Os primeiros filmes do domingo

OK, esse post tem um título meio mentiroso. O primeiro filme que eu vi mesmo hoje foi “Shame” de Steve McQueen mas me apaixonei tanto por ele, e tem tanta coisa pra dizer, que prefiro escrever com mais cuidado. Espero ainda postar nesta noite (brasileira).

Mas antes, um pouco de curiosidades: Antes da sessão de “The Invasor”, último filme da noite, tinha uns críticos que não conheço conversando nas poltronas do lado. Um deles é amigo de Louis Garrel e contava uma história bizarra. Parece que o Louis chegou um dia pro dito cujo e perguntou “qual é o problema com a sua roommate? Ela começou a gritar loucamente comigo”. Parece que o astro francês tinha pego um livro da estante da menina, enfiado no bolso e tentou sair da festa sem nem comunicar à garota. Ou seja, além de galã o francês também é cleptomaníaco (e mal visitante)!! Talvez ele seja como o seu personagem de “Une éte bruillant” e ache que posse é um viciozinho burguês!

 

Agora, finalmente, as críticas dos 3 filmes. Infelizmente para compensar o maravilhoso início do dia, o resto dececpionou, incluindo “Terraferma” (muito aplaudido, até por ser representante da casa e de um tipo de causa liberal) e “Poulet aux Prumes”, candidatos ao Leão de Ouro…

“Terraferma” (Itália, França) de Emanuele Crialese (4/10)

Primeiro filme de Emmanuele Crialese depois do memorável “Novo Mundo” trata de possivelmente o tema mais espinhoso na Europa atual (mais que a economia): A imigração ilegal. Ele fica mais importante ainda depois da atual coleta de 25 mil tunisianos depois da revolução. No filme, uma cidadezinha de veraneio numa pequena ilha italiana vira alvo de centenas de imigrantes ilegais africanos e desafiando as autoridades e a opinião geral da população, um avô e seu neto decidem acolher alguns homens e mulheres que nadam em direção a seu barco.

Parece forçação de barra o antagonismo gritante entre a família protagonista que é boa, pensa nos direitos humanos e não deixa ninguém morrer nas águas e a população local apresentada como racista, mesquinha, só pensando no próprio umbigo e que vive respaldada pela polícia vilanesca do local.

Ora, o problema da imigração ilegal é muito grande na Europa hoje para tratarmos em termos simplistas. Nada é debatido verdadeiramente nada e parece mais uma bela lição de como ser bom com os outros, apesar deles serem diferentes de nós. Para reforçar isso, Crialese põe um grupo de amigos da cidade, que estão ali para sempre lembrar à família que está sendo feito algo de errado e é necessário esconder de vista. O que poderia acontecer era um trabalho melhor em cima do jovem protagonista, e questões verdadeiramente pessoais, como sua relação com a família e questões amorosas/sexuais que são despertadas com a chegada de uma menina, mas não são levadas a diante.

Poulex aux prunes (França/Alemanha) de Vicent Paronnaud, Marjane Satrapi (3,5/10)

Tinha uma conversa com uma amiga se era melhor um filme ser ruim ou simplesmente sem nada a dizer. Pensei um bocado nisso vendo esse filme, dos diretores de “Persépolis”. É um filme bem realizado, com uma estrutura que acaba soando interessante, apesar de cansativa, mas se resume a uma série de episódios engraçados ou sentimentais e nada a mais.

No meio da adaptação da história em quadrinhos, o espírito se perdeu. Ficou alguma coisa faltando, um efeito visual e narrativo que provavelmente funcionaria muito bem no papel, mas no cinema soa estranhíssimo.

A personagem de Chiara Mastroianni por exemplo é um desastre, praticamente. Temos outros problemas graves também, como a relação do protagonista com sua amada e a própria história principal que não é muito bem desenvolvida para um filme. Nasser-Ali (Mathieu Almaric) é um violinista que depois de ter seu violino quebrado, não encontra mais prazer para tocar em nenhum outro instrumento, e por conseguinte para viver. Decide morrer então, mas passa oito dias para finalmente morrer – isso é contado logo no início, nenhum spoiler aqui. O resto é como ele passa os dias, sempre lembrando também do seu passado, mas sem muita conexão com o espectador.

“I’m Carolyn Parker: The Good, the Mad and the Beautiful” (EUA) de Jonathan Demme (4,5/10)

Documentário ao estilo tradicional, como Demme tem se especializado. O filme conta a história de Carolyn Parker, uma moradora de Nova Orleans, que ficou famosa nos EUA por ter durante um encontro de políticos e empresários para encontrar soluções para a cidade, fez um protesto reclamando que nada estava sendo pensado para a área pobre da cidade, justamente a que mais foi afetada. O episódio até recebeu uma resposta do Presidente Bush, que “não teria nada a comentar”.

Demme e sua equipe então vai acompanhando Carolyn e sua família, suas turbulências com o governo e outros problemas: Das duas igrejas da região, uma freqüentada por negros e outra por brancos, a direção episcopal quer apenas salvar uma – provavelmente a branca, mais antiga e suntuosa, por exemplo, ou o futuro estudantil da filha de Carolyn que decide sair da faculdade para ajudar a mãe. O que mais move o filme porém, são os problemas de saúde de Carolyn.

É estranho porque Demme não nos mostra nenhum motivo para acreditar na palavra dela, que se diz ser uma defensora do povo e dos seus direitos, apesar dos amigos corroborarem essa versão. O que nos parece mais é uma pessoa que ficou famosa nacionalmente por um desabafo e acabou aproveitando para criar uma persona dentro de si. Não que as histórias pessoais não tenham valor e talvez seja o mais interessante – seu passado como chef de cozinha que se recusava a compartilhar suas próprias criações (“não trabalho com receitas”) ou a relação com sua avó na época de segregação forte nos EUA – mas Demme não dá muita atenção a isso.

Com isso o que também poderia ser um interessante painel sobre a recuperação de Nova Orleans acaba se exaurindo em um pobre retrato pessoal, sem nenhum valor, com a velha história de superação e de encontrar alegria apesar de dificuldades. Apesar disso, funciona como produto para a TV, como foi concebido.

3 Comments

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3 responses to “Os primeiros filmes do domingo

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  3. nati

    vi o filme do crialese. num concordo com vc que ele é tao simplista assim nao, afinal a família nao é boazinha e o resto ruim. tem um conflito na família, alguns querem e outros nao, o garoto tem a crise, o tio tem o discurso lá na reuniao de pescadores… e na reuniao alguns sao contra, outros a favor… só acho que ele tem mao pesada, muitos conflitos nao funcionam bem, realmente ele começa questoes que nao sabe levar… os turistas sao ruins, nao funcionam… os atores sao velhos pro papel, o que incomoda bastante em relaçao ao garoto principal, que tb é meio ruim… mas acho importante ele ter feito esse filme, um filme que tinha que ser feito – apesar de realmente nao ser muito bom.

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