Friedkin agita a disputa pelo Leão de Ouro em Veneza + Verano e L’ultimo terrestre

Amanhã é o último dia do início ao fim. Será exibido o último candidato ao Leão de Ouro, “Texas Killing Man” da filha do Michael Mann. Tem também a homenagem ao Bellochio e um filme de 6 horas do Lav Diaz. Vai ser tenso até porque ainda tive uma alteração nos meus planos e vou ter que estar em Paris antes do previsto, ou seja, tou tendo que cancelar minha miniviagem pra Eslovênia e arranjar uma passagem barata – que apesar do mundo de trens e empresas low-costs não é nada fácil. No meio de tudo isso, noites de 3, 4 horas. Vamos ver se eu aguento o Lav Diaz de amanhã até porque no sábado tem mais: FIlme de encerramento do Whit Stillman e a mais nova polêmica do Pahani, o super-esperado “This is not a film”.

Depois, claro, cerimônia de premiação e ainda o jantar de encerramento. Amanhã vou postar um balanço final dos candidatos ao Leão de Ouro (vi 22 dos 23, perdendo só o filme de abertura do George Clooney – espero que não leve o Leão de Ouro, seria decepcionante para mim rs) além dos melhores e piores filmes, avaliações que mudaram depois de tanto tempo (se passaram 10 dias, mas parecem 10 meses em tempo de festival), os meus favoritos da mostra paralela Orizzonti, enfim, um geralzão.

No fim dessa noite brasileira, três críticas: O Friedkin que revitalizou a briga pelo Leão de Ouro, depois de uns dias meio parada e aponta fortes nomes para os prêmios de elenco (tanto ator com McConaughey e até atriz com Gershon, pois a competição tá fraca) e talvez de montagem (o prêmio técnico especial). Já o último italiano parece difícil concorrente para os prêmios principais, e ainda vi um chileno filmado em Mini-DV que tirou muitas pessoas da sala com ainda 20 minutos (seria o formato ou o tema?).

No final da noite, um curta do Provost, que amei, o Johnnie To que achei fantástico – e a primeira parte meu pai tem que ver, é sobre uma funcionária de banco que tem que alcançar metas e metas e metas. To não faz um filme “violento” no sentido gore da palavra, e não sei se é coincidência ou não, mas é o primeiro filme dele que eu gosto. E ainda teve um tailandês que não dava por nada, mas fiquei apaixonado. Primeiro filme do país que não é do Apichatpong aliás que eu gosto, mas tem aquele clima místico que o velho Joe sabe fazer muito bem. Se der tudo certo nessa madrugada aí (início de manhã aqui na Itália) ainda posto mais textos!

“Killer Joe” (EUA) de William Friedkin (8,5/10)

“Tem muitos filmes bons que vem de peças, livros, videogames, tudo quanto é lugar. Mas na peça, os diálogos já são ótimos”, sentenciou Friedkin na coletiva de imprensa hoje, dia 8 de setembro, em Veneza, tentando dar o mérito para Tracy Letts, autor da peça e do roteiro pelo seu grandíssimo filme que estreou hoje e já é um dos fortes candidatos ao Leão de Ouro.

A história já começa prometendo, no meio de uma tempestade, com grandes toques visuais, como era de se esperar do cineasta de “Operação França”. Chris (Emile Hirsch) vai para o trailer aonde o pai (Thomas Hayden Church) mora com a esposa Sharla (Gina Gershon), depois de ser expulso da casa da mãe após bater nela. Cansado dela e com dívidas pra pagar, propõe pro pai uma solução: Contratar um assassino de aluguel e depois dividir os 50 mil dólares que a irmã mais nova de 12 anos, Dottie (Juno Temple, 22) vai receber. É aí que entra em cena Killer Joe (Matthew McConaughey), um policial texano que trabalha depois do horário.

Desde o início temos diálogos afiados, cortes rápidos, e um elenco trabalhando na mais perfeita sintonia. McConaughey é o destaque, como o policial meio psicopata que cuida do visual e escolhe com cuidado as palavras que dirige às personagens com igual atenção que usa com as armas. Charmoso, inteligente e decidido, fica apaixonado por Dottie e decide exigir ela como garantia já que o pai e filho não podem pagar seu salário de 25 mil dólares antecipadamente.

Hirsch está um pouco irreconhecível como um jovem apressado, rebelde e rude mas que tem uma atenção especial a irmã Dottie, e fica sempre entrando em conflito com Sharla, interpretada com maestria por Gershon que consegue criar uma personagem que ao mesmo tempo só pensa nela própria e fala e age como pensa é também esperta ao que se passa e tenta se preocupar com Dottie, uma menina frágil e inocente. Temple consegue fazer uma caracterização visual e de personagem boa para parecer o mais infantil possível mesmo que fique na linha de forçar a barra, o roteiro pede esse exagero.

Ao lado de McConaughey, o destaque é Haden Church que aqui parece lembrar seu passado televisivo em “Wings”, com um personagem sempre a par de tudo e prestes a pegar mais uma garrafa de cerveja. Suas caras e bocas enquanto vai ficando cada vez mais atrás do jogo intelectual interpretado pelos três outros adultos são igualmente sensacionais.

O roteiro é jogo rápido e diálogos espertos, fortes mas sempre verdadeiros são travados durante todo o filme. A primeira parte do filme porém se assemelha a uma montagem de telefilme. Parece ter intervalos a cada 15 minutos, o que também deve vir de sua origem teatral. Mas no final Friedkin engata a quinta marcha e permanece até o plano final, acelerando a adrenalina ao estilo de Quentin Tarantino em “A Prova de Morte”.

E é incrível também como Friedkin escolhe o plano perfeito para marcar o fim de “Killer Joe”. A princípio eu fiquei meio chateado achando se tratar de uma escolha aberta para fechar mas é de uma genialidade narrativa tão impressionante que nos lembramos a nunca desistir do cinema americano. Uma pena que vai ser completamente ignorado no Oscar, mas a recompensa pode vir aqui mesmo no Lido. Será que pela primeira vez o cinema americano leva duas vezes seguidas o Leão de Ouro?

L’Ultimo Terrestre (Itália) de Gian Alfonso Pacinotti (4/10)

Já no primeiro plano temos claro que o tema é aquele que praticamente domina completamente o cinema italiano atual: a “invasão” de imigrantes, aqui encenada como uma vinda de extraterrestres, ou “aliens” como são conhecidas ambos os grupos aqui, “aqueles de fora”. Numa tomada do espaço, ouvimos um programa de rádio comentando sobre a iminente vinda dos alienígenas. Um dos ouvintes reclama que eles vão tomar o lugar dos jogadores italianos e assim matar o futebol nacional. O radialista lembra que estão falando de ETs e não faz sentido nenhum a reclamação, mas o recado já está dado.

O protagonista é Luca, interpretado pelo novato Gabriele Spinelli. Já aos quarenta anos, vive uma vida solitária, e divide o tempo entre conviver com seus colegas machistas e preconceituosos do cassino aonde trabalha e se encontrar com prostitutas. No tempo livre, fica em casa espionando a vizinha por quem é apaixonado, Anna (Anna Bellato) e sair com sua melhor amiga, a transsexual Roberta (Luca Marinelli). Apesar dos amigos, Luca é tranquilo e tenta ser correto com todo mundo, inclusive o pai (Roberto Herlitzka).

Aos poucos, os alienígenas vão chegando na Terra e eles tem a capacidade de descobrir quem é bom e quem é mau, e serem recíprocos em suas atitudes. Um recado claro para como Berlusconi, Sarkozy: Se você tratar eles bem, nada vai acontecer, mas se começar com violência. É incrível como parece que o cinema italiano está preso nesse assunto. E o único exemplar que eu vi que não fala é um filme ultrapassado e besta, “L’Ultima Notte”.

A primeira parte é interessante, mas sinceramente não me cheirava bem. Era o mesmo tipo de construção de personagens de uma comédia da Globo Filmes. Mas imaginava que Pacinotti, famoso cartunista aqui, manteria o charme até o final. Ledo engano. Depois de uma virada meio besta, tudo se transforma, os conflitos são resolvidos da maneira mais simples possível. Mais decepcionante impossível até porque acaba estragando completamente a construção de personagens e o clima do início.

“Verano” (Chile) de José Luis Torres Leiva (4,5/10)

Um filme um pouco desconcertante, não pela temática, mas pela maneira com o qual foi filmado: Uma câmera Mini-DV que deixa tudo granulado e “amador”, o que levou a muitas pessoas saírem do filme logo no início. Essa tem sido a marca da mostra Orizzonti, a principal entre os fora da Competição Oficial. Filmes que desafiam o gosto normal e o estilo dominante.

Uma pousada de veraneio chilena é a parada de várias personagens: Uma mulher de Buenos Aires viajando sozinha que descobre estar grávida; um casal de argentinos que tenta ter filho, duas irmãs que trabalham como garçonetes; a vizinha delas que vende produtos tipo Avon, entre outras.

O ritmo é lento e segundo o diretor, o efeito caseiro é para lembrar dos filmes de infância. Mas isso não se transmite na tela e o chileno não consegue nenhum efeito positivo com sua falta de técnica na câmera. O filme acaba se perdendo também entre várias narrativas e a montagem não consegue dar conta de todas as histórias de maneira desejada. Um experimento interessante, mas que não convence.

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