Boas ideias não são tudo

A Águia da Legião Perdida (The Eagle, 2011, RUN/EUA) de Kevin Macdonald 7/10

 

O filme é um claro indício dos tempos modernos: Uma adaptação que se passa nos tempos da Roma antiga, em voga depois do sucesso de “Gladiador”, mas cuja forma lembra muito mais a de um faroeste, com a tentativa de reconquista de uma parte da Grã-Bretanha pelas tropas romanas, mas com um estilo de atuação de diálogos claramente baseados no cinema dos anos 80 e 90, além de um pé no cinema queer com a relação de mestre/escravo dos protagonistas. Isso para não esquecermos do toque “artístico” com o qual Macdonald concebe os nativos, uma espécie de mistura dos índios americanos e Terrence Malick. Mas vamos com calma.

O filme é inspirado em um livro que por sua vez se originou a partir de uma lenda muito recorrente até meados do século XX, sobre a total destruição da famosa Nona Legião Hispânica ao tentar recuperar um terreno romano no sul da Inglaterra. O jovem centurião Marcus Flavius Aquila (Channing Tatum) luta na Bretanha, onde seu pai desapareceu junto com toda a legião acima mecnionada. Após se machucar seriamente ele é posto de lado de combate e ao voltar para Roma, decide embarcar numa missão pessoal junto de seu escravo, Esca (Jaime Bell), para tentar descobrir o que aconteceu com o seu pai e recuperar a Águia, símbolo daquele grupo.

Toda a primeira parte é um tanto estranha e dá a impressão de ser apenas uma introdução antes do filme engrenar de vez, o que acontece quando os dois finalmente partem para o norte da Inglaterra. É na relação dos dois com o ambiente que os cerca, tão diferente da “civilização” que os personagens parecem se sentir mais a vontade, assim como o diretor para compor suas cenas. O auge dessa ode à natureza acontece quando eles finalmente encontram a tribo nativa e Macdonald acerta em fugir da criação de um antagonismo entre heróis e vilões, invasores e invadidos, assassinos e vítimas. Não daria certo qualquer que fossem os intérpretes para esses papeis.

Temos, então, uma análise bem interessante das motivações que levam todos os personagens, seja Marcus, Esca ou ainda o príncipe local (Tahar Rahim). As viradas de roteiro e diálogos são construídos com cuidado, apesar de nem sempre o que funcionaria na teoria acaba dando certo na prática, pois temos a impressão de que estas cenas servem apenas de ponte para as sequências de ação, não sendo trabalhadas com cuidado.

A relação entre Marcus e Esca é outro ponto problemático. É de irritar um pouco que mesmo atualmente, precisa-se criar tão fortemente nas entrelinhas o que seria a base de um relacionamento gay. Note que não digo um relacionamento homoerótico, ou o chamado bromance, mas sim claramente uma relação de amor e sexo que parece determinar muito das ações do personagens. Ou deixa claro ou partimos para uma outra.

Seja as motivações escusas para Marcus ter salvado a vida de Esca no início, ou a troca de diálogos entre os dois e uma relação de submissão que troca de papeis durante o filme, ou ainda o claro descontentamento que Esca tem quando Marcus é acusado de olhar a irmã do líder local, o oferecendo à morte, fica claro que tem algo ali que deveria ser melhor trabalhado, até para compreendermos as motivações dos personagens durante o filme.

Outro ponto fraco é um ar místico que o filme porta no final com um retorno um tanto estranho da nona legião. Aquilo praticamente estraga tudo o que estava sendo construído transformando o que já era um tanto estranho e mal concluído quase numa comédia. Não ajuda muito também o plano final, com o casal Marcus e Esca saíndo do palácio claramente inspirado no fim de “Rastros de Ódio”, cujo andar de John Wayne já foi devidamente parodiado por Nathan Lane na versão americana de “A Gaiola das Loucas”.

Por outro lado, Channing Tatum surpreende criando um protagonista interessante, apesar de Jamie Bell roubar a cena sempre comprovando ser um dos grandes talentos perdidos pelo cinema atualmente, se contentando em ser coadjuvante de luxo em filmes bem inferiores a seu talento, o que é uma pena. Já Rahim, revelado por “Um Profeta” consegue compor um líder preocupado com seu povo, mas que é forte o suficiente para se impor na comunidade, mesmo estando num filme completamente a parte da espinha central de “A Águia”.

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Filed under Cinema, Críticas

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