Abel Ferrara e um outro italiano na corrida pelo Leão de Ouro em Veneza

Antes de entrar agora na sessão do filme israelense “Hahithalfut” (“The Exchange”) de Eran Kolirin (de “A Banda”), mais duas críticas de candidatos ao Leão de Ouro, um italiano e o novo do Abel Ferrara!

Quando La Notte (Itália) de Cristina Comencini (2,5/10)

Marina (Claudia Pandolfi) acaba de chegar numa cidadezinha italiana, perto de uma montanha nos Alpes para ficar um mês enquanto espera seu marido. Ela aluga um andar na casa de Manfred, um homem que serve como guia turístico na região, e aos poucos ela e seu filho de 2 anos entram na vida dele, especialmente as noites quando a criança não para de chorar. Os dois permanecem distantes, até que um acidente acontece e Manfred crê que foi tudo culpa de Marina.

A primeira parte do filme funciona até certo limite como um drama sobre uma mãe que começa a ficar mal por ter sido deixada sozinha por seu marido e ter que tomar conta do filho. Mas tudo se perde quando o filme cai num dramalhão sem tamanho, culminando num romance cômico entre os dois personagens, e declarações do tipo “por que ninguém diz que é difícil ser mãe?”. Claudia tem o tipo de papel que poderia lhe dar uma Copa Volpi, mas espero que os jurados não caiam no choro fácil e caras e bocas pavorosas que ela faz.

No mais, o filme tem uma boa fotografia que abusa das belas paisagens alpinas mas por outro lado, tem uma trilha sonora insuportável, e que estraga boa parte do clima, como fazendo o clichê máximo, aumentando o tom da música antes do acidente do filho, que aliás é explicado num flashback do final, ruindo qualquer espécie de mistério para que seja privilegiado uma aproximação do casal inverossímel. Mesmo com a segunda parte horrível, o filme ainda consegue passar do nível bomba pela sua primeira parte um tanto interessante.

4:44 Last Day on Earth (EUA) de Abel Ferrara (7/10)

Abel Ferrara faz m seu novo filme, exibido na mostra competitiva do Festival de Veneza uma versão da música de Paulinho Moska, “O Último Dia”. William Dafoe e Shanyn Leigh são um casal que lidam, assim como as outras pessoas, com o iminente fim do mundo, marcado para as 4h44. Existem pequenas dicas que dão a entender que é uma ação planejada, para “salvar a terra”, mas nunca é esclarecida a razão ou como se sabe com tanta certeza a hora (4h44, horário de Nova York, claro), mas certa mesma é a razão: Al Gore tinha razão e camada de ozônio foi destruída.

O uso da câmera digital tem um efeito fantástico em “4:44 Last Day on Earth” para capturar uma atmosfera estranha e sinistra, com o uso granulado para confundir em um céu totalmente sem contraste. Ao menos, Dafoe não para em casa e sai as ruas para encontrar um velho amigo e ver a “situação”. É a melhor cena do filme, mais viva, em que a loucura por um fim do mundo eminente fica evidente e personagens sem saber como agir. Como o protagonista diz, “todos já estamos mortos”.

A fotografia é definitivamente o destaque do filme, pois também contribui para lindos travellings, como um fantástico que abre o filme, além da câmera estar bem ao lado dos personagens, acompanhando cada reação, cada movimento facial deles. Dafoe interpreta muito bem um homem amargo e irônico que não consegue se decidir se quer passar tranqüilo pelo último dia ou se quer ter um fim prematuro. Já Leigh perde um tom e fica um pouco perdida entre uma personagem carinhosa e histérica e uma egoísta e imatura. Quando ela está em cena, o filme perde força consideravelmente.

O maior pecado do filme foi não ter explorado melhor a situação para pensar mais sobre como enfrentamos os últimos momentos (o que “Melancolia” com temática similar consegue fazer em certo grau) e especialmente sobre a “razão de viver”. Isso é apontado com a personagem de Leigh, uma pintora, passando o filme inteiro criando uma última obra de arte, mas para que? Para quem? Ou seja, tudo pronto para uma análise mais profunda, mas que só fica no raso, nas pequenas insinuações. A trilha sonora, é importante notar, dá um gás ao filme, com uma música de Fats Domino e algumas músicas originais fantásticas.

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