“Fausto” de Sokurov na competição de Veneza + “Nocturnos” e “Cisne” de Vellaverde

Aí vão mais 3 críticas: Dois filmes melancólicos, sobre a madrugada em metrópoles: “Nocturnos”, com poesia narradas em uma andança por Buenos Aires e “Cisne” misturando músicas tristes e Lisboa. No meio, “Fausto” de Sokurov, que é forte candidato a Copa Volpi de melhor ator para Anton Adasinsky, intérprete de Mefístoles.

 

“Faust” (Rússia) de Aleksandr Sokurov (7,5/10)

Apesar de já ser um dos cineastas mais importantes da atualidade, esta foi a minha primeira experiência com o diretor russo. É um cinema muito impressionante, sombrio, enfim, “cinema de verdade”, o que a maioria dos críticos tá reclamando em relação à seleção deste ano. Uma fotografia impressionante marca o tom do filme.

O trabalho de Bruno Delbonnel é sem dúvidas o destaque do filme, já se portando franco favorito para levar o prêmio de contribuição técnica. Cheia de truques, como o uso de lentes grandes angulares e uma distorção impressionante de cena em cena. Parece até se tratar em alguns casos de um fotograma em cinemascope que não foi projetado corretamente (ou seja, a imagem comprimida na horizontal) , mas logo depois, volta ao normal. Os ângulos são incríveis, assim como o trabalho de uma câmera totalmente livre e sem amarras acompanhando por vezes muito de perto as aventuras de Fausto e Mefístoles.

As cores degradadas dão um tom sombrio à Alemanha da Idade Moderna, um local sombrio aonde um deprimido Fausto (Johannes Zeiler) faz de tudo para suprimir sua ambição de se tornar um grande intelectual e ainda conseguir ter uma relação com a bela Gretchen (Isolda Dychauk), mas acaba sendo consumido pelos poderes do Diabo, sob a forma de Mefístoles (Anton Adasinsky, com voz de Stefan Weber).

Zeiler faz com muita propriedade um homem frustrado que não se contenta com o que tem, e está sempre em busca de mais conquistas, mais glória, mas começa a tentar ter melhores ações quando se apaixona. Já Adasisnky rouba o show, com a personagem mais forte e que apesar das caras e bocas necessários, consegue aplicá-las muito apropriadamente. Não é a toa que Sokurov foi atrás dele, um mímico e palhaço profissional. Já é um forte candidato ao troféu de melhor ator no Festival.

Apesar de ficar óbvio que em uns pontos aqui e ali, a adaptação poderia ter sido mais bem feita e acabar não atingindo o espectador mesmo em um nível estético mais elevado, o resultado final é bem impactante. Tecnicamente, tudo é perfeito: A trilha sonora, com tons modernos mas contidos ajuda o ritmo do filme e a direção de arte com as ruelas, labirintos e casas estranhíssimas confirmam o tom gótico da história.

“Nocturnos” (Argentina) de Edgardo Cozarinsky (5,5/10)

Um filme curto, de pouco mais de uma hora que serve como uma bela homenagem à poesia, à madrugada e à cidade de Buenos Aires. No filme, um homem sai as ruas da capital argentina a noite em busca de uma mulher que o abandonou enquanto poesias de escritores consagrados passam pela tela. Possui umas tomadas impressionantes tanto de cartões-postais como de imagens pouco conhecidas de Buenos Aires.

Alguns momentos de pura beleza passam, especialmente ao som de poesias célebres como de Baudelaire e Frost, ou numa cena de bar em que é recitado o Hymnen na die Nacht (Hinos à noite) de Novalis. Outros, porém, soam forçados. Quando o filme se foca na poesia e se assume como uma homenagem não preocupada com narrativa ele impressiona, mas quando se volta a historinha do início causa tédio.

 

“Cisnes” (Portugal) de Teresa Villaverde (6/10)

Vera (Beatriz Batarda) é uma cantora que está em Lisboa para encerrar sua carreira com um último tour. Ela contrata um assistente Pablo (Miguel Nunes), por um motivo: ele, assim como ela é criatura da madrugada. Enquanto os dois perambulam por Lisboa, o ex-namorado de Vera, Sam (Israel Pimenta) pede para ficar em sua casa de praia, mas sozinho: ele quer estar perto das coisas dela, mas não com ela. É nesse ambiente que o filme se desenrola.

O filme acaba gastando muito de seu tempo em histórias paralelas envolvendo Sam e um grupo de amigos dele, o que causa um certo desinteresse e desnível na história. Quando o foco é em Vera e seus passeios noturnos por uma Lisboa particular a ela, ou a Pablo e sua busca pela mãe que o abandonou quando criança, e naturalmente na relação dos dois, temos uma forte história de relações que nascem da solidão. As músicas são maravilhosas, e ajudam a compor um tom melancólico a história, mas nem sempre o filme consegue se manter nesse nível.

 

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