“De Olhos Bem Fechados” (1999) de Stanley Kubrick

“De Olhos Bem Fechados” (“Eyes Wide Shut”, 1999, Reino Unido, EUA) de Stanley Kubrick 10/10

 

“Eyes Wide Shut”, ou “Olhos escancaradamente fechados”. Aquilo que está sempre a nossa frente, mas não conseguimos enxergar. A diferença entre sonho e realidade, cinema e realidade, encenação e um papel no mundo. Os papeis que devemos interpretar e se não gostamos a única saída é tentar enxergar a vida dos outros. No cinema?

Talvez seja um dos filmes mais metalingüísticos da história, apesar de nunca falar literalmente sobre o cinema. Engraçado que aqui ocorre certamente o maior número de erros “técnicos”: Falhas constantes na continuidade, pessoas da equipe que aparecem em cena. Como o filme foi lançado depois da morte do cineasta, é senso comum acreditar que essa é a razão. Apesar dele ter lançado uma versão “final” para a Warner, Kubrick era conhecido por alterar seus filmes até o último instante.

Mas eu prefiro ter uma visão mais romântica. Pode até ser que existam erros, mas intencionalmente ou não, isso tudo acaba auxiliando na análise do filme: A todo momento nos lembramos de ser uma encenação. A própria escolha do elenco indica a isso: Nos principais papeis coadjuvantes, um músico de jazz (e diretor, Todd Field) interpreta o pianista enquanto um cineasta faz o personagem que comanda a festa no início ao filme (Sydney Pollock num papel que foi oferecido a Woody Allen). Como protagonistas, o maior casal de Hollywood nos anos 90, Nicole Kidman e Tom Cruise, provavelmente também encenando um “romance” para a mídia, como era altamente especulado.

Aqui abro um parênteses para uma “curiosidade” que pode ter sido uma piada interna genial de Kubrick ou só ficou divertido: Existem várias brincadeiras que podem ser referências a uma homossexualidade de Tom Cruise, como sempre é levantado pelo público e pelos jornalistas, algumas sendo: Ele é parado por um grupo de garotos na rua que começa a xingar ele de gay; ele vai buscar uma máscara para uma festa na loja “Rainbow coats”; o atendente de hotel que flerta com ele; a ideia da máscara (incluindo aí o último plano em que ela aparece), além de todas suas tentativas de sexo com mulheres darem erradas.

Mas isso não importa muito. Tudo acaba entrando num campo muito maior que o filme trabalha que é o uso de papeis no cotidiano e de máscaras. Qual a diferença de usar máscaras num ritual que mistura orgias e religião, sendo que todos os participantes parecem se conhecer e o uso de máscaras sociais? Como suportar as convenções sociais, em que não se pode apresentar seu verdadeiro rosto? Precisamos de máscaras para realmente nos livrarmos de amarras?

Para trabalhar com tudo isso, o visual tinha que trabalhar tanto com o clima onírico assim como um ambiente bem cinematográfico, artificial. Não é a toa que o filme lembra muito o clima de “O Iluminado” em suas festas. Algo não pertence a aquele ambiente. Para completar a metalinguagem existem referências a todos os filmes anteriores de Kubrick em algum momento do filme.

A fotografia é um espetáculo a parte. Para criar o ambiente certo, Kubrick e seu fotógrafo Larry Smith testaram dezenas de negativos, até encontrar um que nem era mais fabricado pela Kodak, que resolveu produzi-lo sob encomenda. Assim, o filme consegue um estilo meio anos 70, com uma Nova York de estúdio que parece ao mesmo tempo real e personagem de um sonho ou pesadelo. Alguns zooms e movimentos de câmera nas cenas externas são sensacionais. As cores são bem distintas em alguns momentos, assimilando os personagens que estão em tela.

Logo no início, a câmera parece estar dançando uma valsa, acompanhando os personagens. Essa relação ditada pela câmera continua pelo filme inteiro, auxiliada por uma música que parece dirigir a câmera, servindo de nosso olhar. Essa conexão visual e sonora, alcançada por Kubrick somente em “2001, uma odisséia no espaço” (quase também em “Barry Lyndon” e “O Iluminado” mas fica no quase) nos representa, tentando encontrar um papelzinho ali em toda aquela encenação. Nos aproximamos a medida que suas emoções vão sendo liberadas, seus passados sendo revelados. Kidman e Cruise nunca estiveram mais a vontade em um filme.

Ele, em seu ano de glória no cinema (foi indicado – e merecia ganhar – o Oscar por “Magnólia” naquele ano), nunca pareceu tão mais lindo e confiante como o médico Bill Hartford, que segue o filme inteiro parecendo seguro de si, apesar de todas as turbulências de seu personagem – encontrando refúgio praticamente só nas cenas de táxi. Já ela, nunca esteve tão mais frágil e sensual. Sua dança ao som de “Baby, I did a bad thing” é um dos pontos altos do filme.

O filme segue em um caminho de descoberta constante, até a grande cena, a tão comentada e mal interpretada cena do ritual. Quase tudo que falam dela não existe. Para mim foi um dos maiores transes que experimentei numa sala de cinema. É uma coisa que assola o personagem de Cruise de tal maneira que mesmo usando máscara, aquele ali não poderia ser um dublê – seus olhos conseguem ditar toda a cena.

A segunda parte tenta lidar com as implicações da primeira. Aparar as arestas, consertar os problemas, descobrir as conseqüências. Tudo pode ter sido um sonho, como tudo que vemos foi só um filme. Mas nem tudo é tão simplista. Nem tudo pode ser esquecido. Os acontecimentos podem ter sido reais, mesmo que talvez não tenham passado de um sonho ou de ideias. Se existe reação, ela já é suficiente para mudar o curso tanto dos personagens quanto dos espectadores.

O filme ainda ganha em riqueza com esse mundo de sonhos proposto por Kubrick. O estilo cidade cenográfica de Nova York só ajuda para o clima onírico do filme, e ainda temos várias brincadeiras no filme, como o jornal que tá numa das fotos acima. Depois de Cruise passar por vários perrengues a manchete do jornal é “Sorte por estar vivo”. Triste lembrar ao final do filme que não temos mais este grande cineasta – super contemporâneo – para nos dar outras obras-primas.

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