Anotações alguns dias depois da primeira visita ao filme-testamento do Manoel.

Visita ou Memórias e Confissões (1982/2015, POR) de Manoel de Oliveira

 

Estava assistindo ao filme meio cansado e pesquei em alguns minutos da primeira parte. Manoel ou olha para a câmera ou empresta sua voz em uma narração em off. Já no alto dos setenta e poucos anos, parecendo não ter um dia a mais que cinquenta, ele apresenta sua casa, seu jardim, sua família. Fala de agricultura e arquitetura. Desculpem, mas é um pouco cansativo.

Visita ou memorias e confissões

Só que justamente quando pareço disposto a dormir e algumas imagens de sonho me veem a cabeça, a voz doce de Manoel é um alento. Uma paixão contamina sua fala, um amor pela vida, pela terra, pelos seres humanos. Isso tudo prepara o terreno, como um bom agricultor (e arquiteto!), para que já tenhamos intimidade suficiente com o homem.

 

Daí ele se sente livre para falar sobre sua vida, suas ideias sobre juventude, sobre virgindade, sobre a beleza no mundo. Para ele, a nossa história é saudade. Projetamos um futuro a partir do passado. Sua trajetória na terra (os primeiros 70 anos pelo menos) não foi marcado exatamente por dificuldades, mas teve suas barreiras e seus percursos acidentados. Ainda assim, uma certa felicidade por estar vivo, por estar trabalhando, por ser português, por ter uma capacidade de reflexão do mundo é contagiante.

 

Boa parte dos últimos minutos é dedicada a suas histórias e lutas durante o salazarismo. Ao lembrar de seu tempo detido, aponta clinicamente: “A quão baixo desce o homem”. O cinema português da época também estava quase destruído. Ainda assim, o filme é feito já alguns anos após o 25 de abril e Manoel segue espantado como a história pode dar tantas voltas. Assim como nós nos espantamos por ele ainda ter mais 35 anos de carreira e sua trajetória imortal ter chegado ao fim. Estávamos acostumados aos seus filmes anuais e pelo menos é um alento saber que ele tinha “preparado” esse filme.

Visita-ou-Memorias-e-confissoes-2

Ainda assim, fico um tanto chocado por ver o filme em digital. É um filme que respira 35mm em movimentos de câmera maravilhosos e uma cor linda, antiga, que respira memórias e nostalgia. O plano de Maria Isabel no jardim falando da vida como esposa de um realizador não é simplesmente notável, mas é para ficar na memória, como Maureen O’Hara num filme de John Ford. Até num filme familiar, Manoel se supera.

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