Vitórias e derrotas

Paratodos (2016, BRA) de Marcelo Mesquita

 

“Paratodos” tem muitos ingredientes para ser um típico filme de superação banal: em primeiro lugar é um filme sobre esportes de alto nível em que alguns milímetros de segundo podem determinar o sucesso ou o fracasso de uma campanha de quatro anos; em segundo lugar, retrata pessoas com algum tipo de deficiência física que precisam superar a dificuldade do dia-a-dia, o preconceito e as vezes um embate interno travado com as limitações do próprio corpo.

É um filme bem regular, que busca ser acessível enquanto trata seus personagens com respeito até demais. São quatro blocos: no primeiro acompanhamos os atletas de atletismo; depois os representantes da canoagem; em seguida a seleção nacional de futebol de cinco (para cegos) e encerra com a natação.

Especialmente na primeira parte, o filme perde um pouco a linha: a trilha sonora exagera e a montagem extrapola os altos e baixos da vida de um atleta. É estranhamente, também, a parte em que menos explica didaticamente como funciona o desporto paralímpico. As muitas categorias do atletismo são um tanto homogeneizadas sob a luz dos holofotes nos grandes estádios.

Não a toa é a categoria mais exibida na televisão, mais comentada e cujos vencedores são mais rapidamente transformados em estrelas, como foi o caso de Ádria dos Santos, primeira estrela paralímpica do Brasil, após os dois ouros (e prata) nas Paralimpíadas de Sidnei em 2000.

Paratodos-1

Porém, quando o foco passa aos outros esportes, o registro mais naturalista ganha chão e um filme mais interessante surge. Sejam nas histórias divertidíssimas da equipe de futebol de cinco ou ainda nas dificuldades inerentes ao esporte paralímpico, que luta para ser justo com atletas das mais variadas limitações. A classificação funcional que existe nos esportes é bem discutida nas partes de canoagem e natação, ainda que o velho discurso de injustiça seja sempre reiterado e salvo algumas exceções os atletas se imaginam lutando contra forças maiores.

Esse talvez seja o principal problema do filme: muito dependente dos seus personagens, mesmo que sejam todos muito interessantes (cada um a seu modo), ele não vai além em tentar discutir questões mais amplas das paralimpíadas. Prefere fazer um retrato das lutas dos atletas e de pessoas com deficiência, transformando todos em heróis. Sem um panorama histórico também do desporto paralímpico, é bacana ver uma menção rápida a Clodoaldo da Silva, o principal nome brasileiro das paralimpíadas de Atenas 2004, primeira transmitida ao vivo pela SporTV. Clodoaldo, um herói na época depois foi reclassificado e perdeu toda a competitivdade, algo que acontece sempre: difícil separar bem as categorias, há sempre uma vantagem de um lado.

O último personagem do filme é Daniel Dias, aquele que se tornou o principal nome paralímpico do Brasil, um nadador que soube assumir o papel de porta-voz: bem articulado e inspirador, é uma escolha perfeita para encerrar o filme.

O filme, portanto, cumpre bem o seu papel de ser uma porta de entrada à maioria dos brasileiros (com deficiência ou não) a respeito dos esportes paralímpicos. Muito bem filmado (tem até um bom plano de drone, olha só!), com uma grande equipe (percebe-se a presença de várias câmeras em cada cena) parece muito um bom especial para televisão. Emociona e informa na medida certa, ainda que se esquiva de discutir os muitos problemas que assolam o paradesporto ou ainda nunca põe na parede alguns dos seus personagens. O Brasil ficou em sétimo nas paralimpíadas de Londres e a expectativa é de um lugar no top5 este ano. Lançado poucas semanas antes das paralímpiadas do Rio, tem tudo para ter um bom resultado nas bilheterias e quem sabe, ser o primeiro de vários filmes sobre o tema!

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