Viver Cansa

“Trabalhar Cansa” (2011, BRA) de Marco Dutra, Juliana Rojas 8,5/10

 

Após alguns filmes argentinos, muitos espanhós, um chileno e um uruguaio, finalmente estreia nesses meus oito meses de Paris um filme em língua portuguesa. E felizmente, é brasileiro. E dos melhores, tendo sido exibido na mostra “Un Certain Regard” em Cannes no ano passado. Seguindo uma bem-sucedida carriera nos curtas-metragens, este é o primeiro longa da dupla paulista.

O filme brinca com o cinema de gênero, se iniciando como um leve drama social com toques de comédia que acaba flertando com o cinema fantástico na medida certa. Desde a cena inicial, planos abertos envolvendo os personagens com o ambiente já deixam clara a mensagem do filme e abrem caminho para uma esperta crônica social.

A sinopse gira em torno de Helena (Helena Albergaria), uma dona de casa que decide abrir um pequeno mercado para melhorar de vida. Ela compra um ponto e com a ajuda do marido recém- desempregado Otávio (Marat Descartes) tenta levar para a frente, enquanto ele busca um outro trabalho. Para cuidar da filha e da casa, ela contrata Paula (Naloana Lima). Porém, uma estranha infilitração no lugar parece por tudo em outra perspectiva…

Os diretores conseguem caminhar perfeitamente entre os diferentes núcleos, extraindo o máximo de humanidade nos seus personagens em todos os aspectos. Helena a princípio se apresenta como uma mulher doce, simpática e um tanto inocente, apesar de ter já em si alguns tiques da classe média brasileira: Se recusa a assinar carteira da empregada, e paga um salário abaixo do mínimo no primeiro mês, “de experência”. Não é por maldade, simples tática do quem pode, ganha mais e os outros vêm depois.

A transformação feita por Albergaria é incrivelmente sútil e perfeita. Aos poucos, com os problemas no dia-a-dia do mercado, ela vai se transformando numa chefe um tanto neurótica, sempre suspeitando de seus funcionários, e acaba desviando também sua raiva para a empregada doméstica. Frases como “não acho mais nada aqui em casa”, tão comuns nos lares brasileiros dão um tom de veracidade e incrivel apuro no roteiro, com diálogos que sempre soam naturais e inspirados.

Otávio, por outro lado tem que enfrentar uma competição cada vez mais difícil, tanto pelas outras pessoas que buscam emprego, por vezes mais jovens e mais qualificadas, quanto pelos métodos cada vez mais estranhos e “dinâmicos” que as empresas utilizam para seleção de funcionários. Se não fosse o suficiente, ainda tem que enfrentar a crise de ser sustentado pela esposa. Descartes marca o ponto de forma incrível, com uma frustração e cansaço cada vez mais pesando enquanto o tempo passa e as opções desaparecem.

Um dos temas mais interessantes tocados por Dutra e Rojas é a tênue relação entre relações profissionais e pessoais, algo tão inerente a cultura brasileira. Seja numa entrevista de emprego em que Otávio exige a presença do funcionário amigo dele, passando pela estranha “amizade” entre Helena e a corretora até a tortuosa relação entre Helena e os funcionários, tentando ser simpática e se mostrando amiga ao mesmo tempo em que suas obrigações profissionais e neuroses pessoais a põem contra eles quando necessário.

Porém, a melhor destas ligações estudada pelos cineastas é a entre Helena e Paula. Numa situação de quase família, morando na casa e mais próxima à filha, ela ainda permanece quase uma sub-pessoa, sem espaço próprio e sujeita a aprovações num pequeno descanso pessoal da patroa e da mãe dela (Gilda Nomacce) em uma visita familiar, passando a ser mais do que uma empregada, mas quase que uma ameaça a estabilidade familiar, seja em um ciúme diante do marido e da filha quanto ao posto de “chefe da casa”, em um claro resquício da escravatura, mas que ainda assim participa dos rituais familiares, como assistir ao Carnaval na TV.

Esta visão profunda e afiada em vários modos de trabalho ganha ainda mais força pelo modo como os diretores incluem elementos fantásticos na história para que Helena e os espectadores possam ter uma visão um tanto mais apurada sobre o que estava acontecendo em seu dia-a-dia e é um tanto interessante acompanhar como a personagem lida com a situação.

Durante o filme eu me perguntava se no cinema contemporâneo consegue-se fugir de uma associação ao trabalho de Apichatpong Weerasethakul. A sessão em que eu estava foi sucedida de um debate com a co-diretora Rojas. Além de esclarecer alguns detalhes dos bastidores e da criação do roteiro, ela revelou que apesar do que eu tinha notado no filme, não existe nenhuma inspiração direta por Weerasethakul, e sim um pouco de M. Night Shyamalan.

Mas isso não impede de que vários aspectos do longa remetam a obras do tailandês. Desde detalhes pequenos como figuras representando um boi no açougue que remete um pouco a um imaginário de “Mal dos Trópicos”, ao uso de detalhes fantásticos para melhor entendimento de uma rotina, ou seja no uso extremo de som para efeitos dramáticos quanto à distenção de planos e uma quase frustração de expectativas.

Mesmo assim, o filme nunca perde sua originalidade. Nada atua como cópia carbono, mas sim meras inspirações para uma visão bem particular sobre seus personagens e o mundo aonde vivem. Os diretores imprimem um espírito próprio e quando o clímax do filme atinge, a sensação é de quase alívio, o que é um tanto neutralizado pela percepção de que se mostra realmente algo muito bizarro e inesperado, os sintomas estão ali independentemente de qualquer ação fantástica.

E quando finalmente o último plano chega, é de uma ação quase mais extraordinária e estrangeira ao núcleo da sociedade do que a descoberta de poucos minutos atrás. Impossível distinguir mais as atitudes de pessoas ditas sérias e profissionais com a de criaturas presentes em lendas e histórias de faz-de-conta. Uma mistura gigante que pinta um Brasil bem particular, atento mas também perdido em suas origens.

 

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Filed under Cinema, Críticas

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