Finalmente, “Shame” de Steve mcQueen

Demorou mas saiu o texto do meu filme favorito ao Leão de Ouro até agora! Um temporal aqui em Veneza na fila para “TInker, Tailor, Soldier, Spy” as 9h – e eu esqueci meu guarda-chuva😦

“Shame” (Reino Unido) de Steve McQueen (8,5/10)

Em “Cafe de Flore”, Jean-Marc Vallée faz um trabalho bonito ao mostrar como uma música pode mudar sua vida ou marcar momentos, mas frustra ao incorporar isso numa trama difusa e perdida. McQueen cria uma cena similar aqui, mas que funciona maravilhosamente no espírito do filme. Nele Carey Mulligan cantando “New York, New York”, em um ritmo lento, blues, que arrepia o espectador e também o personagem de fazer chorar o personagem de Michael Fassbinder, a ponto de chorar. Ela certamente o atinge num nervo. Será que ele, que cresceu na Irlanda, lembra de sua adolescência cujo desejo maior era ir para Nova York – e agora ele está lá? Será que é simplesmente uma percepção de como a cidade pode ser fatalmente decepcionante – e isso não dá muito para perceber nas versões glamourosas de Frank Sinatra e Liza Minelli. Ou será que só o faz lembrar de uma relação familiar anteriormente perdida, seja simbolicamente com a irmã ou com os pais que morreram?

Michael Fassbender é Brandon, quase um yuppie dos anos 80. Mora num apartamento pequeno, mas ao estilo de “Psicopata Americano” tem um trabalho bem-sucedido e é viciado em sexo. Uma vez por dia não basta. Dá em cima de praticamente toda mulher que vê na rua, acaba se encontrando regularmente com prostitutas e mesmo assim logo depois se masturba, entra em sites pornôs, conversa pela webcam. Até no trabalho seu comportamento é hipersexual, se masturbando no banheiro, cantando colegas de trabalho e enchendo seu HD de vídeos e sites pornôs pesados.

Seu comportamento sofre um freio quando Sissy, a irmã interpretada por Mulligan entra em cena para passar uns dias em Nova York e na casa do irmão, interferindo em sua rotina. A partir daí, ele acaba tendo que lidar mais e mais fortemente com sua compulsão sexual, a falta de amigos, a recusa em ter relacionamentos sérios e o rompimento com a irmã, a única parente que ainda lhe resta.

Tudo isso poderia dar uma fórmula super clichê, como já aconteceu em vários filmes, alguns dele que são ótimos até a virada salvadora final, como “Amor sem Escalas”. Aqui McQueen trata seus personagens de forma real, humana. Cada ação vem com sua reação, e ninguém muda de repente. Como Brandon mesmo diz para sua irmã “palavras não valem de nada, o que contam são ações”. E mesmo que se perceba uma falha de caráter, isso é suficiente para querer corrigir e enfim, corrigi-la?

“Shame” é um retrato cru e poderoso de um anti-herói, mas que como o próprio McQueen disse na coletiva de imprensa, “não é muito diferente de nós”. O filme tem um ritmo pulsante, uma energia forte, um senso de urgência e de cinema real, como nenhum outro filme até agora mostrou em Veneza. Seria uma opção ousada e corajosa para o Leão de Ouro por parte do júri, presidido por Darren Aronofsky.

Mesmo mostrando um assunto tão “perverso”, McQueen mostra uma elegância incrível, seja na composição de planos ou no ritmo da montagem, apresentando as personagens com calma, no seu dia-a-dia, sem nenhuma pressa. Ele também durante todo o filme recusa qualquer solução fácil para seus o casal de irmãos. Nada se resolve de um momento para outro.

O assunto também é atual e importante. Segundo o cineasta o filme não é menos político que o anterior “Hunger” (o qual não vi e agora estou doido para ver), e ele tem razão. “Shame” é intensamente crítico a sociedade atual, que dá tudo e oferece uma alta tecnologia e comunicação para em troca tirar tudo de humano das relações, reduzir o ser humano a seus vícios mais instintos e não ter que se preocupar, pois não teria nenhuma repressão.

O uso que Steve McQueen e o fotógrafo fazem da cidade de Nova York é incrível. Há muito tempo não via uma composição tão real, vibrante como aqui. Tudo está disponível, menos afeto e carinho. Uma cidade de milhões de desconhecidos, cada um vivendo sua trajetória solitariamente, sem poder contar com o apoio de outro. Uma cena na qual Brandon decide correr pela cidade faz criar um dos melhores travellings dos últimos tempos, um olhar lindo sobre a cidade ao amanhecer, talvez como o próprio personagem.

Fassbinder cria um homem imponente, com forte convicção sobre si mesmo e do tipo que sabe que pode e que faz, mas que de repente começa a se perceber preso em seu labirinto. Ele está cansado de si mesmo, mas não consegue se livrar do que lhe atormenta, sem saber muito o que se pode fazer para superar um turbilhão de emoções que o sucede, então continua voltando para aquilo que fazia bem. É um personagem cuja psicologia vai se desnudando completamente  aos nossos olhos (porque de roupa aliás, já faz na primeira cena).

Mulligan, como contraponto é meiga como a irmã que tenta de tudo para construir uma relação familiar, não por amor ao irmão, mas principalmente por carência. Sua constução mostra uma alma frágil, mas decidida a lutar por aquilo que é certo, no caso, a única relação decente que parece poder possuir, com o seu irmão, depois de vários desastres amorosos.

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