Ainda Veneza: Whit Stillman e Jafar Pahani

Tinha um post preparado ontem no computador, mas esqueci de publicar antes de sair do albergue para a cerimônia de encerramento e festa de despedida. Foi meio triste esse final do Festival de Veneza, como todo festival é. No penúltimo dia você não agüenta mais, quer largar tudo, mas no último fica aquela sensação de quero mais. Ontem estava muito vazio, clima de já acabou e um saber que será impossível ter tanto filme assim a partir de agora. Apesar de ter daqui a 2 semanas o Festival de Cinema Mudo de Pordenone, ao qual vou participar, mas com uma curadoria 180º distante da de Veneza.

Assim, foi ótima escolha para filme de encerramento a nova comédia dramática de Stillman, lançada 13 anos depois de seu último longa.Um filme pra cima, com diálogos inteligentes e um ritmo musical. Agora é chegar em Paris,  abrir logo uma conta no banco e fazer as carteirinhas de cinema (UGC+MK2 e Cinemateca) pra não sair do cinema mais.

Não deu pra fazer texto sobre o novo do Lav Diaz, fica para quando chegar em casa, junto com o ranking final. É muito completo, muito amplo, muito longo, muito tudo. Agora, os penúltimos textos do Festival, os filmes vistos ontem:

 

“Damsels in Distress” (EUA) de Whit Stillman (7)

Um filme quase perfeito para fechar o Festival, com um ar alegre, musical, tranquilo, mas muito provocativo, com seu olhar diante de Lily (Analeigh Tipton), uma garota que começa a confrontar as suas mais novas amigas, um grupo liderado por Violet (Greta Gerwig), sobre como agir no campus, seja com relação a outras garotas, outros grupos e especialmente em relação com os homens.

Apesar dos diálogos pesados e verborrágicos, ao estilo “Dawson’s Creek”, sobre os problemas de universidade e relações amorosas, o filme transita tranquilamente, de maneira animada, ao melhor estilo musical hollywoodiano, um gênero que o filme emula. A química entre os atores funciona perfeitamente, quase como num grande balé.

Tipton está fantástica como uma garota tímida mas que tem muito charme e diz o que pensa, e vai mudando de opinião sobre seus amigos e namorados a cada hora. Gerwig como uma personagem que passa por duas mudanças drásticas de comportamento durante o filme entrega uma performance igualmente afiada. E inda nas atuações é interessante ver o quanto Brody cresceu: Ele além de não parecer aquele jovem de “O.C.”, tem uma atuação também muito mais centrada e eficiente num papel-chave.

Assistir a um filme de Stillman é um prazer, tanto intelectual quanto sensorial. Os ritmos dos atores parecem altamente coreografados e seus diálogos por mais incomuns que possam ser soam naturais. O filme, como o próprio cineasta disse na coletiva não tenta capturar um estilo de vida dos universitários, e claro que isso estraga um pouco – é todo mundo velho para o papel, e agem como adultos. A única razão de ficar preso a um ambiente universitário é para ter liberdade, as relações fluírem, a história ter seu próprio passo sem os compromissos que estragariam cada uma das cenas.

A trilha sonora inspirada nos musicais e em obras do início do século XX ajuda nesse estilo meio Woody Allen, perdido entre o cinema europeu e americano, com uma fotografia primorosa e ambientes descolados. As discussões tratadas são interessantíssimas e Stillman evita sempre fugir do clichê, tentando sempre novas discussões e novas reminiscências para nunca “enterrar um assunto”. É um daqueles filmes que poderia se continuar vendo por outras três horas com prazer, apesar do ambiente de fantasia acabar atrapalhando um pouco a apreciação total e principalmente a memória do filme.

 

“This is not a film” (“In film nist”, EUA) de Jafar Pahani, Mojtaba Mirtahmasb (7)

O director Jafar Pahani espera notícias sobre a revisão de seu julgamento em março de 2011 mas não pode sair de casa. Enquanto isso sua advogada já lhe garante que provavelmente sua pena vai diminuir mas ainda terá que cumprir anos na cadeia. Seu último projeto foi negado pelo Governo e ele também não pode escrever nem dirigir filmes. Faz tudo agora na companhia de uma câmera que monitora suas indas e vindas pela casa, auxiliado pelo filho. Numa tarde, chama um amigo para filmar uma leitura/interpretação de seu roteiro.

O que seria simples ganha contornos mais dramáticos pelo ambiente. Pahani começa a ficar deprimido por ser privado de filmar o roteiro e mostra exemplos em seus trabalhos de como um ator dá vida a personagem de maneira que não é prevista e como a direção de arte e outros campos cinematográficos contribuem para a proposta do filme. Isso o deixa cada vez mais triste e em dúvidas sobre a validade de continuar com o projeto, enquanto o amigo o incentiva a registrar todos os momentos.

A medida que o dia vai passando, os barulhos do lado de fora começam a esquentar. Enquanto Pahani não sabe o que fazer com tudo isso, as pessoas lá fora parecem saber melhor e uma crise começa. Barulhos, explosões atingem Teerã, na esteira da primavera árabe. E quase perto do fim, Pahani ainda encontra outro personagem, um estudante de arte que trabalha recolhendo lixo no prédio, entre outros trabalhos industriais. “”Por que você não trabalha em seu meio?”, pergunta o cineasta. O estudante se esquiva, mas a resposta todos sabemos.

Um importante filme para continuarmos lembrando a situação do Irã e que não parece ter previsão de acabar (basta percebermos também que nenhum filme do país passou no Festival esse ano). Mirtahmasb consegue boas soluções visuais para ajudar a passar o ritmo, como focar no iguana de estimação da filha do cineasta, e depois incentivá-lo a usar a câmera do celular e usar as cenas no filme.

Mas o importante é a mensagem, e o filme que estreou no Festival de Cannes, 1 ano depois dele ter sido impedido de viajar à Rivieira por conta da prisão por mais simples que possa ser é fundamental e deve ser tratado como uma questão urgente, pois ele ainda está sob prisão domiciliar (sua pena é de 6 anos) e sofreu uma proibição de filmar por 20 anos . Importante ressaltar que na segunda-feira passada, 5 de setembro, Mirtahmasb foi proibido de deixar o país quando tentava ir para Paris promover o filme, tendo seu passaporte, computador e  pertences pessoais apreendidos.

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