Contos de Primavera

 

Quando se tem 17 anos (Quand on a 17 ans, 2016, FRA) Dir: André Téchiné

André Téchiné é um cineasta que entrou no meu imaginário – e talvez na história do cinema – com uma delicada história da descoberta do amor e da sexualidade em meio a uma cidadezinha francesa nos anos 1960. A comparação com “Les roseaux sauvages” (1994) é inegável aqui: novamente temos dois meninos jovens descobrindo seus sentimentos um pelo outro.

De novo, nada é como se parece e o cineasta possui uma sensibilidade eficaz em transformar histórias que facilmente poderiam cair em um padrão “conto erótico” em contos universais sobre o desejo, amor e lamentações.

O filme é um tanto esquemático e acaba atrapalhando um pouco a fluidez das cenas. Téchiné e seu diretor de fotografia colocam a câmera colada ao rosto dos atores contrastando com amplas vistas de uma cidade na montanha; são raros os planos fixos, o que nos deixa mais próximo desses personagens. Os jovens atores são um dos principais responsáveis pelo sucesso do filme, especialmente Kacey Motttet Klein que exprime muito bem o estado de ebulição em que vive sua personagem. Sandrine Kiberlain também é uma presença iluminada como a mãe dele.

O filme, porém, sofre de algo que tenho percebido muito entre cineastas mais velhos: uma certa inabilidade de entender como os jovens vivem e se interagem hoje em dia. Longe de mim em querer estipular uma regra de conduta ou imaginar que todas pessoas em todos lugares do mundo vivam da mesma maneira. E é louvável e perceptível a presença de Céline Sciamma no roteiro, certamente contribuindo muito para um olhar adolescente do qual o filme é impregnado. Mas a sensação autobiográfica, clara e evidente no filme de 1994, persiste. Ainda que elementos contemporâneos estejam no filme para fazer a história andar (as conversas com o pai militar pelo skype, o cara mais velho do site de encontros, ligações de socorro, etc), ainda é aquela história de amor, desejo e saudades típica dos anos 1990 e mesmo 1960.

Outras pequenas coisas incomodam, como o fato do protagonista praticamente usar a mesma camisa na segunda parte do filme e a trama que parecia não respirar por si só, seguindo caminhos traçados por um esquema narrativo pré-determinado. Na última cena, em que uma personagem corre registrado por uma câmera frenética e com o burquinense Victor Démé na trilha, algo fresco parece ter brotado subitamente, mas já era tarde.

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