Marília Pera e Paul Morrissey em Manhattan

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Mixed Blood é um destes filmes perdidos na história do cinema cuja redescoberta se dá de maneiras extremamente prazerosas.  A ideia do filme já é um barato: Paul Morrissey, já longe do sucesso da época da Factory dirigindo um filme estrelado por Marília Pera, que vinha do sucesso de Pixote.

 

O filme gira em torno de uma gangue de tráfico de drogas composta por um bando de crianças com menos de 14 anos (idade penal nos Estados Unidos, pelo que parece) liderados pela brasileira Rita la Punta, personagem de Pera. Além dos guris, temos neste grupo o filho meio retardado meio filhinho de mamãe de Thiago (Richard Ulacia), e outros jovens maiores que se destacam, como Jose (Rodney Harvey).

 

É uma visão bem pessimista da Nova Iorque, na esteira de Taxi Driver e muitos outros dos anos 1970/1980. O cenário é o bairro conhecido como Alphabet City, ao sudeste de Manhattan. Eu, particularmente, não imaginava que esta região tão próxima do centro comercial e artístico da cidade,  era tão perigosa e cinzenta como representada, apesar de saber que outras áreas como o Bronx possuía problemas similares.

 

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Foi um choque pessoalmente também ver o filme, levando em conta que estive há poucos meses na cidade e andei por aquelas ruas que hoje já sentem fortemente o processo de gentrificação que varreu a cidade após a gestão do Prefeito Rudolph Giuilliani nos anos 1990.

 

A produção foi obviamente sendo inspirada pelo andar das filmagens. Se Ulacia parece um péssimo ator, pode ser justificada pelo fato de que a personagem é alguém que só faz o que a mãe manda e nunca sai do bairro (“não é seguro para você fora do Alphabet City˜, diz Rita) a cena em que a mãe justifica o sotaque horrível e quase indecifrável do filho como algo decorrente da infância dele no Rio, parece razoável e quase como uma desculpa de Morrissey, meio infundada já que ele em nenhum momento fala português no filme.

 

Ao oposto de Marilia Pera, que mesmo com um fortíssimo sotaque (satirizado na mesma cena, quando ela proclama falar um inglês perfeito), consegue criar uma personagem incrível que sai falando coisas incríveis para todos ao seu redor em inglês e em português. O sotaque carregado trabalha a favor, ao criar uma personagem incrível e saber falar português dá um prazer ainda maior, pois Pera cria falas sensacionais, muito provavelmente uma contribuição dela ao roteiro, o que nos faz crer que até as partes em inglês foram em parte desenvolvidas por ela.

 

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Ulacia, por outro lado, faz bem o seu papel de ser um galã fortão, mostrando uma boa visão de Morrissey para garimpar rostos e corpos bonitos, algo que vem de sua colaboração com Wahrol (e que foi levada ao ápice com Joe D’Alessandro). Rodney Harvey em particular, brilha com seus olhos azuis e um ar de inocência perdida, em seu primeiro papel de destaque antes de ir para o set de Van Sant em Garotos de Programa e contrair um vício em heroína que o matou prematuramente em 1998.

 

O dia a dia do grupo traz algumas pequenas grandes cenas, sempre girando em torno da personagem de Pera, como naquela em que ela vai organizar o bufê do batizado do neto em um estabelecimento ucraniano, pedindo Doritos, sorvete para as crianças e cerveja (“mas tem que ser brasileira”) ou quando para ela entrar no buraco da parece que serve de porta para o seu prédio ela tem que pular um menino de rua dormindo (“ai, acorda garoto! Detesto gente pobrena porta da minha casa”). Fico imaginando se o filme foi legendado nos Estados Unidos e as partes em português chegaram a ser compreendidas por aqueles não fluentes no idioma – é ali que Pera completa uma criação meticulosa de chefona do tráfico e dá o tom quase cinema marginal do filme.

 

5 Comments

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5 responses to “Marília Pera e Paul Morrissey em Manhattan

  1. Lara

    Onde vc viu esse filme? Obrigada.

  2. Mateus Nagime

    Oi Lara, encontrei na internet. É fácil achar um torrent, mas sei que tem um dvd americano vendendo na Amazon!

  3. Lara

    Tem como vc me passar o link de onde baixou?

  4. Luiza

    Não consegui encontrar esse filme pra baixar. Onde eu encontro, quero muito vê-lo. Obrigada

  5. Mateus Nagime

    Oi Luiza e Lara, tudo bem? PErdão pela demora. Infelizmente eu só achei este filme em um tracker privado, o Karagarga. Se eu descobrir ele em algum tracker público eu posto aqui. O que eu quis dizer acima na verdade é que “NÃO” é fácil!

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