O “Cidade de Deus” africano

Viva Riva! (Viva Riva!, 2010, RDC/FRA/BEL) de Djo Tunga Wa Munga 7/10

Apesar de em média 15 filmes estrearem por semana no circuito parisiense, além das centenas de reprises que sempre pintam por aqui, o multiculturalismo que é visto no dia-a-dia da cidade não se traduz nas telas de cinema. Cerca de 70% das sessões se dividem entre produções francesas e americanas, com o resto sendo ocupado por poucos filmes de outros países, notadavelmente China, Japão, Bélgica e Espanha. A África, mesmo com uma população cuja presença é forte, seja por nascidos no continente ou descendentes, tem raras chances de expor seu cinema. Por isso é bem interessante que esse título, do Congo belga (a RDC) esteja tendo tanta divulgação e seja lançado pela maior rede de cinemas, UGC.

Bradado como “O Pulp Fiction de Kinshasa” no poster, o filme se deve ser comparado com algum sucesso do mercado internacional recente, deve ser com “Cidade de Deus”. O filme parece que aprendeu bastante com as lições de Meirelles, localizando seu filme numa cidade caótica, suja, cheia de barulho e confusão, mas tendo uma visão bem estilizada. Munga, em seu segundo filme, se acomoda em planos gerais e apenas se aproxima dos personagens para justamente não mostrar em sua totalidade e brutalidade algumas cenas de sexo que permeiam o filme.

Quase todos os clichês africanos, verdadeiros ou não são retratados aqui. Uma obsessão constante por dólar levando os personagens a um festival de de tráfico de gasolina e violência, aonde todo mundo é um pouco corrupto e pensa em sair daquele lugar. No meio disso tudo, Riva (Patsha Bay), encontra ainda amor, ao ver pela primeira vez Nora (Manie Malone), a esposa de um chefão local Azor (Diplome Amekindra). Para piorar as coisas, Riva acabou de chegar no ex-Zaire trazendo combustível da Angola e é perseguido por uma gangue do país vizinho, cujo chefe César (Hoji Fortuna) não mede assassinatos para conseguir por as suas mãos no protagonista.

Assim, a comparação com o longa de Tarantino faz mais sentido, já que nunca parecemos estar realmente desbravando uma realidade africana. Sim, nada daquilo parece falso, ou exagerado, mas não passa de um amontoado de ideias pré-concebidas, ainda que por vezes chocantes. O foco do filme é mostrar que sim, a África é um local perigoso, desorganizado, corrupto, e com atitudes que fariam europeus tremerem, mas numa luta pela sobrevivência é algo necessário para acordar no dia seguinte.

Ao menos, não podemos esperar muitos dos clichês que facilmente vemos em filmes americanos e é compreensível como o filme ganhou tanta atenção nos EUA. O protagonista é longe de ser um herói, se equiparando bastante ao comportamento do que é timbrado como o vilão, Cesar, numa atuação memorável de Fortuna que consegue produzir um humanismo e senso de justiça no personagem por mais que vá cometendo mil atrocidades durante a película.

Mesmo com certo distanciamento, causado pela direção um tanto frouxa que prioriza efeitos de montagem e cenas pseudo chocantes, mas sempre com um senso de distância e um julgamento por parte de pessoas que agem por amor (como a Comandante, uma boa interpretação de Marlenne Longange e Riva); pessoas que agem por dinheiro e medo, mas se arrependem (Nora) e os que seriam os “vilões” de fato, pessoas basicamente interesseiras em seus próprios sucessos, como Cesar e Azor.

Em poucos casos, ele se afasta desta fórmula, como na cena de Riva com os pais ser bem interessante, em que um pouco do fanatismo religioso também é “denunciado”, mas sem deixar de apresentar uma reação bem cruel por parte do protagonista, e são nesses momentos que o filme ganha força.

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