Garbo, sempre Garbo

“A Carne e o Diabo” (“Flesh and the Devil”, 1926, EUA) de Clarence Brown 7,5/10

 

Se eu tenho um buraco na minha breve história de cinéfilo aqui em Paris é quando sento em uma das salas da Cinémathèque Française para assistir a um filme silencioso. Aqui eles rejeitam qualquer trilha sonora, a não ser que seja interpretada ao vivo. Todas exibições são feitas sem som, o que pode ocasionar um desconforto tremendo para quem como eu não consegue ficar quieto na poltrona, e ainda gosto de anotar durante o filme, além de decretar a impossibilidade de alguém comer alguma coisa (o que já é super mal visto, de qualquer maneira) e também pode, dependendo do filme e da pessoa, causar graça ou raiva quando aquele inevitável velhinho ronca alto durante o filme.

A minha questão com os filmes silenciosos na Cinémathèque – e só lá –, é que inevitavelmente em 90% dos casos eu acabo cochilando em alguma parte do filme, por mais que tenha entrado animado ou que eu esteja gostando do filme. Foi assim com “A Carne e o Diabo”, no qual eu estava meio fechando o olho, abrindo as vezes, e de repente quase dei um pulo. A razão? Era o primeiro plano de Greta Garbo no filme. Sua presença ilumina de uma maneira tão incrível a tela, que é fácil descobrir como ela virou uma estrela de primeira calibre depois desse filme.

Ela se põe no meio de um triângulo amoroso que também envolve dois amigos de longa data, interpretados por John Gilbert e Lars Hanson, que desde garotos fizeram uma “cerimônia de compromisso” na “Ilha da Amizade”, mas acabam se tornando rivais graça aos poderes de sedução de Greta, que tem como principal rival um pastor (George Fawcett), que percebe tudo e tenta em seus sermões instaurar a paz em sua cidade.

Garbo está magnífica no filme. Seus olhares, seu timing são perfeitos, fazendo uma vilã memorável, mas ainda assim muito humana, que segue seus impulsos amorosos, sem pensar nos outros e nestas consequências. O que poderia ter se transformado em um papel apagado com outra atriz, vira uma personagem decidida e forte graças ao poder que a sueca imprime na tela.

Gilbert imprime a medida certa de inocência como o homem que sem saber rouba a mulher do amigo e fica aterrorizado de perder a companhia desse em sua vida. Já Hanson exagera e exagera até não poder mais, mas nada que chega a comprometer. A relação entre os dois fica bem no meio entre a camaradagem e o amor mais profundo, o que não era tão incomum na época (“Asas”, por exemplo); mas levado a um extremo que talvez não tenha paralelo em Hollywood.

Uma cena chave com os três perto do final é o perfeito clímax, em que todas as emoções são levadas ao extremo por seus intérpretes. A sequência que fecha todos os nós é incrível e faz um uso perfeito do ambiente, que simula um pequeno reino na região da Escandinávia. O ápice de uma direção esperta de Brown, que apesar de uma cadeira um tanto convidativa na Cinémathèque conseguiu evitar que eu realmente dormisse nas quase duas horas de filme. A lamentar apenas, a cena final que me pareceu muito mais uma imposição um tanto desnecessária da produção para criar um pós-final feliz.

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