A vida passa, mas as memórias (filmadas) ficam

Rosas Selvagens (Les Roseaux sauvages, 1994, FRA) de André Téchiné 10/10

Quatro adolescentes durante a década de 60 em uma cidadezinha pequena bem francesa próxima a Toulouse… O que poderia se transformar num coming of age bobo e afetado se transforma numa obra-prima nas mãos de André Téchién, que sabe criar personagens e situações com precisão, tecendo um belo conto sobre o crescer, as primeiras relações, expectativas e desilusões, que nunca deixam de existir como testemunhamos com todos os coadjuvantes adultos que passam pela tela.

A grande qualidade que encontramos no roteiro é criar um fluxo muito natural para o desenvolvimento dos personagens. Apesar de que todos chegarão a um clímax muito forte e obviamente super elaborado no final, todos os passos dados por François, Serge, Henri e Maïte soam extremamente naturais. Os quatro agem sempre impulsivamente e com naturalidade, sendo impossível não nos relacionarmos com eles e suas crises ou simples fases de adolescência.

Tudo ganha um clima bem leve e nostálgico por parte do cineasta francês, com um belo estilo de autobiografia, mas que consegue comunicar com precisão os sentimentos particulares dos personagens, os tornando reais, frágeis mas ainda assim bem decididos do que eles querem ser ou se tornar – se terão êxito é outra história. É quase como um “Dawson’s Creek” que dá 100% certo. Não existe aquela afetação que é tão marcante (e interessante) na série americana. Somos confrontados com pessoas reais, que lidam constantemente com anseios, esperanças, tristezas e outros sentimentos ainda estranhos, enquanto tentam se encontrar no mundo.

Os atores se entregam tanto aos seus papeis que tornam tudo incrivelmente fácil de ser apreendido. Ambos tem cenas muito marcantes. Quando Morel enfrenta finalmente sua sexualidade e deixa de ser um rapaz tímido no espelho exibe um forte poder de interpretação, e é uma pena que ele passou inteiramente para o outro lado da tela (apesar de fazer filmes incríveis como “Notre Paradis”). Já, a transformação que Gorny encarna, de um rapaz agressivo para alguém que tenta ao menos fugir de um estereótipo, mas sempre acaba tropeçando é fascinante, assim como o carima avassalador que Bouchez apresenta, conseguindo impor sua força e delicadeza feminina no meio de tantos rapazes, assim como Moretti como alguém de caráter rígido e marcante que cai vítima de sua própria certeza sobre a vida. Mas talvez o grande vigor do filme seja aquele apresentado por Rideau, em um papel que poderia ter caído facilmente no caricatural, mas ele se sobressai de uma maneira enorme como um menino simples, um tanto sexual (o que as lentes de Jeanne Lapoirie, fotógrafa habitual de Ozon, não cessam de explorar) que se sente perdido diante dos novos amigos, tentando aos poucos e um tanto tardiamente encontrar seu lugar no mundo. Seu rosto expressa mil sentimentos ao mesmo tempo e um close seu na parte final do filme (o qual eu falarei melhor mais tarde) é o ápice do filme.

Criado com a intenção de fazer parte da série televisiva francesa “Tous les garçons et les filles de leur âge”, e levemente inspirado pelo conto de Jean de la Fontaine, “O Carvalho e o Caniço” (como roseaux – caniço – virou rosa no título em português mostra a qualidade dos tradutores…), que ilustra uma cena-chave, acabou de transformando posteriormente num longa.

Bem lentamente, a seu tempo, diretor vai nos apresentando a seus personagens. François (Gaël Morel) e Maïté (Élodie Bouchez) conversam sobre qualquer coisa durante o casamento de Pierre. Ele é irmão de Serge (Stéphane Rideau), servindo pelo exército francês na Argélia, durante a guerra de independência, e resolveu se casar apenas para conseguir uma folga do exército e tenta a ajuda de Madame Alvarez (Michèle Moretti), militante do partido comunista local, mãe de Maïté e professora dos meninos para escapar do serviço, o que ela recusa, dizendo nada poder fazer.

A primeira cena serve de ambientação para Téchiné incluir de forma muito direta seus personagens e o ambiente que os cerca. Seria a natureza culpada pelos atos do homem, ou mesmo influenciaria de forma direta? O filme demora a responder essa questão e chegaremos lá ao final do texto. Logo em seguida, estamos em sala de aula, ambiente recorrente da infância e adolescência, ainda mais para os meninos que estudam num internato. Nele, Mme. Alvarez deixa claro seu papel de professora que consegue o respeito dos alunos por suas posições fortes ao entrar em um conflito tanto ao dizer que apenas duas redações se destacaram da mediocridade e mostraram potencial: A de François, que apresenta um estilo culto e refinado, mas também se esconde por trás de muitas referências e indulgências, e o de Henri (Frédéric Gorny), que tem uma visão favorável à OAS (orgão de milícia francês que atuava na Argélia a favor da colonização), o que força uma desaprovação forte por parte da professora.

Temos então Serge, um menino intelectual mas que ainda se apresenta um pouco perdido em tantas referências, Henri, 21 anos (três anos a mais que o resto da classe), se sentindo fora de lugar por conta de sua preocupação constante com os franceses que moram na Argélia e segundo ele foram esquecidos pela metrópole. Falta entrar nessa relação Serge, que se aproxima de François uma noite, o que cria um laço entre eles, que passam a se ajudar e se tornam amigos próximos, culminando numa noite em que acabam fazendo sexo.

O que não passa de uma curiosidade para Serge, que começa a ficar cada vez mais obcedado por Maïté, que por sua vez percebe de uma vez por todas que sua relação com François nunca vai passar de uma amizade. A cena em que ela descobre da perda de virgindade do menino é incrível. Os dois saíram de um cinema e acabam entrando numa festa. A quantidade de pessoas e a música alta criam uma barreira na relação entre os dois, que estavam no meio de alguma conversa sobre o filme. Ainda inseguro no que diz respeito a um envolvimento físico com ela, e ao ver ela conhecendo um outro amigo durante a festa, François decide se abrir, e definir o que é a relação entre os dois. A câmera se aproxima do casal de amigos, a música passa a ser lenta e o foco é definido na conversa. Ela o reconforta:Não importa o que ele faz com outros, o amor platônico entre os dois nunca será afetado. Após um breve momento de dança, em que finalmente os dois se aproximam, os Beach Boys tocam “Barbara Ann”. É o momento para os dois relaxaram e curtirem o momento, agora finalmente com uma definição mais clara do que existe entre os dois. Téchiné marca essa característica tão própria do cinema francês de realizar cenas de festas tão reais e bem-encenadas (o que era inclusive a única obrigação imposta pela série de TV), mas não deixa de usar artifícios no som para marcar o tempo da conversa e da relação.

O que fazer, como agir?

A morte do irmão de Serge afeta o rumo dos eventos. A professora se sente culpada e entra numa crise depressiva, causando a tão desejada liberdade de Maïté que de repente se vê sem uma mãe e tendo a atenção do amigo dividida. Serge, por sua vez, não sabe mais o que fazer e decide , inclusive, se casar com a ex-cunhada, não por amor, mas para ter uma vida estável e comum. Quando revela seus planos para François, este o pergunta espantado “Você vai passar toda sua vida aqui?”. A resposta afirmativa é tão normal para Serge quanto é estrangeira para François. Talvez por tanta diferença, os dois acabam se aproximando tanto.

Cada vez se apropriando mais de sua homossexualidade, François se aproxima também de Henri, que por sua vez vira inimigo mortal de Serge, por sua aproximação com a OAS, culpada pela morte de seu irmão. Henri aceita a aproximação dele, mas deixa claro sua posição de hétero que apenas quer sexo, o que afasta o ainda confuso François, que busca uma relação amorosa ainda com Serge ou com qualquer outro, idealizando tudo assim como Maïté e o oposto de Henri e Serge, mais cínicos e realistas. Essa diferença, cada vez mais exposta durante o filme, nunca cai numa oposição dialética. Todos tem deslizes, e momentos em que um desejo por ser alguém diferente, por tentar algo de novo fala mais alto.

Sem saber como agir em relação a Serge, com quem viveu apenas uma noite, François vai até à sapataria de Cassagne, que vive com seu companheiro na cidade, em busca de algum conselho, de uma figura paternal que não consegue encontrar no próprio pai, visto em uma cena como alguém distante, fora da realidade do filho. Depois de pensar muito, Cassagne, já nos 60 anos, não sabe responder, diz que não se lembra de quando era criança e não teria como ajudar. Serge se vê novamente sem referências, solto no mundo.

Assim se encontram todos os outros personagens, sem dúvidas. Maïté que sempre quis se afastar de sua mãe e de seu melhor amigo para afim finalmente se conhecer vê sua mãe desabar psicologicamente e se encontra finalmente sozinha no mundo e nas relações com os rapazes. Os olhares constantes de Serge criam repulsa nela, mas seria somente isso ou também a relação que este teve com François?

Ela, que gosta de rapazes mais velhos, também certamente em busca de uma figura paternal (seu pai se separou de sua mãe quando ela era criança e foi para a Nova Caledônia), acaba encontrando em Henri, tão oposto politicamente, mas (ou por isso) cria nela um desejo intenso. Serge, também, sem seu irmão, com os pais longe na Itália, está perdido, tentando definir um futuro que seria o mais certo para ele (um francês rural padrão), mas a relação com os amigos o força a tentar algo além disso. Henri também, não consegue se concentrar, lembrando de seu pai morto na guerra enquanto não consegue se relacionar com a mãe, por ela ter fugido para a França.

Todos os personagens se descobrem em constante evolução, refazendo conceitos sempre. A própria professora tem um choque de realidade ao se encontrar com a esposa argelina de um colega, a fazendo entrar em conflito por conta da atitude mais benevolente deste diante de Henri. Assim como no fim, François já está fumando por influência direta de Serge, cada hábito, cada atitude, cada fala de um personagem certamente tem uma razão de ser que vem de outras pessoas.

A Vida que Segue

Ao fim descobrimos então que por mais que a natureza, assim como contextos históricos e músicas e filmes de nossa época certamente nos ajuda a criar o livro de memórias de nossas vidas, nada disso em si nos define. O que nos define, respondendo a questão posta no terceiro parágrafo é a nossa reação diante de todas essas influências, e principalmente as relações com as outras pessoas. São as ações de amigos, inimigos, pessoas próximas que ajudam mais ainda na criação de nossa personalidade, mas certamente por si só não nos define. A natureza serve apenas de cenário, mas a vida é individual, o que experimentamos e como reagimos é algo único.

A questão do ambiente aparece com força total nas cenas em que a professora está numa clínica para superar a depressão com um tratamento de sono. Enquanto o hospital é investido por um branco insuportável para tentar passar a noção de uma neutralidade, sua memória ainda está bem viva e ao fim é isso que importa. Assim como François ao se lembrar dos momentos que passou com Serge, como quando na bela cena da motocicleta (que oito anos depois reapareceria em “Mal dos Trópicos” de Apichatpong Weerasethakul). Talvez ele se esqueça o dia, o ano, aonde era, até com quem era, mas aquele sentimento, mesmo que seja apenas uma semente ou algum tipo de lembrança nunca desaparecerá.

Quando François diz que nunca vai esquecer dos momentos que passou com ele, Serge responde “Você não pode dizer isso, François. A morte de um irmão é violenta, eu achei que não iria resistir, mas existe algo maior, maior do que a guerra. A vida segue em frente, tudo passa”. Logo depois dessa cena que já anuncia o fim de uma época para François, os amigos são confrontados com um grito de Maïté. Ela acabou de sofrer sua primeira desilusão amorosa com Henri, que após sexo, a chama para fugir junto com ele, o que ela recusa, fazendo ele partir sozinho. De repente, pela primeira vez em todo o filme ela se desarma e cai em prantos diante de François, que a abraça. Logo após, em um plano tocante, vemos Serge e um olhar devastador diante do abraço entre os dois. Pode ser tanto por ver ela apaixonada, mas por outro garoto, mas provavelmente é por ver que ele não possui aquela relação que os dois compartilham. Por mais que ele saiba em teoria que tudo é passageiro, que quem sabe um dia ele pode conseguir o mesmo, e que a relação de François e Maïté não vai durar para sempre, na prática não é tão fácil assim de suportar a vida, e não é a toa que Henri foge, mas, não importa aonde ele estiver, a melancolia e o sentimento de abandono e não-pertencimento àquele ambiente que nunca replicará sua Argélia sempre o perseguirão.

No belíssimo plano final, os três desfocados e lá longe voltam assobiando para a escola. Talvez não tenham percebido o quanto aquele momento foi tão importante em suas vidas, o quanto provavelmente aquelas conversas, aquelas ações e aqueles olhares seguirão para o resto de suas vidas. Neste esquema, Téchiné deixa bem claro sua marca. Nós, do outro lado da tela, espectadores, percebemos, e aí está a grande diferença entre filme, que segue um fluxo e vida, que é totalmente solta e sem lógica. E num raro filme, nada parece forçado, tudo funciona na mais perfeita ordem, assim como a vida. É assim que reconhecemos as grandes obras-primas.

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Filed under Cinema, Críticas

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