Quero ser Zelig

As Aventuras de Agamenon, o Repórter (2012, BRA) de Victor Lopes 3,5/10

 

Depois de anos e anos na televisão, o Casseta & Planeta faz aqui sua melhor investida no cinema, o que obviamente não quer dizer muita coisa. O filme se utiliza do famoso personagem criado por Hubert e Marcelo Madureira (que também são os roteiristas do filme) para tentar esculpir a figura de um Zelig brasileiro, que teria participado dos principais acontecimentos mundiais e brasileiros do século XX, sempre com uma piada de cunho sexual e/ou grosseira a posta.

Algumas até funcionam, como a do Leonardo Di Caprio, e a do pato de João Gilberto, mas no máximo causam um sorrizinho amarelo que logo se transforma em irritação. A falta de cronologia ou mesmo sentido em algum dos casos nem causa estranheza, mas a brincadeira fica gasta logo e o que salva são na verdade as piadas com os próprios atores do filme, que funciona como um falso documentário.

Quando Pedro Bial. por exemplo tenta fazer uma entrevista com os confinados de Berlim Oriental, relembrando seus melhores dias, e se empolga num discurso idiota digno de sua fase BBB e acaba sendo enterrado (pela futilidade, pelo decorrer do tempo, pela própria história?), o filme tem um respiro, assim como a participação de João Barone (foto) como um soldado da segunda guerra, ou ainda a fala interrompida de Nelson Motta “pera, de quem eu estou falando mesmo?” ao comentar a explosão de documentários musicais, a maioria bem aquém do talento dos sujeitos retratados e o fato de Ruy Castro ser o biógrafo.

Mas o início do filme inclusive causa certo incômodo, justamente pela falsidade evidente das entrevistas, até porque as falas de Caetano e Fernando Henrique soam muito estranhas e uma sensação de bomba já paira no ar…

Essas pequenas brincadeiras mostram que a comédia funciona por originalidade (no caso do Bial, mais por ver que ele aceita tirar sarro de sua incompetência) e por comentários atuais. Assim, faz todo sentido que eles tenham escolhido Marcelo Adnet para interpretar o personagem quando jovem e fazer uma versão inspirada na segunda guerra mundial para seu sucesso “A Gaiola das Cabeçudas”, apesar de algumas partes um tanto bobas, ainda assim não é permitido que a letra da música fique numa linguagem chula, o que já é um alento.
Sabendo que eles já estão mais ultrapassados do que o VHS, os Cassetas tiveram que apelar para o nome da comédia do momento e bem, fiquemos feliz que o CQC é a principal atração da rival da Globo. Com Adnet, o filme sai da UTI de piadas velhas e batidas (como a presença obrigatória mas totalmente sem inspiração do Dr. Jacinto Leite Aquino Rêgo), e tenta criar uma comédia social, algo que possa realmente causar uma graça nos espectadores, de quaisquer faixa etária.

A última piada metalinguística também é engraçada brincando de certa forma com o machismo das próprias piadas do grupo. Aliás, este é realmente o filme em que eles se apresentam com menos exagero nas piadas, por mais que elas apareçam com certa frequencia na narração de Fernanda Montenegro, nos fazendo pensar o quanto ela ganhou ou nas ameaças (profissionais e pessoais?) que sofreu da Globo para aceitar um papel tão ordinário.

Ao final, a constatação de que uma piada de 5 minutos nos jornais com um acontecimento marcante da semana pode até ser engraçada, talvez, mas simplesmente jogar o protagonista no meio de eventos históricos não causa nenhuma diversão. Os efeitos de “Zelig” e “Forrest Gump” acontecem apenas como coadjuvantes de uma história e infelizmente os Cassetas se esqueceram de perceber isso. Mas ao menos é um filme assistível, o que não se pode se dizer de alguns de suas últimas empreitadas.


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Filed under Cinema, Críticas

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