Um Big Brother mortal (não são todos?)

“Jogos Vorazes” (“The Hunger Games”, 2012, EUA) de Gary Ross 7/10

Em 1969, a Suécia lançou um filme interessantíssimo, chamado “Os Gladiadores: O Jogo da Paz” de Peter Watkins, em que governos das principais potências enviavam soldados para lutar em uma guerra a ser travada em um ambiente controlado, evitando assim um gasto militar excessivo e a morte de civis. Era uma solução “inteligente e diplomática”. A mesma ideia parece ser o motor atrás desse “Jogos Ferozes”, que porém trabalha com um mundo futurista.

O mundo é aquela concepção um tanto batida: Uma capital central e 12 distritos em torno, em um estilo Brasília, um servindo para pesca, outro para minas, etc. Cada distrito envia dois adolescentes de sexos diferentes para se enfrentarem numa batalha altamente midiática, em que patrocinadores podem ajudar os competidores e cada passo dos participantes antes e durante a competição é observado com a máxima atenção. Somente um dos 24 participantes sairá vivo.

O início do filme é bem interessante, marcando bem Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence), uma menina corajosa e com uma mira incrível que ainda cuida da irmã mais nova, além de ter um pequeno romancezinho com Gale (Liam Hemsworth). Quando sua irmã mais nova é a sorteada para participar dos tais “Hunger Games”, ela se voluntaria para representar o Distrito 12 junto de Peeta Mellark (Josh Hutcherson), um jovem tímido que parece não ter a mínima chance de sobrevivência.

O início do filme é bem promissor. Uma câmera que não abandona sua personagem, no melhor estilo filme comercial inteligente dos últimos anos, mas que consegue um efeito bem interessante de participação do espectador, algo que retornará nas tomadas televisivas. A trilha sonora também é outro destaque técnico, criando uma tensão na medida certa, sem se tornar invasiva demais.

Depois da parte inicial somos introduzidos a alguns outros participantes, uns que parecem ser “do bem” e os outros, mais retratados, “do mal”, em uma caracterização total de adolescentes ricos e dominadores, que justamente são dos Distritos 1 e 2, nos quais aparentemente (o filme não explica muito bem) existe um maior treinamento. Uma sacada boa é uma pseudoaproximação que faz com os funcionários que trabalham junto aos protagonistas. Seja à chaperone de Elizabeth Banks, o treinador (Woody Harrelson) e o estilista (Lenny Kravitz), assim como também somos apresentados aos vários dramas que surgem ao comandar um reality show como esse. O Boninho do filme é interpretado pelo saudoso Wes Bentley, de “Beleza Americana”.

Apesar de ser um filme aparentemente voltado para o público adolescente (assim foi sua publicidade, ao menos) é uma interessante crítica a midiatização da realidade, essa que cria fenômenos tipo Big Brother ao redor do mundo, mas sem cair num didatismo extremo. O roteiro só peca pela falta de previsibilidade quanto ao final – alguém tinha alguma dúvida de que um dos dois protagonistas seria o vencedor? – e também pela forma que acabaria criando os resultados. Matar os vilões tudo bem, mas os outros competidores “bonzinhos” tinham que morrer de outra forma que não fosse culpa do casal do Distrito 12 – e se for por um vilão malvado melhor ainda.

Os desafios psicológicos que a trama exige consegue criar alguns momentos interessantes, apesar das restrições acima mencionadas. O filme até poderia ser mais longo, analisando melhor os momentos de solidão e medo dos personagens na floresta. Essa parte é certamente a melhor do filme, assim como uma bela conversa entre os protagonistas na véspera do jogo.

Apesar de ficar em segundo plano também é muito interessante a ideia da importância de uma cobertura midiática como forma de sustentação de um regime, criando um clímax mais interessante do que se poderia prever. SPOILER aqui (mas só nesse parágrafo, talvez), mas mais interessante ainda do que a ideia de “quebrar com o jogo”, causando a demissão de Bentley, é como toda a ideologia que parece renascer e leva ao planejado suicídio é posta em fim, com a decisão de revogar. Todos voltam para seus papeis e mais uma vez, o governo consegue conter algum tipo de revolta.

Hutcherson cria uma personificação perfeita de um menino um tanto medroso mas ainda assim corajoso e estratégico quando necessário, desbancando a moça determinada e valente de Jennifer Lawrence, que em algumas cenas está bem apagada. Bentley é outro destaque, criando um personagem interessante que poderia cair na caricatura em qualquer outra mão, criando um verdadeiro carisma e uma certa tensão em torno de seu personagem, o oposto do que faz Harrelson, que segue completamente no piloto automático.

A surpresa positiva fica por conta de Lenny Kravitz que consegue em uma atuação bem naturalística (quase uma não-interpretação bressoniana) criar uma figura de celebridade um tanto “fora do mundo” da protagonista que justamente por isso consegue lhe dar uma confiança extrema e são as cenas com ele que ajudam bastante a primeira parte a seguir em frente com tanta força. Uma atuação bem contida que funciona perfeitamente para o papel.

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Filed under Cinema, Críticas

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