Tenho Sonhos Para Lembrar

São Paulo, 22 de maio de 2015.

É certo que eu ouviria esta música algum momento depois. É provável que eu já tivesse inclusive escutado e é mesmo possível que ela constasse na minha playlist do iphone. Mas foi naquela tarde de outono norte-americano dentro de uma loja meio louca de vinis que ela entrou dentro de mim, que ela mudou minha vida. É a música que faz a ponte daquele dia em meados de novembro de 2013 e meados de maio de 2015, nesta São Paulo igualmente fria, e também charmosa, nem que seja pelos motivos diversos. É a partir desta música também que me vem a mente 2007 e tudo o que fiz e não fiz naquele ano e todos os outros sonhos dos quais me lembro, cujos nomes me arrepio só de lembrar ou ainda mais de sonhar.

É a partir do spotify – quem mesmo me recomendou o Spotify? Quem criou? – que eu de repente posso ouvir simplesmente porque quero nesta noite-quase-madrugada de meados de maio de 2015–quase-fim-de-agosto-de-02016 e também ligar a rádio e descobrir “Take time alguma coisa” do Percy Sledger seguida de “A change is gonna come” do Sam Cooke que eu me lembro tão bem – faz parte de algum filme? – mas quase nunca escuto. Tô chorando aqui e será que eu sabia que naquele dia lá de novembro de 2013, quando a Glória na sua casa me recomendou meio loucamente que eu fosse nesta loja – foi mal, amiga espanhola da Gloria que eu esqueci o nome: na época eu educadamente não concordei, mas foi uma sugestão bem louca mesmo.

Era na estrada que levava Rochester para algum lugar, mas nossa, como que eu vou me esquecer de que eu andei numa estrada numa cidadezinha norte-americana pra ir numa loja de vinis que deveria ser a melhor do mundo, mas basicamente era simplesmente legalzinha? Não importa o destino, importa o caminho, mas será que eu me lembraria de tudo isso mesmo se alguém não decidisse colocar nos alto falantes o Otis Redding?

E os matinhos que vi, as casinhas lindas pelas quais passei, e brinquei e sabia que ia muito me atrasar porque era um mundo tão diferente do meu e eu precisava aproveitar cada instante? E aquela chuva monumental que eu peguei na volta e nenhum carro parava pra me dar carona mas eu continuava meio com vergonha, meio com medo a tentar pegar carona estimulado pelo David Sedaris e seus contos – e aí eu me pergunto se eu realmente tentei muito pegar carona ou se foi uma memória que se criou a partir de um desejo interno? E aí eu me lembro de ficar lendo esse livro – que eu certamente li por inúmeras vezes em vários trajetos – na espera pelo passaporte na policia federal no Galeão antes de voltar pra Cinemateca do MAM – até pesquisei alguma palavra especialmente difícil no aplicativo do Oxford Dicctionary – ou melhor ainda, naquela vez louca em que eu estava indo de casa, em Botafogo, de ônibus (de novo, taria mesmo saindo de casa?) e um belga bonitinho mas meio aleatório me perguntou se eu era estrangeiro pelo simples fato de eu estar lendo um livro em inglês. Ele era lutador de MMA (!?!) e queria trabalhar durante a Copa do Mundo. Me deu vontade de fuxicar ele no face agora, mas nem lembro se ficamos mesmo amigos e sinto que perderia muito tempo. As coisas que queremos fazer e temos que nos esforçar para deixar de lado se não tudo acaba, se não o tempo voa, se não eu não estou mais em Minsk pegando aquela chuva forte, louca, a chuva mais forte e louca que eu já peguei na minha vida e que me lembrei por conta da outra chuva forte e louca que eu peguei em Rochester. Mas aquela chuva bielorrussa foi mais interessante ainda porque voltei a me lembrar do Brasil – já tinha me lembrado pelo clima meio tropical do Líbano e da vontade iminente de tomar banho ao acordar – e fiquei meio feliz de que essas chuvas torrenciais não acontecem só no Brasil e na Tailândia dos sonhos dos quais me lembro sempre. Tava ali na Europa uma chuva torrencial, tipo aquela chuva de granizo em Paris onde eu corria para ver um filme que não consigo mais me lembrar qual é – seria “A History of Violence” mesmo ou algum outro do Cronenberg? Ou “Far From Heaven”? Sei que era nO Grand Action, na Rue des écoles (Daí a minha felicidade enorme em anotar tudo, ou quase tudo, ou tudo por aalguns momentos – sei que posso ir lá depois e lembrar que filme era). Era início de dezembro, isso me lembro.

E aí que tudo se mistura e se volta a mim nesta noite em que ouço o Redding tentando ler Bernardet, Historiografia Clássica, e aí vou ao blog e tenho uma sensação de que algo vai triggerar, provocar um gatilho a mais memórias e mais palavras e que o presente que estou vivendo agora será mais uma destas no passado do meu futuro. Nas quais espero frequentar mais lugares estranhos que ficam nas estradas que cortam nossas cidades. A conferir.

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