Hal Ashby, o grande

“Ensina-me a Viver” (“Harold and Maude”, 1971, EUA) de Hal Ashby 10/10

Revendo pela terceira ou quarta vez “Harold and Maude”, desta vez no cinema, não me escapa a impressão de ter uma esquematização um tanto fraca, composta de várias pequenas esquetes em que vemos uma visão bastante niilista de Harold (Bud Cort), confrontada por sua mãe socialite (Vivian Pickes) e que finalmente encontra uma “cura” na presença livre, leve e solta de Maude (Ruth Gordon) compartilhadas por uma presença quase repetitiva de Cat Stevens na trilha sonora.

Não é a toa que os melhores momentos do filme são justamente quebras deste paradigma. Seja pelas cenas mais “humanas” da mãe, postas na tela por uma atuação primorosa, ou por quando Harold por vez se livra daquela persona e passa a curtir mais a vida, mesmo que do seu jeito, na segunda metade do filme. A grande cena, porém, ainda pertence a Ruth: Quando Maude responde pelo que ela luta, e se lembra com uma melancolia tremenda de sua adolescência é um ponto em que se quebra toda a visão pré-concebida de Maude e vemos uma personagem real com motivações e uma história impecáveis.

Quando digo em esquetes, acabo fazendo também um elogio a montagem: O filme é direto ao ponto e é precisamente pro isso que funciona tão bem. Não importa muito como Harold elabora todas suas mortes ou as loucuras de Maude. Ashby nunca tenta criar um tom realista à trama, mas conseguindo desenvolver tão bem a relação entre os personagens, e o progresso emocional que é alcançado por ambos, se cria uma sintonia com a plateia em um alto nível.

O tom cômico ajuda também. O diálogo, sempre entre o mordaz e o afetuoso, é incrível, comprovando a facilidade com que a história foi transportada tão facilmente para o teatro em vários países. A resposta de Maude para “Eu te amo” é uma das coisas mais incríveis já ditas no cinema: “Oh, Harold, isto é incrível. Agora vá e ame um pouco mais”). Ashby abusa de planos lindos, seja quando seus personagens são engolidos pelo ambiente (a cena das flores, do cemitério, pôr-do-sol), ou em tomadas internas, com belas composições feitas especialmente nos suicídios de Harold, um melhor e mais intenso que o outro.

A trilha-sonora de Cat Stevens, que hoje é o aspecto mais celebrado do filme, tem um papel interessante na criação da personalidade de Harold, e é importante notar em como nos primeiros encontros com Maude, ela desaparece, e quando o filme progride ela começa a participar das cenas em que os dois estão juntos. Notar o culto em torno do filme, e em como ele provavelmente funciona bem melhor anos após o lançamento me dá esperança que o mesmo acontecerá com “Inquietos” de Gus Van Sant, uma brilhante obra-prima inspirada neste clássico de Ashby, mas com uma personalidade toda própria.

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Filed under Cinema, Críticas

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