O Deus Marilyn

“Os Homens Preferem as Loiras” (“Gentlemen Prefer Blondes”, 1953, EUA) de Howard Hawks 9/10

 

Revi pela primeira vez o filme, desta vez no cinema. Primeiro filme que eu vi com Monroe depois de “My Week With Marilyn” – e taí, devia fazer um texto sobre o filme, quem sabe essa semana. Mas é incrível notar sua peformance desta vez na tela grande e não deixar de admirar um brilho que salta, um efeito de naturalidade e ainda assim puro artificialismo que talvez junto de Greta Garbo melhor definiam os atributos essenciais às grandes vedetes do cinema americano.

Jane Russell rouba o show em suas cenas, inclusive numa deliciosa imitação de Marilyn no final. A morena pode ter os melhores diálogos, as cenas mais interessantes, mas quando a loira entra em cena… é um estrondo. Monroe interpreta a doce, meio boba, meio cara de botox, meio inteligente Lorelei de uma maneira tão impressionante, mas é um tanto difícil de desassociar a personagem da atriz – o que Marilyn tentou fazer a vida toda, culminando em sua morte.

Essa associação muito profunda mostra o quanto Marilyn tinha um controle incrível sobre sua persona na tela. Ao final, ela lança para o seu futuro sogro “Eu posso ser inteligente quando é importante. Mas os homens não gostam disso”. Segundo Andrew Brown do “The Telegraph”, ela que teria sugerido essa fala e isso comprova o quão inteligente ela era como atriz e o quanto ela incorporou a personagem, de uma maneira a dar simpatia e afeição, o que outras atrizes talvez nem chegariam perto.

A direção de Hawks é certeira. Sem muitos invencionismos e uma certa preguiça em alguns números musicais, mas ele consegue criar cenas memoráveis como a do tribunal, do jantar e especialmente a super esperada, em que Marilyn canta “Diamonds are a girl’s best friend”.

O interessante de rever um filme antigo em um cinema é ver o quanto existe de relação entre o público e o filme. Nesta cena, a mais famosa, uma espectadora começou a cantar junto de Marilyn. Passei o mesmo revendo “Cantando na Chuva”, e quando o som do filme desapareceu por falha técnica logo antes da cena título, os espectadores se incubiram de substituir o som e vários começaram a cantar. Um tanto da magia do cinema mostrando sua força.

Voltando ao filme, o roteiro é direto ao ponto e a mensagem de tão clara abre caminho para enormes entrelinhas. No livro “The Celluloid Closet” se discute muito o tom homoerótico da dança que os atletas olímpicos fazem de sunga, “se importando mais com a beleza plástica do que com Jane Russell”. Achei meio exagerado, ainda que a homossexualidade nos filmes de Hawks seja um assunto tão mas tão óbvio que me espanta ainda a baixa quantidade de estudos.

A fotografia delirante contribui muito ao clima do filme, com a beleza das duas mulheres sendo evidenciada a cada cena, a cada vestido, uma luz direcionada as duas de forma belíssima, um grande uso da iluminação em um filme da Hollywood clássica. Tudo em direção a Jane Russell, com sua pose incrível e Monroe em uma das melhores atuações da história do cinema. De sair babando, tremendo e delicidado do cinema

E voltando aos comentários extra-filme, inegável perceber o nacionalismo exarcebado americano nas cenas em Paris, e ao menos para mim que convivo com uma comunidade brasileira cada vez mais forte, um tanto inegável de comparar com a atitude de alguns compatriotas aqui na França, ainda que os americanos talvez continuem sendo especialistas nisso.

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Filed under Cinema, Críticas

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