A rotina em que habito

Acabei de ver um filme brasileiro excepcional, “Trabalhar Cansa”. Palavras sobre ele virão, mas já são 4 da manhã aqui, amanhã acordo as 7h e se eu começasse a falar dele não pararia nunca. É um filme que se abre em tantas vertentes, seja formais ou temáticas que é um prazer discutir ele, assim como foi incrível ter ido justamente na sessão com debate depois com a co-realizadora Juliana Rojas e depois ter saído e ainda poder discutir mais um pouco o filme (apesar da minha timidez de tocar em pontos que acho incríveis no filme).

É engraçado que para não fugir do desafio auto-imposto de um texto por dia eu tenha escolhido por acaso um filme que vi tem uns 4 dias e lida muito bem com a transição entre uma observação do dia-a-dia de personagens pacatos confrontados com a chegada de um ambiente fantástico. OK que existem suas diferenças (o filme britânico é sobre hitmans e o brasileiro sobre vários personagens sociais típicamente brasileiros), mas ambos fazem algo que tem sido tão difícil de realizar no cinema contemporâneo que é criar bem a transição entre estas duas esferas.

É por isso que eu não consigo deixar de ver, mesmo que segundo Juliana não tenha sido intencional, respingos de Apichatpong Weerasethakul, que viria a dar uma vida nova ao cinema independente dos anos 00 e também neste mesmo princípio eu sou tão crítico ao novo filme do Almodovar, “A Pele que Habito” que gosto com moderações, mas acho que acaba derrapando muito ao tentar explicar detalhadamente tu-do. Bom, sem mais delongas, o texto do dia (e amanhã vou viajar, mas prometo tentar escrever algo on the road!)

“Kill List” (“Kill List”, 2011, RUN) de Ben Wheatley 7,5/10

“Kill List” é um típico filme que deve ser difícil de chegar aos cinemas brasileiros. Chamado em Portugal de “Uma Lista a Abater” começa como um drama doméstico de um ex-matador em série, Jay (Neil Maskell) e sua esposa Shel (MyAnna Buring) que também serve como agenciadora. Ela reclama que ele não trabalha mais, e precisa voltar a por a mão a massa. Surge então uma oportunidade quando o antigo parceiro Sam (Harry Simpson) aparece em cena.

A primeira metade lembra por vezes comédias de humor negro ao relatar as brigas e vindas do casal em um cotidiano familiar que também inclui um filho, além de ter em Sam um personagem que cai muito no coadjuvante um tanto cômico. Quando o trabalho aparece, porém, tudo muda de figura e o filme entra numa subtrama bizarríssima.

É aí (e atenção, eu falo do fim aqui, cuidado!) que o filme perde completamente a linha que traçava para se transformar em algo quase original. Acompanhamos bem depois de uma hora a vida pacata de família-serviço de Jay e Sam que funcionou bem por anos, mas de repente eles se vêem no meio de uma espécie de ritual satânico que nunca se explica e obviamente por isso fica muito mais assustador. Não existe um vilão que vai contar todo o segredo antes de morrer.

O filme cria muito bem essa tensão em crescendo até um clímax meio horripilante. A fotografia sempre bem perto dos atores explora muito bem essas sensações a flor da pele e nos aproxima dos personagens a medida que eles vão tentando se apropriar do terreno em volta. Uma grande surpresa do ano passado, que deixa os espectadores atordoados ao fim e faz disso sua maior qualidade.

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Filed under Cinema, Críticas

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