment environ 150 images plus loin, une autre jeune femme très semblable, sa soeur, pliait le même objet. Où est donc la vérité, de face ou de profil ? Et d’abord, un objet, qu’est-ce que c’est ? Peut-être qu’un objet est ce qui permet de relier, de passer d’un sujet à l’autre, donc de vivre en société, d’être ensemble. Mais alors, puisque la relation sociale est toujours ambiguë, puisque ma pensée divise autant qu’elle unit, puisque ma parole rapproche par ce qu’elle exprime et isole par ce qu’elle tait, puisqu’un immense fossé sépare la certitude subjective que j’ai de moi-même et la vérité objective que je suis pour les autres, puisque je n’arrête pas de me trouver coupable alors que je me sens innocent, puisque chaque événement transforme ma vie quotidienne, puis- que j’échoue sans cesse à communiquer, je veux dire à comprendre, à aimer, à me faire aimer, et que chaque échec me fait éprouver ma solitude, puisque” (interrupção visual, sonora) “puisque je ne peux pas m’arracher à l’objectivité qui m’écrase et à la subjectivité qui m’exile, puisqu’il ne m’est pas permis ni de m’élever jusqu’à l’être, ni de tomber dans le néant, il faut que j’écoute, il faut que je regarde autour de moi plus que jamais le monde, mon semblable, mon frère. Le monde seul, aujourd’hui où les révolutions sont impossibles, où des guerres sanglantes le menacent, où le capitalisme n’est plus très sûr de ses droits et la classe ouvrière en recul, où les progrès foudroyants de la science donnent aux siècles futurs une présence obsédante, où l’avenir est plus présent que le présent, où les lointaines galaxies sont à ma porte, mon semblable, mon frère… (outra interrupção) Le monde, mon semblable, mon frère. Le monde seul aujourd’hui où les révolutions sont impossibles, où des guerres sanglantes me menacent, où le capitalisme n’est plus très sûr de ses droits et où la classe ouvrière en recule, où le progrès, où les progrès foudroyants de la science donnent au siècle futur une présence obsédante, où l’avenir est plus présent que le présent, où les lointaines galaxies sont à ma porte… Mon semblable, mon frère. (outra interrupção) Où commence ? Mais où commence quoi ? Dieu créa les cieux et la terre bien sûr, mais c’est un peu lâche et facile. On doit pouvoir dire mieux. Dire que les limites du langage sont celle du monde, que les limites de mon langage sont celles de mon monde et qu’en parlant je limite le monde, je le termine. Et que la mort un jour logique et mystérieux viendra abolir cette limite et qu’il n’y aura ni question ni réponse, tout sera flou… Mais si par hasard les choses redeviennent nettes, ce n’est peut-être qu’avec l’apparition de la conscience… Ensuite, tout s’enchaîne.”

*”le faux c’est quand je reviens à moi. le vrai c’est que je change ou que la personne aimée a changé (…) J’ai changé et au même temps j’ai reviens à moi. Alors, qu’est-ce que c’est?”

Leave a comment

Filed under Cinema, Críticas

A vida passa, mas as memórias (filmadas) ficam

Rosas Selvagens (Les Roseaux sauvages, 1994, FRA) de André Téchiné 10/10

Quatro adolescentes durante a década de 60 em uma cidadezinha pequena bem francesa próxima a Toulouse… O que poderia se transformar num coming of age bobo e afetado se transforma numa obra-prima nas mãos de André Téchién, que sabe criar personagens e situações com precisão, tecendo um belo conto sobre o crescer, as primeiras relações, expectativas e desilusões, que nunca deixam de existir como testemunhamos com todos os coadjuvantes adultos que passam pela tela.

A grande qualidade que encontramos no roteiro é criar um fluxo muito natural para o desenvolvimento dos personagens. Apesar de que todos chegarão a um clímax muito forte e obviamente super elaborado no final, todos os passos dados por François, Serge, Henri e Maïte soam extremamente naturais. Os quatro agem sempre impulsivamente e com naturalidade, sendo impossível não nos relacionarmos com eles e suas crises ou simples fases de adolescência.

Tudo ganha um clima bem leve e nostálgico por parte do cineasta francês, com um belo estilo de autobiografia, mas que consegue comunicar com precisão os sentimentos particulares dos personagens, os tornando reais, frágeis mas ainda assim bem decididos do que eles querem ser ou se tornar – se terão êxito é outra história. É quase como um “Dawson’s Creek” que dá 100% certo. Não existe aquela afetação que é tão marcante (e interessante) na série americana. Somos confrontados com pessoas reais, que lidam constantemente com anseios, esperanças, tristezas e outros sentimentos ainda estranhos, enquanto tentam se encontrar no mundo.

Os atores se entregam tanto aos seus papeis que tornam tudo incrivelmente fácil de ser apreendido. Ambos tem cenas muito marcantes. Quando Morel enfrenta finalmente sua sexualidade e deixa de ser um rapaz tímido no espelho exibe um forte poder de interpretação, e é uma pena que ele passou inteiramente para o outro lado da tela (apesar de fazer filmes incríveis como “Notre Paradis”). Já, a transformação que Gorny encarna, de um rapaz agressivo para alguém que tenta ao menos fugir de um estereótipo, mas sempre acaba tropeçando é fascinante, assim como o carima avassalador que Bouchez apresenta, conseguindo impor sua força e delicadeza feminina no meio de tantos rapazes, assim como Moretti como alguém de caráter rígido e marcante que cai vítima de sua própria certeza sobre a vida. Mas talvez o grande vigor do filme seja aquele apresentado por Rideau, em um papel que poderia ter caído facilmente no caricatural, mas ele se sobressai de uma maneira enorme como um menino simples, um tanto sexual (o que as lentes de Jeanne Lapoirie, fotógrafa habitual de Ozon, não cessam de explorar) que se sente perdido diante dos novos amigos, tentando aos poucos e um tanto tardiamente encontrar seu lugar no mundo. Seu rosto expressa mil sentimentos ao mesmo tempo e um close seu na parte final do filme (o qual eu falarei melhor mais tarde) é o ápice do filme.

Criado com a intenção de fazer parte da série televisiva francesa “Tous les garçons et les filles de leur âge”, e levemente inspirado pelo conto de Jean de la Fontaine, “O Carvalho e o Caniço” (como roseaux – caniço – virou rosa no título em português mostra a qualidade dos tradutores…), que ilustra uma cena-chave, acabou de transformando posteriormente num longa.

Bem lentamente, a seu tempo, diretor vai nos apresentando a seus personagens. François (Gaël Morel) e Maïté (Élodie Bouchez) conversam sobre qualquer coisa durante o casamento de Pierre. Ele é irmão de Serge (Stéphane Rideau), servindo pelo exército francês na Argélia, durante a guerra de independência, e resolveu se casar apenas para conseguir uma folga do exército e tenta a ajuda de Madame Alvarez (Michèle Moretti), militante do partido comunista local, mãe de Maïté e professora dos meninos para escapar do serviço, o que ela recusa, dizendo nada poder fazer.

A primeira cena serve de ambientação para Téchiné incluir de forma muito direta seus personagens e o ambiente que os cerca. Seria a natureza culpada pelos atos do homem, ou mesmo influenciaria de forma direta? O filme demora a responder essa questão e chegaremos lá ao final do texto. Logo em seguida, estamos em sala de aula, ambiente recorrente da infância e adolescência, ainda mais para os meninos que estudam num internato. Nele, Mme. Alvarez deixa claro seu papel de professora que consegue o respeito dos alunos por suas posições fortes ao entrar em um conflito tanto ao dizer que apenas duas redações se destacaram da mediocridade e mostraram potencial: A de François, que apresenta um estilo culto e refinado, mas também se esconde por trás de muitas referências e indulgências, e o de Henri (Frédéric Gorny), que tem uma visão favorável à OAS (orgão de milícia francês que atuava na Argélia a favor da colonização), o que força uma desaprovação forte por parte da professora.

Temos então Serge, um menino intelectual mas que ainda se apresenta um pouco perdido em tantas referências, Henri, 21 anos (três anos a mais que o resto da classe), se sentindo fora de lugar por conta de sua preocupação constante com os franceses que moram na Argélia e segundo ele foram esquecidos pela metrópole. Falta entrar nessa relação Serge, que se aproxima de François uma noite, o que cria um laço entre eles, que passam a se ajudar e se tornam amigos próximos, culminando numa noite em que acabam fazendo sexo.

O que não passa de uma curiosidade para Serge, que começa a ficar cada vez mais obcedado por Maïté, que por sua vez percebe de uma vez por todas que sua relação com François nunca vai passar de uma amizade. A cena em que ela descobre da perda de virgindade do menino é incrível. Os dois saíram de um cinema e acabam entrando numa festa. A quantidade de pessoas e a música alta criam uma barreira na relação entre os dois, que estavam no meio de alguma conversa sobre o filme. Ainda inseguro no que diz respeito a um envolvimento físico com ela, e ao ver ela conhecendo um outro amigo durante a festa, François decide se abrir, e definir o que é a relação entre os dois. A câmera se aproxima do casal de amigos, a música passa a ser lenta e o foco é definido na conversa. Ela o reconforta:Não importa o que ele faz com outros, o amor platônico entre os dois nunca será afetado. Após um breve momento de dança, em que finalmente os dois se aproximam, os Beach Boys tocam “Barbara Ann”. É o momento para os dois relaxaram e curtirem o momento, agora finalmente com uma definição mais clara do que existe entre os dois. Téchiné marca essa característica tão própria do cinema francês de realizar cenas de festas tão reais e bem-encenadas (o que era inclusive a única obrigação imposta pela série de TV), mas não deixa de usar artifícios no som para marcar o tempo da conversa e da relação.

O que fazer, como agir?

A morte do irmão de Serge afeta o rumo dos eventos. A professora se sente culpada e entra numa crise depressiva, causando a tão desejada liberdade de Maïté que de repente se vê sem uma mãe e tendo a atenção do amigo dividida. Serge, por sua vez, não sabe mais o que fazer e decide , inclusive, se casar com a ex-cunhada, não por amor, mas para ter uma vida estável e comum. Quando revela seus planos para François, este o pergunta espantado “Você vai passar toda sua vida aqui?”. A resposta afirmativa é tão normal para Serge quanto é estrangeira para François. Talvez por tanta diferença, os dois acabam se aproximando tanto.

Cada vez se apropriando mais de sua homossexualidade, François se aproxima também de Henri, que por sua vez vira inimigo mortal de Serge, por sua aproximação com a OAS, culpada pela morte de seu irmão. Henri aceita a aproximação dele, mas deixa claro sua posição de hétero que apenas quer sexo, o que afasta o ainda confuso François, que busca uma relação amorosa ainda com Serge ou com qualquer outro, idealizando tudo assim como Maïté e o oposto de Henri e Serge, mais cínicos e realistas. Essa diferença, cada vez mais exposta durante o filme, nunca cai numa oposição dialética. Todos tem deslizes, e momentos em que um desejo por ser alguém diferente, por tentar algo de novo fala mais alto.

Sem saber como agir em relação a Serge, com quem viveu apenas uma noite, François vai até à sapataria de Cassagne, que vive com seu companheiro na cidade, em busca de algum conselho, de uma figura paternal que não consegue encontrar no próprio pai, visto em uma cena como alguém distante, fora da realidade do filho. Depois de pensar muito, Cassagne, já nos 60 anos, não sabe responder, diz que não se lembra de quando era criança e não teria como ajudar. Serge se vê novamente sem referências, solto no mundo.

Assim se encontram todos os outros personagens, sem dúvidas. Maïté que sempre quis se afastar de sua mãe e de seu melhor amigo para afim finalmente se conhecer vê sua mãe desabar psicologicamente e se encontra finalmente sozinha no mundo e nas relações com os rapazes. Os olhares constantes de Serge criam repulsa nela, mas seria somente isso ou também a relação que este teve com François?

Ela, que gosta de rapazes mais velhos, também certamente em busca de uma figura paternal (seu pai se separou de sua mãe quando ela era criança e foi para a Nova Caledônia), acaba encontrando em Henri, tão oposto politicamente, mas (ou por isso) cria nela um desejo intenso. Serge, também, sem seu irmão, com os pais longe na Itália, está perdido, tentando definir um futuro que seria o mais certo para ele (um francês rural padrão), mas a relação com os amigos o força a tentar algo além disso. Henri também, não consegue se concentrar, lembrando de seu pai morto na guerra enquanto não consegue se relacionar com a mãe, por ela ter fugido para a França.

Todos os personagens se descobrem em constante evolução, refazendo conceitos sempre. A própria professora tem um choque de realidade ao se encontrar com a esposa argelina de um colega, a fazendo entrar em conflito por conta da atitude mais benevolente deste diante de Henri. Assim como no fim, François já está fumando por influência direta de Serge, cada hábito, cada atitude, cada fala de um personagem certamente tem uma razão de ser que vem de outras pessoas.

A Vida que Segue

Ao fim descobrimos então que por mais que a natureza, assim como contextos históricos e músicas e filmes de nossa época certamente nos ajuda a criar o livro de memórias de nossas vidas, nada disso em si nos define. O que nos define, respondendo a questão posta no terceiro parágrafo é a nossa reação diante de todas essas influências, e principalmente as relações com as outras pessoas. São as ações de amigos, inimigos, pessoas próximas que ajudam mais ainda na criação de nossa personalidade, mas certamente por si só não nos define. A natureza serve apenas de cenário, mas a vida é individual, o que experimentamos e como reagimos é algo único.

A questão do ambiente aparece com força total nas cenas em que a professora está numa clínica para superar a depressão com um tratamento de sono. Enquanto o hospital é investido por um branco insuportável para tentar passar a noção de uma neutralidade, sua memória ainda está bem viva e ao fim é isso que importa. Assim como François ao se lembrar dos momentos que passou com Serge, como quando na bela cena da motocicleta (que oito anos depois reapareceria em “Mal dos Trópicos” de Apichatpong Weerasethakul). Talvez ele se esqueça o dia, o ano, aonde era, até com quem era, mas aquele sentimento, mesmo que seja apenas uma semente ou algum tipo de lembrança nunca desaparecerá.

Quando François diz que nunca vai esquecer dos momentos que passou com ele, Serge responde “Você não pode dizer isso, François. A morte de um irmão é violenta, eu achei que não iria resistir, mas existe algo maior, maior do que a guerra. A vida segue em frente, tudo passa”. Logo depois dessa cena que já anuncia o fim de uma época para François, os amigos são confrontados com um grito de Maïté. Ela acabou de sofrer sua primeira desilusão amorosa com Henri, que após sexo, a chama para fugir junto com ele, o que ela recusa, fazendo ele partir sozinho. De repente, pela primeira vez em todo o filme ela se desarma e cai em prantos diante de François, que a abraça. Logo após, em um plano tocante, vemos Serge e um olhar devastador diante do abraço entre os dois. Pode ser tanto por ver ela apaixonada, mas por outro garoto, mas provavelmente é por ver que ele não possui aquela relação que os dois compartilham. Por mais que ele saiba em teoria que tudo é passageiro, que quem sabe um dia ele pode conseguir o mesmo, e que a relação de François e Maïté não vai durar para sempre, na prática não é tão fácil assim de suportar a vida, e não é a toa que Henri foge, mas, não importa aonde ele estiver, a melancolia e o sentimento de abandono e não-pertencimento àquele ambiente que nunca replicará sua Argélia sempre o perseguirão.

No belíssimo plano final, os três desfocados e lá longe voltam assobiando para a escola. Talvez não tenham percebido o quanto aquele momento foi tão importante em suas vidas, o quanto provavelmente aquelas conversas, aquelas ações e aqueles olhares seguirão para o resto de suas vidas. Neste esquema, Téchiné deixa bem claro sua marca. Nós, do outro lado da tela, espectadores, percebemos, e aí está a grande diferença entre filme, que segue um fluxo e vida, que é totalmente solta e sem lógica. E num raro filme, nada parece forçado, tudo funciona na mais perfeita ordem, assim como a vida. É assim que reconhecemos as grandes obras-primas.

Leave a comment

Filed under Cinema, Críticas

Boas ideias não são tudo

A Águia da Legião Perdida (The Eagle, 2011, RUN/EUA) de Kevin Macdonald 7/10

 

O filme é um claro indício dos tempos modernos: Uma adaptação que se passa nos tempos da Roma antiga, em voga depois do sucesso de “Gladiador”, mas cuja forma lembra muito mais a de um faroeste, com a tentativa de reconquista de uma parte da Grã-Bretanha pelas tropas romanas, mas com um estilo de atuação de diálogos claramente baseados no cinema dos anos 80 e 90, além de um pé no cinema queer com a relação de mestre/escravo dos protagonistas. Isso para não esquecermos do toque “artístico” com o qual Macdonald concebe os nativos, uma espécie de mistura dos índios americanos e Terrence Malick. Mas vamos com calma.

O filme é inspirado em um livro que por sua vez se originou a partir de uma lenda muito recorrente até meados do século XX, sobre a total destruição da famosa Nona Legião Hispânica ao tentar recuperar um terreno romano no sul da Inglaterra. O jovem centurião Marcus Flavius Aquila (Channing Tatum) luta na Bretanha, onde seu pai desapareceu junto com toda a legião acima mecnionada. Após se machucar seriamente ele é posto de lado de combate e ao voltar para Roma, decide embarcar numa missão pessoal junto de seu escravo, Esca (Jaime Bell), para tentar descobrir o que aconteceu com o seu pai e recuperar a Águia, símbolo daquele grupo.

Toda a primeira parte é um tanto estranha e dá a impressão de ser apenas uma introdução antes do filme engrenar de vez, o que acontece quando os dois finalmente partem para o norte da Inglaterra. É na relação dos dois com o ambiente que os cerca, tão diferente da “civilização” que os personagens parecem se sentir mais a vontade, assim como o diretor para compor suas cenas. O auge dessa ode à natureza acontece quando eles finalmente encontram a tribo nativa e Macdonald acerta em fugir da criação de um antagonismo entre heróis e vilões, invasores e invadidos, assassinos e vítimas. Não daria certo qualquer que fossem os intérpretes para esses papeis.

Temos, então, uma análise bem interessante das motivações que levam todos os personagens, seja Marcus, Esca ou ainda o príncipe local (Tahar Rahim). As viradas de roteiro e diálogos são construídos com cuidado, apesar de nem sempre o que funcionaria na teoria acaba dando certo na prática, pois temos a impressão de que estas cenas servem apenas de ponte para as sequências de ação, não sendo trabalhadas com cuidado.

A relação entre Marcus e Esca é outro ponto problemático. É de irritar um pouco que mesmo atualmente, precisa-se criar tão fortemente nas entrelinhas o que seria a base de um relacionamento gay. Note que não digo um relacionamento homoerótico, ou o chamado bromance, mas sim claramente uma relação de amor e sexo que parece determinar muito das ações do personagens. Ou deixa claro ou partimos para uma outra.

Seja as motivações escusas para Marcus ter salvado a vida de Esca no início, ou a troca de diálogos entre os dois e uma relação de submissão que troca de papeis durante o filme, ou ainda o claro descontentamento que Esca tem quando Marcus é acusado de olhar a irmã do líder local, o oferecendo à morte, fica claro que tem algo ali que deveria ser melhor trabalhado, até para compreendermos as motivações dos personagens durante o filme.

Outro ponto fraco é um ar místico que o filme porta no final com um retorno um tanto estranho da nona legião. Aquilo praticamente estraga tudo o que estava sendo construído transformando o que já era um tanto estranho e mal concluído quase numa comédia. Não ajuda muito também o plano final, com o casal Marcus e Esca saíndo do palácio claramente inspirado no fim de “Rastros de Ódio”, cujo andar de John Wayne já foi devidamente parodiado por Nathan Lane na versão americana de “A Gaiola das Loucas”.

Por outro lado, Channing Tatum surpreende criando um protagonista interessante, apesar de Jamie Bell roubar a cena sempre comprovando ser um dos grandes talentos perdidos pelo cinema atualmente, se contentando em ser coadjuvante de luxo em filmes bem inferiores a seu talento, o que é uma pena. Já Rahim, revelado por “Um Profeta” consegue compor um líder preocupado com seu povo, mas que é forte o suficiente para se impor na comunidade, mesmo estando num filme completamente a parte da espinha central de “A Águia”.

Leave a comment

Filed under Cinema, Críticas

Presos no cinema

Armadilha (ATM, 2012, EUA/CAN) de David Brooks 2,5/10

Sinceramente, eu nunca deixo de me espantar que filmes como “ATM” não só sejam produzidos, como geram um interesse grande o suficiente para serem exibidos em mercados estrangeiros, como é o caso do Brasil. O filme, que estreia no próximo dia 18, nada mais é do que um enlatado, que pior ainda, não contente com seu roteiro irrisório tenta criar uma intriga surreal e que simplesmente não explica nada, só deixando ainda mais patético e divertido para os que conseguirem ter graça.

Três jovens adultos depois de uma festa do escritório vão embora. O motorista tenta a sorte com uma colega, enquanto tem de cumprir a promessa de levar como carona um outro colega, que inconvenientemente chama o casal para uma pizza, mas antes pede para parar num caixa eletrônico. Alguma coisa idiota acontece forçando os 3 a estarem dentro do caixa, e possibilitando a aparição de uma figura estranha, encapuzada, que descobrimos depois ser um assassino em série.

Presos no caixa, enquanto faz um frio de -14 graus lá fora, obviamente os três estão sem celular. O filme então tenta tecer uma relação entre três personagens chatos e irritantes, enquanto eles articulam maneiras de sair ou chamar a atenção, e não me espantaria que metade da audiência estivesse torcendo pela morte deles, até para possibilitar a nossa saída do cinema.

O final tenta criar uma surpresa, mas sinceramente é tão mal feito que não conseguimos acreditar. A explicação para todo o acontecimento é irrisória e deixa mais exclamações de ódio do que respostas, pois nem é daquele tipo de pergunta inteligente que faz Kubrick por exemplo em “O Iluminado”. É aquele tipo de filme em que nada faz sentido, com muitos furos no roteiro, seja o motivo do assassino, a falta de ação dos protagonistas, as mortes que acontecem no meio… Tudo existe somente para que a tensão evolua, mas as cenas são dirigidas com um descuido tão exemplar que chega a irritar, como a última morte do filme, que chega a ser engraçada de tão bizarra.

Apesar da ideia ser um tanto interessante (pessoas presas num caixa eletrônico, daria um bom drama psicológico…), e o início tentar mostrar que algo de interessante vem aí com alguém desenhando plantas e fazendo um planejamento ao estilo Spike Lee em “O Plano Perfeito” o que temos é um suspense barato com sustos bobos e personagens idiotas. Porque eles não saíram correndo logo no início e morreram logo é o verdadeiro mistério…

Leave a comment

Filed under Cinema, Críticas

Os contos de Ferrara

Go Go Tales (Go Go Tales, 2012, ITA/EUA) de Abel Ferrara 5,5/10

Foi apenas o quarto filme que eu vi do Ferrara, sim, ainda preciso conhecer muito mais deste diretor tão importante para o cinema contemporâneo americano. Mas enquanto eu gosto muito de “Vício Frenético” e “Mary” e acho “4:44 Last Day on Earth”, exibido em Veneza ano passado um tanto mediano, esse ficou quase no meio do caminho. Uma sinopse um tanto nula, mas que ganha bastante com um William Dafoe bastante inspirado e um ritmo um tanto tresloucado que acaba funcionando no fim.

Os outros atores estão exceçentes também, seja a grande Sylvia Miles no papel da dona do imóvel aonde a boate opera, ou Riccardo Scamarcio, única face italiana no filme (filmado boa parte na Cineccità) e que apresenta carismo e talento de sobra – pena que sua participação é pequena –, passando pelas garotas que também são um deslumbre, mas que obviamente servem apenas figurantes de luxo.

Porém, todos os créditos devem ser dados a Dafoe que cria um dono de boate neurótico, obcecado com um sonho de adolescência e que não consegue largar de seus vícios, mas mesmo assim consegue vencer seus empregados e ao público com um grande coração. Se ficamos até o final do filme e de certa forma felizes, certamente é pelo seu charme.

Leave a comment

Filed under Cinema, Críticas

O Quão Útil é uma Cinemateca?

A Useful Life (La Vida Util, 2010, URU/ESP) de Federico Veiroj 5,5/10

 

O dia-a-dia de uma Cinemateca. As reuniões em que se expõem os problemas. As apresentações de filmes na sala de cinema. O recebimento de cópias (islandesas, yeah!), a tentativa de programação de uma mostra. O desafio constante de conseguir público e apoio financeiro. A solidão de um trabalho e antes de tudo, a rotina de um trabalho contínuo, feito por amor, dedicação… ao menos é isso que nos salta nos primeiros 40 minutos deste filme uruguaio, mas que acaba se transformando em algo totalmente inesperado.

Jorge (Jorge Jellinek) é um funcionário da Cinemateca de Montevideu que ainda mora com seus pais, apesar dos quarenta e poucos anos e dedica sua vida ao trabalho rotineiro e sem inspiração na Cinemateca. Aproveita, aprendemos, para indicar filmes e convidar Paola (Paola Venditto), seu grande amor, para as sessões. Nunca consegue sair com ela, sempre alguma coisa o impede, seja uma má vontade da parte dela ou compromissos, nunca fica claro.

Tudo muda quando a Cinemateca Uruguaia é obrigada a fechar as portas. Depois de 25 anos trabalhando lá, Jorge não sabe o que fazer. Meio perdido, sai as ruas, corta o cabelo, decide abandonar seus pertences de escritório lá. Logo depois, se encontra casualmente com Paola, e a chama para um cinema. Agora sim, ela pode, tem tempo. Finalmente seu projeto de vida sai de uma estagnação e pode caminhar.

Seria interessante a premissa, se o filme não passasse a primeira metade quase toda nos aproximando daquele ambiente. Em nenhum momento Jorge parece insatisfeito, simplesmente entediado, apesar de ficar claro que ele tem uma função muito mais burocrática e empresarial do negócio ao contrário do amor que parece transbordar de seu colega, o diretor da Cinemateca, Manuel Martinez Carril, uma espécie de Hernani dos nossos vizinhos.

Nem parece ser o mesmo diretor que em 2003 realizou um filme retrando os 50 anos da Cinemateca Uruguaia. É triste ver o que parecia se encaminhar como uma bela homenagem se transforma num panorama cruel, como se as pessoas que dedicassem sua vida ao cinema e à salvaguarda de nossa cultura estivessem de fato desperdiçando sua existência. Sinceramente, me pareceu muito mais um libelo ao fechamento das portas do que qualquer coisa e isso acaba destruindo belas cenas como a que se passa na Faculdade de Direito.

Apesar disso o início ainda sobrevive intacto. Com um ritmo todo próprio, Veiroj mostra bem acuradamente como é o dia-a-dia de um grupo que tenta sobreviver regularmente e manter ainda um pingo de cultura e diversão na cidade. O preto e branco no caso funciona perfeitamente para nos levar a um estado de contemplação e submissão ao ambiente de uma Cinemateca, que descartando o final aterrorizante, resta bem bonita na tela.

Leave a comment

Filed under Cinema, Críticas

Quero ser Zelig

As Aventuras de Agamenon, o Repórter (2012, BRA) de Victor Lopes 3,5/10

 

Depois de anos e anos na televisão, o Casseta & Planeta faz aqui sua melhor investida no cinema, o que obviamente não quer dizer muita coisa. O filme se utiliza do famoso personagem criado por Hubert e Marcelo Madureira (que também são os roteiristas do filme) para tentar esculpir a figura de um Zelig brasileiro, que teria participado dos principais acontecimentos mundiais e brasileiros do século XX, sempre com uma piada de cunho sexual e/ou grosseira a posta.

Algumas até funcionam, como a do Leonardo Di Caprio, e a do pato de João Gilberto, mas no máximo causam um sorrizinho amarelo que logo se transforma em irritação. A falta de cronologia ou mesmo sentido em algum dos casos nem causa estranheza, mas a brincadeira fica gasta logo e o que salva são na verdade as piadas com os próprios atores do filme, que funciona como um falso documentário.

Quando Pedro Bial. por exemplo tenta fazer uma entrevista com os confinados de Berlim Oriental, relembrando seus melhores dias, e se empolga num discurso idiota digno de sua fase BBB e acaba sendo enterrado (pela futilidade, pelo decorrer do tempo, pela própria história?), o filme tem um respiro, assim como a participação de João Barone (foto) como um soldado da segunda guerra, ou ainda a fala interrompida de Nelson Motta “pera, de quem eu estou falando mesmo?” ao comentar a explosão de documentários musicais, a maioria bem aquém do talento dos sujeitos retratados e o fato de Ruy Castro ser o biógrafo.

Mas o início do filme inclusive causa certo incômodo, justamente pela falsidade evidente das entrevistas, até porque as falas de Caetano e Fernando Henrique soam muito estranhas e uma sensação de bomba já paira no ar…

Essas pequenas brincadeiras mostram que a comédia funciona por originalidade (no caso do Bial, mais por ver que ele aceita tirar sarro de sua incompetência) e por comentários atuais. Assim, faz todo sentido que eles tenham escolhido Marcelo Adnet para interpretar o personagem quando jovem e fazer uma versão inspirada na segunda guerra mundial para seu sucesso “A Gaiola das Cabeçudas”, apesar de algumas partes um tanto bobas, ainda assim não é permitido que a letra da música fique numa linguagem chula, o que já é um alento.
Sabendo que eles já estão mais ultrapassados do que o VHS, os Cassetas tiveram que apelar para o nome da comédia do momento e bem, fiquemos feliz que o CQC é a principal atração da rival da Globo. Com Adnet, o filme sai da UTI de piadas velhas e batidas (como a presença obrigatória mas totalmente sem inspiração do Dr. Jacinto Leite Aquino Rêgo), e tenta criar uma comédia social, algo que possa realmente causar uma graça nos espectadores, de quaisquer faixa etária.

A última piada metalinguística também é engraçada brincando de certa forma com o machismo das próprias piadas do grupo. Aliás, este é realmente o filme em que eles se apresentam com menos exagero nas piadas, por mais que elas apareçam com certa frequencia na narração de Fernanda Montenegro, nos fazendo pensar o quanto ela ganhou ou nas ameaças (profissionais e pessoais?) que sofreu da Globo para aceitar um papel tão ordinário.

Ao final, a constatação de que uma piada de 5 minutos nos jornais com um acontecimento marcante da semana pode até ser engraçada, talvez, mas simplesmente jogar o protagonista no meio de eventos históricos não causa nenhuma diversão. Os efeitos de “Zelig” e “Forrest Gump” acontecem apenas como coadjuvantes de uma história e infelizmente os Cassetas se esqueceram de perceber isso. Mas ao menos é um filme assistível, o que não se pode se dizer de alguns de suas últimas empreitadas.


Leave a comment

Filed under Cinema, Críticas

A vida por Frank Capra

Do Mundo Nada se Leva (You Can’t Take it with you, 1938, EUA) de Frank Capra 9,5/10

Capra é conhecido por seus feel good movies, que apresentariam uma visão um tanto otimista da sociedade americana. Essa característica, que o poderia caracterizar como alguém ultrapassado, não impede a imediata relação que os filmes de Capra promovem no espectador de 2012. Seus filmes tem conotações políticas, isso é inegável. O roteiro aqui faz referência direta em “espalhar a revolução comunista” e endossa o comportamento desses personagens, nem tanto como uma solução política, mas como uma liberdade de como escolher o modo de vida que conduz todos os moradores daquela casa meio maluca.

Uma família de artistas, libertários e pessoas mais relaxadas, os Sycamore acabam entrando na vida do magnata Anthony P. Kirby (Edward Arnold), quando ele quer comprar a casa para construir uma usina que levaria a falência seu antigo amigo e atual rival, e ao mesmo tempo seu filho Tony (James Stewart) se apaixona por Alice (Jean Arthur), a mais “normal” da família. Muitas confusões acontecem neste que é um dos melhores exemplos da screwball comedy.

O roteiro é afiadíssimo e mantem um ritmo elétrico até uma barriga um tanto chata na parte final. O elenco segura e carrega o filme de uma maneira que nos sentimos já quase um membro daquela família de pessoas sempre a procura de fazer algo a fim de se sentirem bem, por mais inconsequente que possa ser e a família de James Stewart também é muito bem representada no roteiro, com a mudança de atitude do milionário Kirby sendo um tanto crível, apesar de já perceptível desde o início. O conto pode ser um tanto batido, mas produz uma enxurrada de risadas e momentos de reflexão, a partir das experiências dos Sycamore, que acabam mais do que validando o propósito do filme.

Arnold comprova ser um dos melhores atores de sua época, enquanto Arthur tem um magnetismo na tela impressionante. Mischa Auer continua sua caracterização de um russo meio maluco que o tornaria muito popular nos EUA e Spring Byington foi indicada ao Oscar de coadjvuante pela personagem mais interessante (em boa parte por conta de sua atuação), a mãe que ao receber uma máquina de escrever vira uma escritora um tanto amadora de peças, enquanto tenta manter a casa. Stewart porém, faz um personagem tímido, porém determinado e decidido a tentar melhorar a relação com o pai e comprova porque foi um dos maiores atores da história – e meu astro Hollywoodiano favorito.

Leave a comment

Filed under Cinema, Críticas

Je est un autre

That’s when she knew it was over for good. The longest running war in television history. The war that hung like a shadow over the same nine years as her marriage. So why was it suddenly so hard to breathe?”

É interessante rever um filme que mexeu tanto comigo depois de um ou dois anos sem o ver e perceber o quanto aquela obsessão de quatro anos atrás faz muito mais sentido agora, conectado com outros interesses, novas experiências e maiores estudos sobre alguns temas queridos. Aqui falo sobre “I’m Not There” e mais especificamente sobre a parte protagonizada por Heath Ledger e Charlotte Gainsbourg.

Logo nas primeiras revisões no Cine Arte Icaraí (digamos da 5ª a 8ª (editado em 28/04/2012) 8ª a 11ª vez que eu vi o filme), começei a me cansar um tanto da parte mais célebre, a protagonizada por Cate Blanchett. O longa era o meu favorito já e se existia uma parte que eu acreditava ser a mais fraca, a mais enrolada era essa. E apesar deu ter lido um texto que mencionava o fato da parte com Ledger e Gainsbourg ser uma paródia, sempre achei o completo oposto e essa quase homenagem aos filmes de Godard dos anos 60 (dos quais a maioria eu não gosto) acabou se tornando uma das duas partes que mais me interessava (junto com a protagonizada por Gere).

Sempre me emocionou muito os momentos musicais. Desde a explosão sensual de “I Want You”, quanto a sobriedade e melancolia de “Idiot Wind” mostrando o rompimento do casal e finalmente, a sequência que abre o “núcleo”, uma grande ode ao lirismo de “Visions of Johanna”. O visual, os ângulos, o diálogo, os personagens sempre seguiram comigo.

Hoje revendo, aleatoriamente, enquanto escrevo, converso e janto, paro na cena em que já divorciada, em meados da década de 70 (provavelmente 1973), em Los Angeles, 10 anos depois de ter conhecido o ator Robbie Clark, a pintora francesa Claire zapeia e vê por acaso na televisão uma cena de um filme com seu ex-marido. Foi durante a filmagem dessa cena que ela o conheceu, iniciou um papo e começou o turbulento romance.

Antes é necessário abrir um parênteses. Uma das coisas que me incomodam geralmente em filmes é o fato do personagem ligar a tv e estar exatamente num canal com uma reportagem sobre a notícia específica que vai alterar a trama. Pode-se reclamar dessa “coincidência” mas incrivelmente ela é tão bem feita que nunca me incomodou, mas eu nunca soube precisar exatamente o porque.

Hoje acho que consigo interpretar melhor. A grande sacada dessa cena é que justamente ela zapeia e para por total acidente na cena. Pode-se, obviamente, supor que ela poderia ter passado por uma sequência anterior e aí ela teria que escolher entre continuar a ver o filme, ou não… mas pouco importa. Perderia o impacto e não funcionaria.

Visto hoje temos um impacto muito forte. Nesse meio tempo Heath Ledger morreu e não podemos esquecer disso ao ver essa sua melhor interpretação. Até porque como eu dizia, antes de perder o fio da meada, o mais genial dessa sequência é que ela pára por acidente. É a vida jogando em sua cara que o mundo seguiu, as coisas evoluíram, as guerras acabaram, as pessoas mudaram, o tempo passou, o sonho acabou. É um pouco o mesmo choque que eu tenho revendo essa cena, me lembrando da época em que eu revia sem parar, seja no início de 2008 no cinema, seja virando noites (como essa) no primeiro semestre de 2009. Cá estou, Niterói-Rio-Europa-Rio-Paris, com uma especialização que não imaginava, com experiências que nunca sonhava, com desilusões não desejadas, esperanças mortas, surpresas que chegaram…

“Car Je est un autre. Si le cuivre s’éveille clairon, il n’y a rien de sa faute. Cela m’est évident : j’assiste à l’éclosion de ma pensée : je la regarde, je l’écoute : je lance un coup d’archet : la symphonie fait son remuement dans les profondeurs, ou vient d’un bond sur la scène.” (RIMBAUD, Arthur, carta à Paul Demeny, 15/05/1871)

O filme é todo sobre a memória, o efeito de uma música, de uma personalidade em nossas crenças, seja de uma infância, seja na vida de um astro, seja na vida de alguém que passa a vida inteira tentando justamente mudar, ser diferente, virar outra pessoa. Essa é, sem dúvidas, a maior virtude de toda a carreira profissional de Bob Dylan, e é também o grande triunfo do filme. Em algumas partes, como na de Bale e Gere, é extremamente claro.

Nas cenas com Ledger é um tanto mais obscurso, melódico. Charlotte Gainsbourg, em especial, radiante, parece ser um alter-ego de Todd Haynes, ou melhor, um espectador, alguém que vive tão proximamente a vida de uma pessoa louca e sempre on the run como Robbie/Bob, mas que tem seu próprio rumo, seu próprio tempo. E depois de 10 anos, percebe o quanto as coisas mudaram e ao mesmo tempo estagnaram… No quanto o tempo se passou. E nisso eu me lembro do meu querido amigo, que hoje começa a ler Proust, “Em Busca do Tempo Perdido” e como eu tenho certeza que será o meu livro favorito quando começar a ler. E como eu tenho que voltar a desenvolver um texto meio interrompido, meio feito em cima da hora, em 2008, para um trabalho de faculdade sobre o filme. E como, quatro anos depois eu ainda o considero o trabalho de estudante mais interessante que eu já fiz.

Voltando ao filme, é a melhor cena do filme, em parte por conta da atuação magistral de Charlotte. Exaltando nostalgia, uma introspecção fantástica em todas as cenas, nós estamos diante de um personagem que parece viver a flor da pele, sempre ter uma visão diferente a cada pessoa, a cada dia, a cada momento de sua vida, mas ainda assim viver tudo de forma um tanto passiva. E de repente, numa noite no sofá, num programa de televisão, tudo desaba, toda a memória do mundo, toda sua vida de 10 anos (e os sonhos anteriores para os acontecimentos de um futuro do pretérito) cai em seu colo, assim como tinha acontecido um tanto antes, ao saber da notícia que a Guerra do Vietnã, tinha acabado, a “guerra que se pendurou como uma sombra nos anos de casamento”, e que serviu basicamente de tema de fundo para o longo relacionamento com Robbie.

Outras cenas da parte Godardiana dão muita atenção ao fato da memória: Quando Robbie, já divorciado, derruba a caixa de fotografias de família e passa a se lembrar da esposa e dos filhos, ou mesmo na cena mais amarga, quando os dois saem com outro casal e começam a brigar sobre as posições reacionárias dele, que acredita que homens e mulheres possuem emoções e dores diferentes, “e por isso que mulheres nunca poderão ser poetas”, ao que o amigo acusa “você mudou”, ao passo que Robbie toma essa declaração como um elogio e sinal de libertação para criar uma persona ainda mais misteriosa.

“People are always talking about freedom. Freedom to live a certain way, without being kicked around. ‘Course, the more you live a certain way, the less it feel like freedom. Me, I can change during the course of a day. I wake and I’m one person, when I go to sleep I know for certain I’m somebody else. I don’t know who I am most of the time. It’s like you got yesterday, today and tomorrow, all in the same room. There’s no telling what can happen”

Leave a comment

Filed under Cinema, Textos