De que valeu a luta?

A Memória que me Contam (2013), Lúcia Murat

 

 

Após o frustrante Maré, Nossa História de Amor, Lúcia Murat volta ao campo da política para tentar discutir onde foi parar a geração guerrilheira da época da ditadura e o que eles ainda tem a oferecer hoje, com A Memória que me Contam, lançado em meados do ano passado. A pergunta que norteia o filme, mencionada em algum ponto do filme, é “valeu a pena?”.

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A trama segue o mesmo laço de muitas outras: um grupo de amigos se reencontra no hospital para cuidar de Ana, que parece ser a grande líder e cola do grupo. Entre os amigos estão um antigo guerrilheiro italiano (Franco Nero), uma cineasta que se inspira em sua própria vida e história para realizar seus trabalhos (Irene Ravache) e José Carlos, personagem de Zé Carlos Machado, que virou Ministro da Justiça e tenta no poder fazer com que os militares abram seus arquivos.

 

O passado é representado pela geração mais jovem que basicamente protagoniza o filme. É a partir dos olhares de Eduardo (Miguel Thiré), filho de Irene, Gabriel (Patrick Sampaio), filho de Ricardo (Otávio Augusto) e Chloé (Naruna Kaplan de Macedo), sobrinha de Ana, que Murat encontra a chave para compreender as personagens e suas relações com o presente.

 

A parte de Irene e Eduardo que formam o núcleo central nenhum personagem ganha destaque, criando um grande painel em que prevalecem mais ideias gerais do que construções reais: Temos um ex-militante que não se atualizou (Ricardo) e assim entra em desacordo com o filho, acadêmico de arte que é casado com Eduardo. O fato de Irene ter problemas em aceitar plenamente a homossexualidade do filho é tida como algo estranho para uma geração que teria lutado pela liberdade, mas é algo que não chega a ser apresentado como um problema concreto – os dois discutem isso em meio a taças de vinho e algumas brincadeiras.

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Já a crise de Ricardo e Gabriel é anunciada na abertura de uma grande exposição de Eduardo, quando o sogro deste brinca que parece um grande playground. O casal fica irritado, o que parece estranho visto que o projeto ganha um contexto social durante a película, basicamente como uma brincadeira de criança. Todas as questões do filme já foram tratadas antes e o que vemos é apenas a rebarba de muita coisa, mas sem a tranquilidade e a eficácia de uma câmera que parece observar uma vida cotidiana.

 

Quanto aos personagens das décadas de 1960/70, tampouco temos algo. Chloé, que anda com um caderninho para cima e para baixo, tenta compreender o que são aquelas pessoas. O que ela aprende, creio eu, é a mesma coisa que o jovem casal sente: falam muito, fodem pouco e são figuras meio caricatas que vivem do passado e quase nunca propõem algo para o presente. Talvez por isso todos gostavam de Ana, que era vista como a mais louca e mais viva do grupo. Talvez ela tivesse algum traço realmente importante.

 

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Ana volta, jovem (Simone Spoladore), para conversar com os antigos colegas sobre as decisões que tomaram, a vida que levaram… Ela aparece jovem, apesar de ainda estar viva em seus sessenta e poucos anos – apesar de problemas mentais pelo que dizem -, o que é bem próprio ao filme: as personagens viveram seu ápice com a juventude. Então devemos valorizar a juventude atual? Ao final, Chloé escreve em seu caderninho quando vê Eduardo e Ricardo se beijarem algo como “realizar os seus desejos – Maio de 1968”. A revolução política foi reduzida a isso? A ganhos individuais, uma maior liberdade de expressão? Na falta de alternativa melhor, Murat parece acreditar nesta resposta e confiar na juventude.

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April 5, 2014 · 12:31 am

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