O filme mais aplaudido do Festival de Veneza

De todas as sessões que eu fui, o representante da Orizzonti, “Would you have sex with an arab?” recebeu um aplauso enorme, de cerca de 7 a 8 minutos. E isso vindo de uma sala relativamente pequena. “Hahithalfut” concorre ao Leão de Ouro, mas não vejo muita chance de prêmio – talvez em roteiro, se gostarem muito.

“Hahithalfut” (“The Exchange”, Israel) de Eran Kolirin (6/10)

Um belo filme sobre um homem (Rotem Keiram) que de repente chega em casa e acha tudo muito estranho, não conseguindo se adaptar à rotina ao lado da esposa (Sharon Tal). Mas ao contrário de se revoltar ou algo do tipo, ele passa a interromper quase por completo a comunicação com as pessoas, faltar o trabalho, dormir no saguão e no abrigo anti-bombas do prédio, aonde encontra um outro cara meio louco como ele, interpretado por Dov Navon.

A história é bonita, e realizada com impactantes  planos longos por parte de Kolirin, conhecido no Brasil por seu filme de estréia “A Banda”. Enquanto a Tal mostra um talento para interpretar a esposa, uma personagem que fica a margem do marido, não compartilha mais uma vida totalmente em conjunto, mas ainda se esforça para compreender ele, apesar de se esforçar muito para conseguir um emprego, Keiram erra a mão completamente.

Seu protagonista, no primeiro trabalho de cinema, fica perdido na composição de personagem, não sabendo criar alguém que de repente não consegue se conectar as coisas em sua volta. Keiram parece alguém que sofreu algum problema mental, perdeu totalmente a noção da vida, fisicamente mesmo, e está só vegetando. Faltou um pouco de sutileza para ele, o que quase elimina toda a credibilidade do filme.

“Would you have sex with an arab?” (França) de Yolande Zauberman (7/10)

O filme parte de uma pergunta muito simples (título) para mostrar as raízes do preconceito dos israelenses com os palestinos, e vice-versa. O título parte de uma música popular no país judeu, “Would you Kiss an arab?”. Apesar da premissa simples e se manter apenas simpático na maior parte do tempo, ele acaba criando um importante retrato dos jovens israelenses atuais, que talvez ao contrário dos palestinos, tem muito acesso a informações e educação, mas mesmo assim apresentam opiniões completamente tresloucadas em respeito aos vizinhos/inimigos.

A diretora francesa também aproveita para fazer um abrangente painel da noite na região passando das famosíssimas raves israelenses à cena gay palestina (que acontece em Tel Aviv, naturalmente) e termina com um encontro entre vários dos jovens entrevistados para discutir a questão. É fácil se empolgar com o filme, com a discussão que ele levanta, mas sente-se que poderia ter ido mais além, ir no cerne da questão, mesmo que seja para provar um ponto, ao estilo Michael Moore e não ficar no simples câmera na rua, mesmo que funcione.

O filme, que termina com uma música de Lady Gaga nos créditos finais (“Bad Romance”), foi o mais aplaudido até o momento no 68º Festival de Veneza, com a diretora e parte da equipe presente recebendo oito minutos de ovação. São problemas que podem parecer clichês, bobos e superados, mas estão longe disso: A mistura entre israelenses e palestinos é uma coisa repudiada a cada dia nas famílias, o que faz com que jovens que poderiam estar lutando para mudar esse retrato mais e mais conservadores, apesar de aparência de liberais, uma boa e talvez inesperada revelação para as platéias ocidentais.

 “Hollywood Talkies” (Espanha) de Mia de Ribot, Óscar de Pérez (1/10)

Um desastre cinematográfico este documentário de tema interessante, mas que parece uma leitura de tese com um powerpoint de fundo. A história de atores de língua espanhola que foram para Hollywood participar das versões em espanhol de filmes americanos é contada de forma monótona em uma narração off bizarra (tem um momento que dá pra sentir que o narrador está bocejando) enquanto aparecem na tela belas imagens de praias, paisagens  hollywoodianas e espanholas, e fotos particulares dos atores.

Muito estranho esse filme, que nem se deu ao trabalho de procurar cenas dos filmes, fazer entrevistas com sobreviventes, descendentes, historiadores, o que seja. Filme que só é interessante pela história que conta, mas mesmo assim conta mal: Não chega a propor questões, como o fato do “Drácula” em espanhol dirigido por George Melford ter uma reputação ainda melhor que o original e clássico de Tod Browning. Só serve mesmo para saber algumas anedotas da comunidade espanhola em Hollywood na virada dos anos 20 pros 30.

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