A Seita (2015, BRA) de André Antônio [8/10]

 

 

 I’ve got dreams, dreams to remember
I’ve got dreams, dreams to remember

Honey, I saw you there last night
Another man’s arms holding you tight
Nobody knows what I feel inside
All I know, I walked away and cried

 

 

A Seita é mais um filme incrível que vem do Surto & Deslumbramento, provavelmente a produtora mais instigante e sagaz da nossa década. O filme é o primeiro longa do grupo e trata do tédio que acomete um jovem ao voltar das Colônias Espaciais para o Recife em 2040. Ele encontra uma cidade decadente, abandonada, sem pessoas na rua, perigosa onde ninguém sai a noite e que apesar da vacina obrigatória que erradicou a necessidade de sono, os habitantes ainda promovem o velho hábito de dormir. Tudo isso em meio a uma casa gigante ultra decorada com elementos kitsch e com idas frequentes a um local onde encontra parceiros de sexo e diversão fugaz.

 

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Alguns poderão argumentar que falta mais enredo, que o projeto inicial no formato de curta-metragem se faz sentido por uma certa repetição, um alargamento de planos, quase um dolce far niente por parte das personagens que é celebrado e levado ao máximo pela direção.

Ora, se isso for realmente acionado é porque a pessoa não entendeu muito sobre o filme, ou algo mais grave ainda: não embarcou nele. Eu defendo o contrário: o filme é muito curto, poderia ir muito mais além. Alguns personagens passam batidos e poderiam ser mais explorados: a beleza angelical do loiro que serve de isca para a seita; o ruivo que vai ler poemas no parque de pegação e o filme não concede um verso a ele.

 

Algumas coisas poderiam não funcionar e talvez não funcionem, mas justamente por seu caráter meio falho, sua experimentação sem culpa e sem perdão elas são incríveis. O que dizer daqueles movimentos de câmera na cena em que as personagens fumam maconha e quase chega ao ponto de fazer vomitar um espectador mais sensível? Mas que jeito maravilhoso de passearmos pela sala, percebermos os detalhes da decoração, os títulos dos livros que enfeitam o ambiente?

Usando as palavras de Susan Sontag, a obra é um daqueles poucos exemplos de camping que funciona: tudo é forçosamente exagerado, de um modo muito auto-reflexivo que pode soar muito sério em sua aparente falta de rigor e justamente seriedade. Sua aparente despretensão mal esconde uma grandiosa pretensão. Ao mesmo tempo em que é uma homenagem descarada a Visconti e outros estetas da magnitude decorativa, é quase um Sganzerla do século XXI: a ideia do “se a gente não pode fazer igual, vamos avacalhar” parece permear todo o filme, a começar pela ideia de dar o papel de protagonista a Pedro Pinheiro, que ao apresentar o filme no Festival Mix Brasil disse ter sido sua primeira atuação.

 

Mas ao mesmo tempo em que brinca com a ideia de um palacete amplamente decorado com cores fortes e objetos absurdos no meio do centro decadente do Recife, que seria um contraponto às Colônias Espaciais, onde “ninguém mais anda a pé” possui um profundo respeito a este exagero. Esse ambiente de ostentação interna se contrasta com as ruas abandonadas da cidade, onde raramente vemos pessoas andando e só uma moto espacial (uso incrível do som aqui) perturba o clima bucólico.

Nada ali parece servir como fonte de conteúdo – livros servem mais de decoração do que de fonte de conhecimento tradicional. Em um momento ele lê o livro “La Mélancolie” e o importante ali nunca é o que é lido, uma frase bonita, um pensamento genial: serve simplesmente para exprimir ao espectador um estado de espírito – aliado ao formato decadente do livro deteriorado (como obra física) e da própria língua francesa (como obra cultural). A decadência permeia o filme, como vimos e a homenagem a Visconti não é a toa.

 

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Na metade do filme achava que o filme teria uma certa inspiração de Apichatpong e incluir uma discussão política mais profunda sérias no meio de um estado onírico e estético. Nada disso. Enquanto a obra chega a discutir o assunto em alguns momentos, parece ter uma noção forte de que enquanto questões políticas são sérias e merecem ser debatidas, já existem muitas pessoas no mundo – e na cidade – para se ocupar disso. Quem vai cuidar da beleza do mundo? Assim, enquanto um amante se levanta para ir a um protesto, o protagonista afirma que “nada neste mundo vai me tirar desta cama hoje”.

 

A utilização da música ajuda bastante a criar um clima de vida que acontece pelo mero prazer estético: ela certamente não serve para aproximar o espectador da narrativa ou da personagem; talvez ela sempre esteja ali para fazer da cena algo maior do que ela é, maior do que a vida. O que seria de Fassbinder sem Leonard Cohen em seus grandes filmes da década de 70, ou de Morte em Veneza sem Mahler? Com uma trilha cuidadosamente escolhida e que atinge uma perfeita sintonia com o prazer visual das imagens, aqueles acontecimentos na casa se tornam algo marcantes. Se dormir pelado é a norma, por o robe para tomar o café da manhã em uma louça é a regra da casa. Assim como acontecia com Jeanne Dielman, em alguns momentos a estabilidade era rompida: a necessidade de por um segundo jogo de xícaras enquanto o parceiro sexual do protagonista não acordava e cumpria com os jogos do lar pareciam incomodar vivamente ele, que seguia interpretando o seu papel do melhor jeito que lhe cabia.

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O tédio, o cansaço permeia o filme que começa como uma narração de um sonho: o de número 43. Ao lembrar de um passado talvez já distante, o filme assume um tom nostálgico, em que talvez o protagonista esteja em seu leito de morte. O filme se torna em seu grande flashback um estudo da passagem de tempo, do que motiva uma vida, dos momentos que fazem o dia e que moldam uma trajetória.

 

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