O melhor de Veneza é brasileiro!

Hoje foi um dia agitado. Segundo dia seguido  vendo 6 filmes, que começou com um Cronenberg, passou por filmes estranhos, inclusive uma coisa que não entendi até agora do Vallèe, passando por um grego estranho mas sedutor (Alpes, mesmo diretor de “Dente de Cachorro”) e terminou com um filme que eu nem tava muito animado pra ver mas me venceu completamente, e por enquanto é o melhor filme do festival. O mais humano, mais real, mais impactante de um festival que tá por enquanto mostrando boas produções “hollywoodianas” mas um cinema de arte vacilante e com pouco o que dizer.

Ah e hoje tive momento tiete também, ficando numa sala reservada com David Cronenberg, Vicent Cassel, Viggo Mortensen, Michael Fassbender e Keira Kneighley, mas esqueci a câmera. Fica pra próxima, talvez amanhã quando irei na sessão de gala do “Sal” do James Franco. Ainda tou fechando a programação que deve contar também com Akerman, e outro da competição, “Poulet aux Prunes” da dupla de “Perseópolis” – que não vi até agora. Sem mais delongas, as críticas dos 3 últimos filmes vistos hoje:

“Histórias que só existem quando lembradas” (Brasil/Argentina/França) de Júlia Murat (8,5/10)

Por enquanto, melhor filme do festival de Veneza. Uma história que começa simples, mas vai crescendo assustadoramente, sobre uma pequena vila abandonada no vale do Paraíba, no Rio, que parece contar apenas com 12 pessoas (apesar de ter um plano aéreo em que parece ter uma pequena comunidade estabelecida), todas velhas, que passam o tempo indo a missa, conversando, almoçando juntas e esperando alguma coisa acontecer, seja a chuva ou a morte.

Quem abala a situação é a chegada de uma adolescente, Rita (Lisa E. Fávaro) que chega acidentalmente no vilarejo e pede para ficar uns dias na casa da padeira Madalena (Sônia Guedes), que tem uma rotina toda manhã com Antônio (Luiz Serra): Ele prepara o café, ela traz os pães, eles brigam sobre a arrumação do pão e depois vão para fora tomar café antes de ir à missa.

O único problema do filme parece ser esse início: Toda a rotina é muito mecânica, muito mesmo, desde as cenas da padaria até a missa, mas o clima encontrado por Murat para aquela cidade funciona perfeitamente e não fica artificial. Aos poucos a relação entre Rita e Madalena vai ficando mais estreita e o filme caminha então para seus temas principais: O passado e como lidar com ele para construir um futuro, a velhice, as memórias e o conflito de gerações.

Madalena continua religiosamente escrevendo cartas para seu ex-marido (Aliás a única falha do filme, talvez é que as cartas são difíceis de ler – espero que na versão original tenham legendas, mas como vi legendado em inglês não dá pra saber), guardando logo em seguida. Se lembra de seu passado, não olha no espelho, vive sem pensar muito, a princípio. Perdeu o filho e o marido. A mesma coisa com Antônio, que perdeu seus filhos, e continua ali. Assim caminham os outros personagens: O padre português, Carlos, que toda noite bate ponto para beber.

São personagens velhos, com mais de 60 anos. Mas aquela jovem, que ouve Franz Ferdinand em seu ipod, que sai tirando fotos com câmera digital novíssima, compartilha de todos os sentimentos. Está obviamente fugindo de alguma coisa, encontra uma figura materna (ou de avô?) em Madalena. Encontra um companheiro de bebida em Carlos. Fica dividida entre voltar para seu habitat natural ou permanecer naquele marasmo completo.

Nisso, o plano final é duvidoso. Apesar de aberto, acho que foi um pouco covarde, em jogar fora uma decisão “madura” de Rita, mas quem sabe seu passado? Quem sabe o passado daquelas pessoas ali? E o futuro, ele existe? Em alguns momentos temos impressão de que toda aquela cidade está morta, quase um “Os Outros”, uma cidade literalmente fantasma, de tão a parte que as pessoas vivem. Mas elas não vivem assim nas cidades grandes também? Enfiadas em seus computadores, quartos, casas, condomínios…

A decupagem de forma geral aliás é incrível, criando planos mortos lindos, mas que nunca exageram na sua duração, assim como a montagem, clínica. Ouvi no final que talvez o filme teria um roteiro de média ou curta. Pensando bem depois, discordo. Como “Mergulho” de Pedro Henrique Ferreira, que se passa também numa cidade do interior carioca (e tem propostas parecidas, em respeito à memória, apesar de executar de formas completamente diferentes), o filme de Murat precisa de seus 90 minutos, precisa de planos longos, de uma rotina muito calejada, para se aproximar do rumo de seus personagens, e depois tentar dar uma “animada” com a chegada de Rita – que também é claro, passa a se ambientar na cidade. Essa relação entre duração dos planos e cenas e a personalidade e adaptação de Rita é um dos destaques do filme.

Todos os atores do filme estão muito bons, como Antônio do Santos num papel pequeno, mas só com rosto, quase sem falas, consegue passar muito. Nas cenas com ele, inclusive é que a jovem Lisa se sai melhor. Assim como Luiz Serra que está ótimo, mas cresce muito interagindo com Sônia Guedes, o grande destaque do elenco. Sua Madalena é intensa, sabe o que quer do restante da vida, mas tem plena consciência do que perdeu, e precisa enfrentar isso todo dia em atos de sadomasoquismo quase para continuar suportando a vida. A medida que vai tendo contato com Rita, vai entrando num estado praticamente de auto-análise, sutil, quase imperceptível, mas que está lá e se o filme respira bem é por conta dessa transformação.

Um dos maiores méritos de Júlia, aliás, tenha sido o de não revelar muito o passado dos personagens, só pequenas biografias ali e lá. Talvez um personagem com histórico mais bem trabalhado e divulgado impediria uma relação melhor entre o público e o que se passa na tela. Em um momento, Madalena pergunta para Antônio o que ele acha dos jovens. Mas é tudo uma questão de desenferrujar. Logo depois, Madalena e Rita percebem que existe muita coisa em comum entre as duas. Mesmo assim, algumas cenas bem peculiares de Madalena são maravilhosas, como ela dançando na rua.

 

“Alpis” (“Alps”, Grécia) de Giorgios Lanthimos (7/10)

É um filme difícil de digerir. Não sabia depois da sessão o que sentir, se eu tinha gostado ou não, se era um bom filme ou não. Mas é um filme marcante, certamente, que marca esse tal novo cinema grego, que lida com personagens solitários, em busca de qualquer atenção e afeição.

O “Alpis” é um grupo formado por pessoas que se aproximam de quem acabou de sofrer morte na família e oferecem-se para “substituir”. A protagonista é uma enfermeira, interpretada por Aggeliki Papoulia, a mais nova do grupo e que trabalha num hospital, aonde coleta os clientes. Ela mora com o pai, e tem um caso com o marido de uma amiga. Busca em todos os lugares algum sinal de carinho, mas não consegue, tanto por encontros desajeitados, quanto por uma óbvia falta de noção.

Outros personagens incluem um paramédico, uma ginasta e seu técnico. A ginasta é também responsável por bons momentos individuais. Mas o ritmo todo do filme é fruto de Lanthimos, que pode ser uma opção válida para o prêmio de direção. Com um tom beirando a comédia de absurdo, e outro explorando bem a sensibilidade aflorada (e escondida) de seus protagonistas, por mais que cause um estranhamento e certo afastamento a princípio, tem sucesso em estabelecer um contato forte entre o espectador e o público. Mas cenas cômicas ao exagero tiram um pouco a seriedade do filme, mas que acaba fazendo sentido com o conjunto de personagens desfuncionais.

 

“Café de Flore” (“Café de Flore”, Canadá/França) de Jean-Marc Vallée (3,5/10)

Uma grande decepção, não somente pelo que esperava do filme, do diretor de “C.R.A.Z.Y.”, mas pelo que o próprio material não só promete, como cumpre. Por um lado, temos uma coisa maravilhosa que é a visão que temos da música, as experiências com ela, e como uma música define ou um momento ou uma vida inteira ou ainda mais nossa relação com outras pessoas. Apesar de certa insistência sobre esse detalhe em alguns momentos, tudo é feito de forma bem compreensível e poética, em alguns momentos.

São esses momentos de inspiração que salvam a película e fazem merecer uma recomendação. O problema é que Vallée quer embelezar muito o filme, criando planos de transição bobos e uma estrutura que não é só não-linear como quase não-compreensível, que ainda se perde completamente ao tentar explicar a ligação entre as duas  histórias, uma que se passa na Paris dos anos 60 e a outra no Canadá dos dias atuais.

A trilha sonora como é a marca dele e não podia deixar de ser justamente num filme sobre a relação entre música e personalidade é fantástica, com toques de The Cure, Sigur Rós e claro, Pink Floyd, mesmo que a interpretação de “The Great Gig in the Sky” patine entre o interessante e o brega.

6 Comments

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6 responses to “O melhor de Veneza é brasileiro!

  1. Anderson

    legal esse espaço aqui.
    vou bem querer ler suas impressões do filme novo da chantal.

  2. Mateus Nagime

    Obrigado, Anderson! Vou tentar ver, não peguei ingresso, pensei que daria pra entrar com credencial direto e esqueci que hoje era fim de semana, capaz de lotar. Espero que não (aliás, espero que lote e eu esteja rs)

  3. Pingback: Ranking do Festival de Veneza «

  4. Pingback: Indicações para o Festival do Rio 2011 «

  5. André Pessoa

    Mateus, mais uma vez você me encanta com uma crítica arrebatadora. Quando eu vi o filme “Os famosos e os duendes da morte”, achei um filme tão bonito que saí lendo todas as críticas sobre ele, e a mais poética e informativa foi a sua (acho que foi para o Cineclick, mas não tenho certeza). Eu até lhe falei isso no Twitter, e você respondeu. Esse filme da Júlia Murat vai passar na 35ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, e no meio da infinidade de filmes do festival, um dos que eu escolhi para ver foi esse, exatamente em razão da sua crítica. Eu vou vê-lo na segunda-feira (amanhã). Qualquer coisa, posto aqui minhas impressões.

    • Mateus Nagime

      Obrigado André pelo comentário!! Foi para o Cineplayers a crítica! Espero que tenha gostado do filme!! Estive um pouco afastado do blog, mas vou voltar no novo ano, sem falta! (espero que ainda essa semana publique algum texto!)

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