Veneza: “Century of Birthing” de Lav Diaz

Century of Birthing (Siglo no pagluluwal, Filipinas) de Lav Diaz 9/10

Os filmes de Lav Diaz são sempre longos, serenos. Demoram para construir as personagens, gastamos tempo vendo seu dia-a-dia, suas rotinas, suas frustrações e seus sonhos até talvez capturar alguma mudança de espírito ou de atitude. Quando ela acontece mesmo assim existe uma ruptura grande. Não acontece de repente, conseguimos distinguir claramente onde aconteceu, só que não sabemos mais porque. É relativo, faz parte daquela personagem, daquele ambiente.

As 6 horas de material são dividas em três partes: Um cineasta ao estilo de Diaz está montando seu filme e vive em conflitos com a qualidade do material, a necessidade de filmar mais e as pressões de festivais que o querem exibir. Enquanto isso, conversa com amigos e tenta encontrar um sentindo naquilo tudo e mais importante, uma maneira de ir em frente. Enquanto isso, vemos cenas do filme dentro do filme, sobre uma ex-freira que decide sair do convento para conhecer a dor do mundo e assim se aproximar mais dos fiéis e começa uma relação com um ex-presidiário. A terceira parte é sobre um culto religioso que vive isolado e cujo líder é uma espécie de Inri Cristo.

É neste “núcleo” que o filme se inicia, em um longo plano mostrando o processo de iniciação de um novo membro. Ao longo de cerca de 10 minutos, é uma cena forte, especialmente quando começa uma música ao estilo das inricretes, sobre o louvor a Deus e o processo de salvação. Aonde se encontra os limites entre loucura e religião, viver sua vida a partir de um princípio básico e não-mutável? É isso que vai questionar um fotógrafo que chega na região.

Lav Diaz não poupa o cinema também. Neste mesmo festival, Amir Naderi questionou a cinefilia como uma droga, algo que lhe atinge em dores físicas, que drena o corpo. Diaz parte do mesmo princípio para questionar a sanidade das artes. O fotógrafo tenta fazer com que as participantes do culto percebam a loucura em que se envolvem, mas para isso também tenta usar de modo sujo. E o fazer o filme, com todo stress, perda de dinheiro, movimentação de pessoas, não seria uma loucura?

Talvez por ser o meu primeiro contato com o Lav Diaz a experiência foi muito forte. Os planos “mortos” servem para entrarmos na cena e todo este estilo se transforma muito válido. No final, como Naderi nos tinha avisado até existe uma dor física no assistir o filme, especialmente no plano final, mais longo do filme. Mas talvez seja válido para entrarmos naquele mundo. Na verdade chamá-los de planos mortos é um exagero, pois ambos tem muita mise en-scène e uma movimentação muito apurada. Cada plano/cena/sequência funciona como uma célula no sistema nervoso do filme.

Ele consegue transitar por várias histórias muito bem, com calma e sutileza passando o foco de uma personagem para a outra. Todos os atores estão excepcionais, encarando com uma naturalidade impressionante seus diálogos e ações. A música-tema do filme cantada pelos “inricretes” (é incrível aliás a semelhança física com o nosso Inri do Pai Tibúrio), está na minha cabeça desde a sexta-feira, dia da sessão. A fotografia em preto-e-branco é linda, mesmo sendo em digital. Um filme que nos questiona a todos momentos e em vários sentidos e parece cada vez mais fundamental no cinema atual.

3 Comments

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3 responses to “Veneza: “Century of Birthing” de Lav Diaz

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  2. david libeskind sirota

    este filme do Lav Diaz é até curto … ele já fez filmes de 8h (Melancolia ) e 11h ( A Evolução da Familia Filipina ) … é sempre um prazer assistir o cinema de Lav Diaz !!

    • Mateus Nagime

      hahaha passa rapidinho mesmo! Você já viu “Satantango” do Bela Tarr? tem 7h30! Vi esse mês, mas não curti tanto quanto o Lav Diaz! Esse de 11h passou no Rio em 2010, foi uma pena eu ter perdido. É um filme obrigatorio para se ver no cinema!

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