Je est un autre

That’s when she knew it was over for good. The longest running war in television history. The war that hung like a shadow over the same nine years as her marriage. So why was it suddenly so hard to breathe?”

É interessante rever um filme que mexeu tanto comigo depois de um ou dois anos sem o ver e perceber o quanto aquela obsessão de quatro anos atrás faz muito mais sentido agora, conectado com outros interesses, novas experiências e maiores estudos sobre alguns temas queridos. Aqui falo sobre “I’m Not There” e mais especificamente sobre a parte protagonizada por Heath Ledger e Charlotte Gainsbourg.

Logo nas primeiras revisões no Cine Arte Icaraí (digamos da 5ª a 8ª (editado em 28/04/2012) 8ª a 11ª vez que eu vi o filme), começei a me cansar um tanto da parte mais célebre, a protagonizada por Cate Blanchett. O longa era o meu favorito já e se existia uma parte que eu acreditava ser a mais fraca, a mais enrolada era essa. E apesar deu ter lido um texto que mencionava o fato da parte com Ledger e Gainsbourg ser uma paródia, sempre achei o completo oposto e essa quase homenagem aos filmes de Godard dos anos 60 (dos quais a maioria eu não gosto) acabou se tornando uma das duas partes que mais me interessava (junto com a protagonizada por Gere).

Sempre me emocionou muito os momentos musicais. Desde a explosão sensual de “I Want You”, quanto a sobriedade e melancolia de “Idiot Wind” mostrando o rompimento do casal e finalmente, a sequência que abre o “núcleo”, uma grande ode ao lirismo de “Visions of Johanna”. O visual, os ângulos, o diálogo, os personagens sempre seguiram comigo.

Hoje revendo, aleatoriamente, enquanto escrevo, converso e janto, paro na cena em que já divorciada, em meados da década de 70 (provavelmente 1973), em Los Angeles, 10 anos depois de ter conhecido o ator Robbie Clark, a pintora francesa Claire zapeia e vê por acaso na televisão uma cena de um filme com seu ex-marido. Foi durante a filmagem dessa cena que ela o conheceu, iniciou um papo e começou o turbulento romance.

Antes é necessário abrir um parênteses. Uma das coisas que me incomodam geralmente em filmes é o fato do personagem ligar a tv e estar exatamente num canal com uma reportagem sobre a notícia específica que vai alterar a trama. Pode-se reclamar dessa “coincidência” mas incrivelmente ela é tão bem feita que nunca me incomodou, mas eu nunca soube precisar exatamente o porque.

Hoje acho que consigo interpretar melhor. A grande sacada dessa cena é que justamente ela zapeia e para por total acidente na cena. Pode-se, obviamente, supor que ela poderia ter passado por uma sequência anterior e aí ela teria que escolher entre continuar a ver o filme, ou não… mas pouco importa. Perderia o impacto e não funcionaria.

Visto hoje temos um impacto muito forte. Nesse meio tempo Heath Ledger morreu e não podemos esquecer disso ao ver essa sua melhor interpretação. Até porque como eu dizia, antes de perder o fio da meada, o mais genial dessa sequência é que ela pára por acidente. É a vida jogando em sua cara que o mundo seguiu, as coisas evoluíram, as guerras acabaram, as pessoas mudaram, o tempo passou, o sonho acabou. É um pouco o mesmo choque que eu tenho revendo essa cena, me lembrando da época em que eu revia sem parar, seja no início de 2008 no cinema, seja virando noites (como essa) no primeiro semestre de 2009. Cá estou, Niterói-Rio-Europa-Rio-Paris, com uma especialização que não imaginava, com experiências que nunca sonhava, com desilusões não desejadas, esperanças mortas, surpresas que chegaram…

“Car Je est un autre. Si le cuivre s’éveille clairon, il n’y a rien de sa faute. Cela m’est évident : j’assiste à l’éclosion de ma pensée : je la regarde, je l’écoute : je lance un coup d’archet : la symphonie fait son remuement dans les profondeurs, ou vient d’un bond sur la scène.” (RIMBAUD, Arthur, carta à Paul Demeny, 15/05/1871)

O filme é todo sobre a memória, o efeito de uma música, de uma personalidade em nossas crenças, seja de uma infância, seja na vida de um astro, seja na vida de alguém que passa a vida inteira tentando justamente mudar, ser diferente, virar outra pessoa. Essa é, sem dúvidas, a maior virtude de toda a carreira profissional de Bob Dylan, e é também o grande triunfo do filme. Em algumas partes, como na de Bale e Gere, é extremamente claro.

Nas cenas com Ledger é um tanto mais obscurso, melódico. Charlotte Gainsbourg, em especial, radiante, parece ser um alter-ego de Todd Haynes, ou melhor, um espectador, alguém que vive tão proximamente a vida de uma pessoa louca e sempre on the run como Robbie/Bob, mas que tem seu próprio rumo, seu próprio tempo. E depois de 10 anos, percebe o quanto as coisas mudaram e ao mesmo tempo estagnaram… No quanto o tempo se passou. E nisso eu me lembro do meu querido amigo, que hoje começa a ler Proust, “Em Busca do Tempo Perdido” e como eu tenho certeza que será o meu livro favorito quando começar a ler. E como eu tenho que voltar a desenvolver um texto meio interrompido, meio feito em cima da hora, em 2008, para um trabalho de faculdade sobre o filme. E como, quatro anos depois eu ainda o considero o trabalho de estudante mais interessante que eu já fiz.

Voltando ao filme, é a melhor cena do filme, em parte por conta da atuação magistral de Charlotte. Exaltando nostalgia, uma introspecção fantástica em todas as cenas, nós estamos diante de um personagem que parece viver a flor da pele, sempre ter uma visão diferente a cada pessoa, a cada dia, a cada momento de sua vida, mas ainda assim viver tudo de forma um tanto passiva. E de repente, numa noite no sofá, num programa de televisão, tudo desaba, toda a memória do mundo, toda sua vida de 10 anos (e os sonhos anteriores para os acontecimentos de um futuro do pretérito) cai em seu colo, assim como tinha acontecido um tanto antes, ao saber da notícia que a Guerra do Vietnã, tinha acabado, a “guerra que se pendurou como uma sombra nos anos de casamento”, e que serviu basicamente de tema de fundo para o longo relacionamento com Robbie.

Outras cenas da parte Godardiana dão muita atenção ao fato da memória: Quando Robbie, já divorciado, derruba a caixa de fotografias de família e passa a se lembrar da esposa e dos filhos, ou mesmo na cena mais amarga, quando os dois saem com outro casal e começam a brigar sobre as posições reacionárias dele, que acredita que homens e mulheres possuem emoções e dores diferentes, “e por isso que mulheres nunca poderão ser poetas”, ao que o amigo acusa “você mudou”, ao passo que Robbie toma essa declaração como um elogio e sinal de libertação para criar uma persona ainda mais misteriosa.

“People are always talking about freedom. Freedom to live a certain way, without being kicked around. ‘Course, the more you live a certain way, the less it feel like freedom. Me, I can change during the course of a day. I wake and I’m one person, when I go to sleep I know for certain I’m somebody else. I don’t know who I am most of the time. It’s like you got yesterday, today and tomorrow, all in the same room. There’s no telling what can happen”

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Filed under Cinema, Textos

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