Diário do Festival de Veneza

Entro no Lav Diaz em 15 minutos para uma experiência de 6h. Acho que nunca vi um filme tão longo. Nem tenho problema com isso – acho que a grande falta do cinema foi o Ozu não ter feito um filme de 9h rs! Mas o problema é que tenho visto em média 6 filmes por dia desde o início do Festival de Veneza, dormido mal há umas 3 ou 4 semanas… Acabei de ver o novo do Ben Rivers e cochilei bravamente. Tudo bem que acho que o filme dele é mais lento que o filipino, mas tem 4 horas e meia a menos… E olha que tinha tomado cappuccino forte. Tou aqui no Red Bull e com uma garrafa de Coca, mas não sei se aguento. Vamos ver.

No final do filme eu volto e digo o que achei e tento fazer já um apanhado da seleção oficial e Orizzonti. Por enquanto três filmes que vi hoje de manhã, incluindo o último em competição, um policial tipicamente americano dirigido pela filha do Michael Mann.

“Jultak dongshi” (“Stateless Things”, Coréia do Sul) de Kyung-mook Kim (3,5/10)

O filme segue a história de três personagens diversos: Na primeira parte, um imigrante norte-coreano e uma compatriota lutam para sobreviver em Seoul, contra chefes abusivos e falta de emprego. Na outra parte, um garoto é sustentado por um homem casado no que parece ser uma relação tranquila, mas que se mostra problemática com ele cada vez mais não agüentando mais ser “mantido” como garoto de programa e continua a se encontrar com outros homens, geralmente casados e conversar em salas de bate-papo, além de freqüentar banheiros atrás de clientes e amantes.

As duas histórias acabam se entrelaçando muito tarde e fica uma sensação de descontinuidade enorme, pois elas tinham propostas diferentes e caminhos narrativos opostos, também. A solução final é problemática e acaba não funcionando. Um filme que começa interessante, mas vai decaindo até desabar praticamente no final, além de perder uma boa chance de fazer uma melhor análise sobre a situação de norte-coreanos em Seul.

“¡Vivan las Antipodas!” (Alemanha, Argentina, Holanda, Chile) de Victor Kossakovsky (5,5/10)

Não existe estrutura, apenas uma curiosidade: Quase não existem no mundo antípodas, ou seja, terras no mundo cujo “outro lado” da Terra também é composta de terra. O diretor uso se utiliza de quatro lugares: Espanha/Nova Zelândia (único na Europa), Havaí/Botsuana (única também na África), e Argentina/Rússia e China/Chile. Tudo desculpa para se criar imagens lindas, seja relatando o dia-a-dia das pessoas, ou da natureza e animais.

O filme apesar disso, cansa um pouco. Lembrando a estrutura de “Bebês” que passou aqui no Brasil, é mais forte. Mostra como vivem as populações, seja de cidades grandes e pequenas e como é a relação delas com os elementos naturais, geralmente criando alegorias através da montagem, mas nada que ultrapassa o bom senso e o ritmo natural. Só é necessário mesmo estar no espírito certo para embarcar no filme.

“Texas Killing Fields” (EUA) de Ami Canaan Mann (6,5/10)

Um policial que apesar de ser um filme forte, com um tom decididamente real e sem concessões, o que não significa apelar para violências, falta alguma coisa em “Texas”. Falta talvez personagens mais interessantes. O trio principal é bom e suas caracterizações são realmente ótimas, mas não adianta muito se eles não têm um material no qual trabalhar.

A história centrada em uma investigação policial sobre a morte de várias garotas em uma espécie de pântano texano é baseada em fatos reais, mas obviamente dramatizada para criar uma história mais concisa e ágil para padrões semihollywoodianos. É decpcionante não conhecermos mais os personagens. O ex-relacionamento entre Mike (Sam Worthington) e Pam (Jessica Chastain) poderia ter sido melhor explorada.

Chastain, a atriz do momento nos EUA segura bem o papel de uma policial dedicada, mas que sabe a hora de pedir ajuda e ainda depende do ex-marido que obviamente não quer saber dela. Worthington que nunca tinha mostrado muito talento é a real surpresa aqui, com um personagem confuso tentando aproveitar uma nova vida, e que tenta não complicar muito as coisas na investigação, talvez em parte também para se ver longe da ex-mulher, mas que corre atrás e não mede esforços para agir dentro de seu condado. Já Jeffrey Dean Morgan faz um policial religioso que tenta resolver o máximo de casos possíveis, o que inevitavelmente  o põe em conflito com seu parceiro.

A fotografia escura é importantíssima para auxiliar o clima do filme, complementado por uma guitarra incessante na trilha sonora. Fica a sensação de ser um piloto extendido de uma série televisiva, ou apenas o início da verdadeira ação. Enquanto se perde tempo no whodunnit e no amontoado de pistas e evidências, se perde também a chance de fazer um memorável filme.

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