#DesafioREF #Dia3 – “Cria Cuervos” (1976) de Carlos Saura

Primeira obra-prima que vi neste desafio. Não conheço muito do cinema de Carlos Saura nos anos 1970, quando ele era bem “cult” (sempre tive curiosidade por “Mamãe faz 100 anos”), e não esperava um filme tão lindo quanto este. Escrito especificamente para Ana Torrent, então com 9 anos, e vinda do sucesso de “O Espírito da Colmeia”, é um filme cheio de ternura sobre uma infância difícil ainda que num ambiente aparentemente tranquilo.

Ainda sofrendo pela morte de sua mãe, Ana culpa o pai pelos momentos tristes e pela infelicidade da mãe, interpretada por Geraldine Chaplin e o envenena, passando a morar com a tia rígida e a avó solitária, que passa seus dias silenciosa numa cadeira de rodas além de suas fieis companheiras: as duas irmães (uma mais velha e uma mais nova) e a empregada doméstica Rosa que cuida da família há anos..   

É neste ambiente feminino, em que todos os homens em volta são todos militares que as seis mulheres (ou sete, com a mãe, ou oito com Ana adulta, ambas interpretadas por Chaplin). A Ana adulta é dublada por Julieta Serrano em um castelhano fluente, enquanto a mãe de Chaplin com o castelhano permado por um leve sotaque dá a sensação sempre de estar em um fora de lugar, um local que está sufocando sua própria identidade.

Não a toa, o filme é lido como um retrato perfeito dos últimos dias do franquismo, em que uma casa grande e abandonada – a tia repete sempre do estado em que ela estava -, se esconde por trás de uma pujante avenida madrilenha, com suas publicidades. É um filme que provavelmente ressoava com o Brasil e com os dois outros filmes já vistos – seja a tirania política de “A Confissão” ou a mansão isolada no meio de uma metrópole de “AMor Estranho Amor”

Acho particularmente bonito como Saura cria a personagem da tia, entre o autoritarismo e falta de amor maternal, mas ao mesmo tempo uma preocupação real no que ela acha que é o melhor para as meninas. É uma caracterização complexa, mas Monica Randall encontra o tom perfeito. Florinda Chico é outro achado como a empregada amorosa e que luta comandar a casa de forma silenciosa. 

As cenas relacionadas a memória são bem emocionantes e não a toa, o filme inicia-se com uma panorâmica por um caderno de fotos. O vai e vem da mãe de Ana é bem bonito, numa relação quase proustiana que a menina tem com os locais e objetos da casa: as cenas na piscina em especial são muito bonitas. O uso de “porque te vas”, como balada bubble gam que expressa os sentimentos tristes de Ana é perfeito, assim como a cena maravilhosa em que sua mãe toca uma música triste no  piano.

Um grande achado de Saura e da montagem foi intercalar cenas do presente com o futuro, em que Ana reflete sobre sua infância, de forma muito seca e triste. O filme funciona bem como uma desmistificação da infância e poderia entrar em qualquer mostra de filmes sobre crianças assustadoras, talvez por mostrar simplesmente que as crianças não são tão fofas quanto gostamos de imaginar – daí lembro do “Won’t you be my neighbour?”, filme incrível sobre Fred Rogers.

Como Rubens Ewald Filho aponta em seu texto, existe uma fronteira entre o real e imaginário que perpassa todo o filme, notadamente na “surpresa” do final que acaba colocando muita coisa em cheque, mas dando uma maior complexidade às imagens apresentadas anteriormente. Um filme que provavelmente ganhará muito em uma revisão. 

Esse texto é parte de um desafio de finalmente assistir, durante o mês de junho, a todos os filmes listados no “Cult-Movies do Século XX” de Rubens Ewald Filho no mês de junho. Ele inclui 101 filmes em seu livro, que foi o primeiro de cinema que comprei em dezembro de 2001 – junto com eus outros “Os cem melhores filmes do século XX” e os “100 Maiores Diretores”. Até maio eu já tinha visto 76 e resolvi me desafiar em ver esses 25 filmes que sempre me marcaram pelos títulos e informações incluídas no livro. No final do mês comento sobre os outros que já tinha visto e faço minha lista de preferidos. Foi o quarto filme visto.

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Filed under Cinema, Críticas

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