O Quão Útil é uma Cinemateca?

A Useful Life (La Vida Util, 2010, URU/ESP) de Federico Veiroj 5,5/10

 

O dia-a-dia de uma Cinemateca. As reuniões em que se expõem os problemas. As apresentações de filmes na sala de cinema. O recebimento de cópias (islandesas, yeah!), a tentativa de programação de uma mostra. O desafio constante de conseguir público e apoio financeiro. A solidão de um trabalho e antes de tudo, a rotina de um trabalho contínuo, feito por amor, dedicação… ao menos é isso que nos salta nos primeiros 40 minutos deste filme uruguaio, mas que acaba se transformando em algo totalmente inesperado.

Jorge (Jorge Jellinek) é um funcionário da Cinemateca de Montevideu que ainda mora com seus pais, apesar dos quarenta e poucos anos e dedica sua vida ao trabalho rotineiro e sem inspiração na Cinemateca. Aproveita, aprendemos, para indicar filmes e convidar Paola (Paola Venditto), seu grande amor, para as sessões. Nunca consegue sair com ela, sempre alguma coisa o impede, seja uma má vontade da parte dela ou compromissos, nunca fica claro.

Tudo muda quando a Cinemateca Uruguaia é obrigada a fechar as portas. Depois de 25 anos trabalhando lá, Jorge não sabe o que fazer. Meio perdido, sai as ruas, corta o cabelo, decide abandonar seus pertences de escritório lá. Logo depois, se encontra casualmente com Paola, e a chama para um cinema. Agora sim, ela pode, tem tempo. Finalmente seu projeto de vida sai de uma estagnação e pode caminhar.

Seria interessante a premissa, se o filme não passasse a primeira metade quase toda nos aproximando daquele ambiente. Em nenhum momento Jorge parece insatisfeito, simplesmente entediado, apesar de ficar claro que ele tem uma função muito mais burocrática e empresarial do negócio ao contrário do amor que parece transbordar de seu colega, o diretor da Cinemateca, Manuel Martinez Carril, uma espécie de Hernani dos nossos vizinhos.

Nem parece ser o mesmo diretor que em 2003 realizou um filme retrando os 50 anos da Cinemateca Uruguaia. É triste ver o que parecia se encaminhar como uma bela homenagem se transforma num panorama cruel, como se as pessoas que dedicassem sua vida ao cinema e à salvaguarda de nossa cultura estivessem de fato desperdiçando sua existência. Sinceramente, me pareceu muito mais um libelo ao fechamento das portas do que qualquer coisa e isso acaba destruindo belas cenas como a que se passa na Faculdade de Direito.

Apesar disso o início ainda sobrevive intacto. Com um ritmo todo próprio, Veiroj mostra bem acuradamente como é o dia-a-dia de um grupo que tenta sobreviver regularmente e manter ainda um pingo de cultura e diversão na cidade. O preto e branco no caso funciona perfeitamente para nos levar a um estado de contemplação e submissão ao ambiente de uma Cinemateca, que descartando o final aterrorizante, resta bem bonita na tela.

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Filed under Cinema, Críticas

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