Mad, Mad, Mad Men

Vinyl HBO

Dois episódios de Vinyl assistidos e fica evidente a inspiração de Mad Men nesta nova série da HBO produzida por Martin Scorsese e Mick Jagger. É possível que Mad Men tenha criado uma estrutura para contar narrativa histórica tão perfeita que se demore muito para escapar dela?

Os pontos em comum entre as duas séries são vários: o uso ostensivo de músicas na série da HBO seja de forma diegética – as personagens em shows ou ouvindo discos – ou para marcar o ritmo lembram os filmes de Martin Scorsese do que Mad Men (Caminhos Perigosos especialmente). Ainda assim, a série criada por Matthew Weiner começou a usar cada vez mais as músicas para fazer comentários finais a respeito dos episódios especialmente a medida que a série adentrava nos anos 1960. O fato de Mad Men ter situado seu último capítulo 2 anos e meio antes do início de Vinyl deixa ainda mais uma sensação de continuação.

As personagens principais são idênticas: Don Draper/Richie Finestra, um gênio criativo e descontrolado, comandando com seu talento uma empresa sem se preocupar em seguir regras. Se Draper se alimentava de Martinis e nos piores momentos cambaleava e dormia pelo escritório, Richie se entope de cocaína e não para. No segundo episódio, dentro de um cinema, começa a interagir com um filme de Bruce Lee (e obviamente me lembrei de Don e Lane assistindo a um filme japonês) e volta ao seu escritório dando golpes de kung fu em todo mundo, enquanto interrompe a negociação da venda da sua empresa para um grupo alemão.

É alguém que pensa no “eu” e nunca no “nós”. E nesse bolo entra a esposa dele, Devon, uma espécie de Betty dos anos 1970. Ela fazia parte da Factory e abandonou uma vida de atriz/modelo em Manhattan para morar no subúrbio e cuidar das crianças. Já no segundo episódio, ela esquece as crianças em uma lanchonete, depois de um longo flashback em que ela se lembra de seu passado quase glorioso e um pouco excitante nos anos 1960.

Enquanto os flashbacks de Mad Men eram pontuais e serviam, na primeira temporada, para explicar a identidade de Don, nos dois primeiros episódios os flashbacks são usados constantemente para explicar o passado dos protagonistas e apontar pontos de virada. É uma estratégia que de tão usada se torna um tanto batida, assim como a narração invasiva no início do piloto.

American Century, a empresa comandada por Richie, é uma produtora musical que lembra bastante a Sterling Cooper original, mas com 13 anos de diferença e uma mentalidade muito mais jovem. Aqui as drogas comandam e a moça do café, Jamie, também é responsável pelo abastecimento ilícito. Ela, assim como Peggy, quer subir na empresa e de secretária começa a ter funções mais criativas.

Os outros companheiros de empresa de Richie parecem funcionar da mesma forma básica que os de Don faziam: O Roger, aquele companheiro mais próximo e responsável pelas falas engraçadas é interpretado por Ray Romano. Os outros vão se dividindo entre aquele que fala besteira e parece mais idiota (Harry), alguém que lembre um antagonista (Pete), mas com aqueles looks anos 1970 que Ted, Stan e companhia imortalizaram. O problema é que ainda não conhecemos ninguém direito em Vinyl, mesmo com três horas de série, e enquanto esses estereótipos são perceptíveis, as personagens não existem. Com a ressalva que ainda é o segundo episódio, é tanta música, é tanta confusão, é uma fotografia tão escura (ou será que a versão que eu vi é muito ruim?) que a série não sabe fazer o que Mad Men melhor fazia: respirar.

O primeiro episódio de Vinyl foi dirigido com a maestria habitual de Scorsese, e a montagem consegue fazer bom uso de todos os flashbacks, criando uma estrutura narrativa interessante. Além disso, algumas cenas são incríveis, como o – verídico – desabamento de um edifício ao final. É a representação de uma cidade – e uma personagem – que por conta de seu barulho e de sua incrível força consegue desabar suas próprias fundações, mas ainda assim consegue sair viva disso tudo, assim como Richie, no melhor estilo zumbi drogado. Bobby Can

Mas o segundo episódio é preocupante por cair numa vala comum e se perde um pouco nas muitas drogas e rock ‘n’ roll – e pouco sexo. Se Mad Men conseguia instaurar uma aura dos anos 1960 em atitudes e estilo, mas nunca parecendo um pastiche, Vinyl parece caminhar para aquele problema típico de séries de época. Parece mais uma visão do que hoje pensamos e celebramos como os anos 1970 do que os anos 1970 de fato, algo paradoxal mas compreensível visto a participação de Scorsese e Jagger na produção.

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