3º dia do Festival de Veneza, parte 1

Enquanto penso se gostei ou não de “Alpes”, do grego da competição (do mesmo diretor de “Dente Canino”), e vou comer alguma coisa antes de ver um dos 2 títulos brasileiros da mostra (“Histórias que só existem quando lembradas” da Júlia Murat), deixo 3 textos de filmes que passaram pela manhã e início da tarde, incluindo o Cronenberg que é muito bom (e olhem a Keira no Oscar!) e o pior do festival até agora.

A Dangerous Method (Reino Unido, Alemanha, Suíça, Canadá) de David Cronenberg (7/10)

Na entrevista coletiva, Cronenberg foi meio claro:  “sempre procuram algum traço de “cronenberguismo” nos meus filmes, mas não sei o que é isso. Cada filme é diferente um do outro, não preciso ficar pondo coisas esquisitas para impor uma marca autoral”. Afinal, ele que sempre dividiu com o outro David a aura de diretor mainstream mais outsider da América do Norte, começou a fazer de um tempo pra cá histórias cada vez mais convencionais.

E é fantasiado deste modo que “A Dangerous Mind” é apresentado ao público. Desde o inicio vemos um filme de época, com locações estonteantes, figurino meticuloso, etc, todos estes tiques. Mas pouco a pouco, a história da primeira psic(o)análise, feita por Jung (Michael Fassbender) em Sabina Spielrein (Keira Knightley) e a subseqüente relação tumultuosa dele com Freud (Viggo Mortensen) vai revelando ser um estudo muito interessante de personagens, motivações, desejos e escolhas de vida.

Não sei até que ponto a trama é historicamente correta e apresenta os termos tratados de forma adequada, mas todo o arco central é bem estruturado, apesar de uma certa simplificação das querelas entre os dois fundadores da terapia, o que é normal visto que o filme parece se focar mais nas relações de Jung com Sabina (seja profissional e pessoalmente), quanto com a esposa afastada (Sarah Gordon).

Keira está numa atuação típica de Oscar: Uma personagem que na primeira parte é cheia de tiques físicos, com sobresaltos corporais que impressionam e soam falso apenas em um ou outro momento (como logo no início, como ela claramente faz uma deixa “fácil” sobre a origem de seus problemas). Na segunda parte, a medida que o tratamento com Jung vai ajudando ela, ela aparece bem diferente, mas mantém o mesmo estilo e alguns tiques, criando uma unidade importantíssima.

Fassbender se esconde completamente dentro do papel – nada lembra aquele garoto de “X-Men: A Primeira Classe” e é sua interpretação sóbria que garante o sucesso do filme. Aqui ele transmite toda a segurança que marca o início de seu tratamento até que a medida que vai tendo contato com Freud, Sabina e um outro médico/louco Otto Gross (Vincent Cassel) de ideias liberais e poligâmicas, ele vai se confrontando cada vez mais com suas ideias e tendo mais e mais dúvidas sobre sua vida e profissão.

Marécages (Canadá/Alemanha) de Guy Édoin (7,5/10)

Um filme complicado e corajoso, sobre ações humanas que ficam na berlinda entre o bem e o mal, o proposital e o ato falho. A história é sobre uma família cujo destino parece estar sempre traçada pelas ações de um garoto, Simon, que passa também pelo despertar de sua sexualidade. Os personagens, presos numa fazenda da qual não gostam (numa espécie de “A Árvore” amargo – e sem a Charlotte Gainsbourg) são interessantes e o fluxo da narrativa funciona com planos longos e explorativos.

Birmingham Ornament (Rússia) de Andrey Silvestrov, Yuri Leiderman (1/10)

Filme russo que trabalha com fragmentos de cenas aparentemente sem sentido para tentar encontrar um significado sobre ser judeu seja hoje como na época da segunda guerra. O filme é totalmente perdido, sem significado, tentando juntar cenas engraçadinhas, como um rapaz cantando, com um noticiário-paródia, com apresentações musicais, uma manifestação pela Anne Frank em Amsterdã e uma vítima da segunda guerra contando seu drama. Sem dúvidas o pior filme do festival até o momento.

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