Kerouac visto por Salles

Na Estrada (On the Road, 2012, FRA/BRA/RUN/EUA) de Walter Salles 8,5/10

Difícil saber por onde começar um texto sobre o novo filme de Walter Salles, em competição pela Palma de Ouro de Cannes. Ao mesmo tempo que minha as minhas expectativas eram altíssimas, assim como a de vários fãs do livro, hoje eu acordei com uma sensação de que sofreria uma tremenda decepção. Impossível o cineasta captar em duas horas e vinte minutos todas aquelas sensações e angústias de Dean, Sal e toda sua miríade de personagens que povoaram o romance clássico de John Kerouac. Afinal, o que esperar de uma adaptação tão ambiciosa?

A transposição é correta, todas os blocos do filme estão representados, as passagens mais clássicas, um ritmo e um senso geral foram plenamente captados por Salles e sua equipe. Óbvio que isso acaba também trabalhando contra. A parte que mais me emocionou na leitura, aquela na California, quando Sal e Terry (Alice Braga) têm um breve relacionamento em meio aos campos, aqui se resume a meros cinco minutos, se tanto. Aquela sensação de abandono inerente, de perda prévia, da vida que segue e de um futuro que não consegue se lançar por si só frente a um presente constante e pulsante parece impossível de ser traduzida de forma linear.

Haynes tinha percebido isso tão claramente no seu “On the Road” que foi a biografia de Dylan, “Não Estou Lá”.. Mas lá ele tinha uma inspiração livre e Salles, um grande diretor, o mainstream mais obviamente engajado nas mudanças, nos trajetos que percorrem diariamente a vida do homem (Terra Estrangeira, Central do Brasil, Diários de Motocicleta e seu episódio de Paris eu te amo, em especial) parecia o diretor mais adequado. A estrada está lá, os personagens a percorrem, mas parece faltar um tanto o trajeto psicológico, o percorrer mental tão único e tão particular de cada um. É basicamente um filme um tanto careta, bem padrão independente, mas nunca passa perto de estragar o forte material que possui.

Aqui o transcendental, tão recorrente na obra original, não é alcançado. O que não anula o filme de maneira alguma. A última cena, em especial, numa noite fria de Nova York é em especial emocionante e bem realizada, quando a vida se confunde com a arte, e a amizade é retratada como a própria estrada, em que não importa a velocidade, um dia chega ao fim. Ali estão os dois caminhos da América, os dois caminhos do cinema e da arte. O vagabundo que vive por pulsões, sem se preocupar muito com suas escolhas, fazendo o que vem na telha e basicamente sua outra metade intelectual, quase um alter ego, que está sempre com vontade de, a beira de cruzar a linha (seja no ménage, seja na carona, seja no México) mas é impedido seja por um limite mental, físico ou sexual.

Essa segunda opção também é aquela abraçada por Salles. Ele (Sal/Kerouac/Salles) mostra os “loucos, loucos para viver, falar, serem salvos” que tanto ama, mas em nenhum momento ameaça se transformar num deles. Assim, de certa maneira, claro, ele toma partido do seu protagonista (visto por ele e pelo roteirista José Riveira), o que acaba fazendo algum sentido, mas não diminui o tom de decepção. Teria que reler o livro, finalizado há tantos anos, mas não me lembrava de Sal ser um personagem tão passivo assim, por mais que faça sentido vide ao caráter de Kerouac.

Aliás, essa é uma liberdade poética que Salles usa e abusa. Os personagens do filme são criados, sim, a partir dos homónimos do livro, e em um padrão geral seguem as mesmas ações, pensamentos e diálogos, obra. Mas obviamente o diretor foi além e buscou relacioná-los mais com os personagens reais que serviram de inspiração. Carlo Marx praticamente desaparece para dar lugar a Allen Ginsberg, o maior poeta de sua geração que parece ter sido um juiz e o mais sensato e crítico de todos eles (“eu vi os expoentes de minha geração serem destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus…”) e aqui tem toda essa função especialmente na primeira parte enquanto Sal se deslumbra mais e mais pelo Dean. Mas também sua obsessão sexual por Dean/Neal Cassidy é bem mais representada do que no livro, assim como passagens da vida dos dois protagonistas (Neal e Jack, no caso), como o fato da tia italiana de Sal ter sido trocada por uma mãe canadense, companheira por toda a vida de Kerouac, o passado como prostituto, etc, além de uma grande ênfase dada na obra-prima de Proust, “Em busca do tempo perdido”, que não me lembro de ser nem citada por Kerouac em suas páginas, mas certamente evoca o mesmo espírito. E é perfeitamente compreensível e até louvável que o filme termina justamente com Paradise/Kerouac escrevendo todo o livro, inclusive as partes já mencionadas e termina justamente com o parágrafo final.

Mesmo assim, e até por isso, senti falta de uma tentativa de liberdade, explosão maior do diegético por Salles. O filme poderia ter uma explosão musical tremenda, mas resulta em uma trilha um tanto banal de Gustavo Santaolalla e algumas peças de jazz, matrizes de impulso no livro. Mas tantos anos depois, ainda seriam elas as forças por trás? Apesar de ideias boas de fotografia, como a câmera sempre colada aos rostos dos atores, e uma certa distensão quando eles estão prestes a abandonar. Esses momentos soam bonitos, mas em geral os planos são inteiramente controlados, por mais que existam alguns incríveis, especialmente em Nova York – e é uma pena que Eric Gautier não consegue capturar justamente a estrada ou a Califórnia com tanta beleza. Seria uma forma de se por nos olhos de Sal/Jack, que apesar de tantas viagens e experiências acabava sempre achando um caminho para casa, em seu quarto mais máquina de escrever?

Algumas cenas possuem uma espécie de gás, como o ritual no México e os delírios febris de Sal que o seguem (por mais que soem forçadamente como um clímax). Os protagonistas estão corretos, mas não criam interpretações memoráveis. Sam Riley carrega sempre um olhar um tanto observador e um tanto perdido que fazem sentido com essa visão de Walter Salles sobre Jack Kerouac, enquanto Garrett Hedlund tem altos e baixos como Dean, mas tem êxito em apresentar seu mais forte traço, uma mistura de sensualidade e inocência que acaba conquistando tantas mulheres e homens durante o filme. Kirsten Dunst tem poucas cenas mas as rouba, enquanto Kirsten Stewart não tem muitas dificuldades para fazer uma personagem um tanto boba, sem grandes interesses, uma subtração um tanto forte a partir do livro. Já Tom Sturridge aproveitou muito bem o forte interesse do diretor pelo personagem e consegue criar um Carlo Marx/Allen Ginsberg em formação, sendo ao mesmo tempo seduzido por Sal e por ideias redentoras na África e tendo uma visão cada vez mais clara de sua geração e de questões mais profundas.

Pontos que ainda podem ser levantados como falhas ou dois passos para frente e um para trás, como as cenas de sexo serem tão púdicas acabam tendo ressonância no próprio livro. Esses e outros temas um tanto mais polêmicos são bem mais explorados no filme, por mais que mais de meio século faça uma grande diferença em questões de auto-controle artístico. Mesmo que sejam considerados independentes, tanto Kerouac quanto Salles ainda acabam participando do mainstream e é inevitável que um sacrifício seja feito, mas a grande questão é: ele era desejável? Enquanto isso outras falhas são mais evidentes, como todo o segmento com Old Bull Lee (Viggo Mortensen), que por sinal já era uma barriga um tanto longa no livro.

São questões como essa que ficaram na minha cabeça depois do filme. Talvez seja uma crítica bem forte de Salles ao próprio movimento beat, à passividade de Jack/Sal, a um exagero de persona e uma falta de personalidade por parte de Neal/Dean e o próprio partido que toma por Allen/Carlo, o mais sensato, o mais analítico, e que apesar de delírios Rimbaudianos foi também o que mais soube fazer essa ponte entre o mundo real, as aventuras e o mundo das ideias, um pouco encarnando a persona de Salles. E na figura de Dean, temos o rebelde, o desejo de ir além dos próprios limites, mas que ao mesmo tempo é criado por uma falta de uma base (histórica?), nas buscas pelo pai, esposas e filhos e acaba não encontrando um destino próprio. Seja para Jack, Neal, Carlo, Allen, Walter (ou o espectador), resta a figura de uma pessoa perdida, sem rumo, sem futuro, com um passado que artisticamente, historicamente e até socialmente apresentam nulo valor. Um homem que foi a estrada e continua em busca de seu ponto final.

Ao menos, Salles conseguiu o que muita gente não acreditava ser possível: Fez uma leitura sua da obra de Kerouac, não uma mera adaptação. Por mais que possa ter falhas e momentos mortos, isso em si já é algo louvável.

PS: Um adendo bem rápido que eu esqueci de mencionar no texto. O Steve Buscemi está incrível, como sempre, num minúsculo papel, praticamente não-creditado (e que acredito não ser originário do livro).

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Filed under Cinema, Críticas

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