“Cut”, o melhor do festival de Veneza até hoje

Depois de uma noite agitada que culminou com a sessão tumultuadíssima de “Sal” do James Franco (fotos infelizmente só daqui a 10 dias quando voltar a Paris e recuperar o cabo!), finalmente pude escrever sobre dois filmes que vi mais cedo, um que mexeu muito comigo, “Cut” e “Whores’ Glory”, indicação do Rudá. Ainda falta escrever sobre a Akerman e o próprio Franco. São 4 da manhã aqui, talvez faça ainda nessa madrugada ou resolva dormir e dar uma chance a mais de não cochilar durante a programação exaustiva de amanhã, que conta com 4 filmes na competição (“Shame”, “Terraferma”, “Dark horse” – ou “Shock Head Soul” da Orizontti e “Poulet aux prunes” que perdi hoje), o novo do Jonathan Demme (“I’m Carolyn Parker: the good, the mad and the beautiful” e “the invader” de um diretor experimental Nicolas Provost, outra indicação do Rudá, mas esse último só se eu tiver ainda forças.

 

Enquanto isso, algumas palavras sobre “Cut” e “Whores’ Glory”:

 

“Cut” (Japão) de Amir Naderi (9/10)

Já no início do filme, Naderi marca a temática do filme. Vemos um largo painel com fotos, pôsteres de cinema. É a casa de Shuji (Hidetoshi Nishijima). Logo em seguida, ele vai visitar o túmulo de Akira Kurosawa. Pergunta porque o cinema atual está tão ruim. E pede para fazer filmes tão bons quanto aquele.

Shuji além de não conseguir realizar filmes, também perdeu o seu espaço aonde organizava um cine-clube. Mas não desiste, instala um projetor 16mm em sua casa e continua lá no terraço de sua casa, ao céu aberto, confrontando esse cinema “antigo” a uma Tóquio megalópole. Ao exibir dois filmes mudos (“Sherlock Jr.” e um curta japonês), brinca em como será interessante vê-los com o som do vento. Enquanto isso ainda tem que lidar com problemas de polícia, pois sai pela rua com um megafone reclamando do cinema atual e conclamando às pessoas assistirem os clássicos.

Parecia se tratar de uma simples homenagem bonitinha ao cinema, até que durante a projeção, dois mafiosos (Yakuza?) aparecem e levam ele para uma reunião com o chefe. O irmão foi morto e uma dívida de 12 milhões de ienes (aproximadamente 100 mil dólares) precisa ser paga em 2 semanas. De repente, Shuji tem que dar a cara a tapa para conseguir arrecadar esse dinheiro e aparece uma oportunidade quando os mafiosos começam a pagar para bater nele. Ele decide virar um saco de pancada.

Naderi mostra assim o que todos os cinéfilos sabem: Essa paixão pelo cinema é física, revitaliza quanto destrói o corpo. É divertido pensarmos que ele tem 2 semanas para pagar, o que corresponde  normalmente a duração de um festival. Ficamos quase sem dormir, sem comer direito, indo pra cima e pra baixo para enfrentar filas de ingresso e entrada no cinema. O cinema nos consome, mas também nos salva. Para suportar a dor, Shuji começa a se lembrar de filmes e dos programas que ele realizou no cine-clube, além de dormir a luz de algum filme projetado em cima dele. O mesmo cinema que corrói, que destrói, é aquele que salva.

Em certo momento Shuji precisa superar uma etapa em 100 passos e decide que o melhor jeito é ir lembrando de cada filme de sua vida. Temos um top100 de Naderi, que apesar de no papel parecer chato, é um dos momentos mais empolgantes no filme, o clímax se fundindo com essa relação passional com o cinema. Do Brasil aparecem 2, “Pixote, a Lei do Mais Fraco” de Hector Babenco e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” de Glauber Rocha. Um momento forte de cinefilia, como as outras imagens que passavam e não é surpresa que durante a cena final de “Rastros de Ódio”, projetada por Shuji, pessoas na platéia de Veneza cantarolaram a cena final. É um nervo de identificação que Naderi atinge e talvez quem não seja cinéfilo pode achar o filme mais chato do mundo.

É engraçado que Naderi não adere a discussão película x digital, mas firma claramente que o jeito certo de ver cinema ainda é em película, numa sala acompanhado por outras pessoas. No final, o cinema é um jogo de alto risco: Apesar de causar tanto problema, queremos passar por mais para ganhar ainda mais. Cinema é um vício, uma droga, da qual Naderi (e certamente eu) não tem intenção nenhuma de largar.

“Whores’ Glory” (Alemanha/Áustria) de Michael Glawogger (5/10)

É um filme tão honesto com seu tema, com cenas tão bem realizadas que por muito parece que vemos encenações e não um documentário “real”. O longa segue prostitutas na Tailândia, Bangladesh e México, e mostra bem de perto as relações no mundo do sexo, acompanhando um grande bordel em Bangkok, e as zonas de prostituição nos outros países. Chega ao ponto de mostrar uma cena de sexo explícita, mas nos créditos Glawogger agradece a todas “prostitutas e clientes”, dando a entender que realmente foi tudo real.

O filme assim, ganha em honestidade mas também não apresenta muita coisa de nova, as histórias são aquelas que todo mundo já meio que conhece. Ganha força explorando aspectos não muito explorados, como a religião delas (as mulçumanas renegam o sexo oral argumentando que Alá fez a boca somente para falar) e o fato de que muitas das meninas tailandesas gastam seu dinheiro freqüentando bares com michês. As cenas são muito bem filmadas, especialmente na parte de Bangladesh, mas isso acaba revelando que Glawogger tá muito mais preocupado com uma aparência estética de sua fita do que realmente com o objeto de pesquisa.

2 Comments

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2 responses to ““Cut”, o melhor do festival de Veneza até hoje

  1. Olá Mateus, aqui é Marcel Plasse, criador da revista Set e editor do site http://pipocamoderna.com.br. Encontrei seu blog por acaso – conhecia o anterior, Cinema Mon Amour. Vi que vc está cobrindo o Festival de Veneza. É por prazer ou está escrevendo em algum veículo? Vc me permitiria reproduzir algumas críticas na Pipoca Moderna, dando link e créditos para vc? Vamos nos falar por email – editor@pipocamoderna.com.br

  2. Pingback: Ranking do Festival de Veneza «

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