James Franco e Chantal Akerman no Festival de Veneza

A minha ideia de dormir deu errado – além de ter dormido só 3 horas e meia (aliás, já é alguma coisa…) perdi a hora e tive que pegar uma via alternativa pra tentar chegar a tempo no Festival – um vaporetto normal e no ponto dele pegar um ônibus para as salas de cinema. Consegui milagrosamente chegar a tempo da sessão de “Shame” e não poderia ficar mais feliz. É o filme mais vibrante, mais real, mais decisivo do festival. É tão bom quanto “Carnage” de Polanski, mas muito mais poderoso e atual. Meu candidato inicial ao Leão de Ouro. A reação porém foi um pouco dividida, com logo no início dos créditos mas que foram tapadas pelos fortes aplausos em seguida.

Vi também o Criasele que é bom, sobre a questão mais importante talvez na Europa atual que é a imigração ilegal. Mas sinceramente esperava mais. Daqui a pouco tem textos sobre eles! Por enquanto os filmes da noite de ontem, ambas sessões inesquecíveis com a presença dos realizadores. Chantal ganhou um “leãozinho de ouro” (?) e James Franco estava também na primeira sessão do Festival – chorou, agradeceu a todos por estarem presentes numa sessão de meia-noite, e levou centenas de fãs a loucura.

“Sal” (Estados Unidos) de James Franco (7/10)

James Franco homenageia aqui não com uma biopic normal,  e sim tentar entender o estado de espírito do ator Sal Mineo, quando foi morto em 1976 aos 37 anos. A figura de Sal que James pinta é de um homem muito liberado com a sua homossexualidade, que saia pra festejar direto e andava com camisa jeans aberta mostrando os músculos, mas tinha problemas com a indústria e os produtores americanos para realizar os seus projetos, como um filme em que um jovem de 17 anos é estuprado por uma gangue gay.

O filme tem um tom amadorístico, universitário, mas que funciona. Tem pinta até de filme de estréia do Franco, mas só agora descobri que é o quinto longa de ficção dele. Algumas coisas não funcionam, como a fotografia meio estranha e a trilha excessiva no final (apesar de que as músicas escolhidas são ótimas). Cenários simples, uma câmera bem vídeo, mas que se beneficia da liberdade para chegar bem perto de Sal, interpretado com uma vitalidade impressionante por Val Lauren. É um filme bem corporal, que tenta estar próximo dos momentos mais íntimos da vida dele. Isso dá muito certo pela naturalidade de Lauren em incorporar o ator em planos longos e cenas em tempo real, na maioria das vezes.

O roteiro é ótimo, com diálogos francos e naturais que dão muito certo. O tom, por vezes parece teatral, como nos monólogos de Val, por exemplo numa cena em que está em casa e ligando para seus amigos, ou mais obviamente num próprio palco do teatro quando o grupo ensaia a peça de teatro na qual Sal estrearia 10 dias depois que foi assassinado. Nesta cena, aliás, James Franco numa referência meio boba, interpreta o diretor da peça e nunca é visto frontalmente, pois a câmera fica diretamente atrás dele.

La Folie Almayer (Bélgica/França) de Chantal Akerman (7,5/10)

É um dos filmes mais fortes, secos que foram vistos no Festival. A história lembra muito Marguerite Duras, mas a aproximação feita nos créditos pelo menos foi com Joseph Conrad – “Coração das Trevas” para ser mais preciso. O início misterioso dá um tom fantástico ao filme que depois vai investigar as razões para aquela primeira cena ter acontecido. Akerman faz personagens fortes, cujas emoções estão bem escondidas – ou não existem.

Nina (Aurora Marion), filha de um europeu (o tal do Almayer, interpretado por Stanislas Merhar) com uma nativa da Indochina, vive perdida por não conseguir e não querer se adaptar entre os brancos, apesar dos esforços do seu pai. Começa a criar uma relação quase destrutiva então para se afirmar entre um mundo dividido, da educação francesa e futuras viagens a Europa, mas nas quais sempre será vista como uma asiática, e a vida mais simples e sem perspectivas da Indochina.

Me incomodou um pouco o ritmo longo e alguns dos atores coadjuvantes, mas nada que cause nenhum desconforto grave. Os planos muito  bem concebidos do início do filme continuam, mas eles perdem um pouco de força por conta do tal problema de ritmo, que acaba tirando o poder das imagens.

4 Comments

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4 responses to “James Franco e Chantal Akerman no Festival de Veneza

  1. Junia

    Acho que James Franco tem mais de 5 filmes de ficção…
    E será que todos esse filmes ai, que vc está vendo vai passar aqui no Fest do Rio?!
    Fiquei com vontade de vê-los.

  2. Mateus Nagime

    É, não conhecia! Será que são disponíveis? Achei estranho porque eu entendi por alto no anúncio do filme que o filme tava concorrendo a filme de estréia, mas acho que me enganei mesmo.

    Olha, Júnia, geralmente os filmes do Festival de Veneza vão mais para São Paulo pelo pouco tempo entre aqui e o Rio, mas como esse ano vai ser em outubro, acho que alguns títulos são bem possíveis de ir sim! Espero que “Shame” e “Cut” vão, todo mundo tem que ver esses 2 filmes agoraaaa hehehe

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