O velho, o novo e o eterno

(post que tentei adicionar mas não deu… daqui a pouco textos sobre o Garrel

Com mais de uma hora entre o fim de “Photographic Memories” e o início de “Um éte brûilan”, resolvi andar um pouco e sentar aqui na praia do Hotel Excelsior, que fica na frente do pavilhão de Cinema da Bienalle. Tomar uma coca, me preparar pra não dormir no próximo filme e escrever um pouco, além de admirar a paisagem. Ainda tá sol, mas não tanto quanto fez ontem e antes-de-ontem, mas a vontade de ir na praia continua. Só falta descobrir um dia bom e torcer para não cair o toró que teve mais cedo. Acabei encontrando com uma menina que adora os brasileiros, gritou pra um cara que trabalha aqui, mostrou uns presentes que recebeu de uma amiga que veio de Salvador e não sei se foi por coincidência tá tocando Ivete Sangalo agora.

Mas voltando a Veneza não bahianizada, é incrível como vendo o povo na praia, os meninos jogando futebol, as meninas se bronzeando, as famílias, não consigo deixar de pensar em Visconti. Acho que ninguém simbolizou tão bem o modo de ser ocidental como ele, com um culto aos corpos, valores e relações como ainda se pode detectar hoje. Nem só “Morte em Veneza”, meu filme favorito, penso mais em “O Leopardo” e especialmente “Violência e Paixão”, os dois que revi esse ano. Mas talvez toda a carreira dele seja no padrão desses três, não me lembro muito bem na verdade – com exceção de “Rocco”, outro que amo, mas de forma meio estranha. Me deu vontade de ver os filmes que não conheço dele – e rever tudo, naturalmente.

“India: Matri Bhumi” (1959, Itália/França) de Roberto Rossellini 2,5/10

Quase uma década depois de Jean Renoir filmar “O Rio Sagrado” na Índia, Rosselini volta ao país para filmar esse título quase desconhecido da sua filmografia. Mas ao contrário do quase “descobrimento ocidental” que Renoir fez, Rosselini aqui parece meio pálido, criando uma caricatura meio forçada das personagens orientais. Enquanto Renoir situava seu núcleo em uma família ocidental e teve o mérito de ser talvez o primeiro filme americano a ser filmado na Índia (e mostrar as belezas de lá, a cultura, etc), Rossellini fica num conflito de indianos, que nunca parece ser real.

Aliás, é importante lembrar que nesse meio tempo já tinha surgido Satiyajit Ray e outros. Não sei muito bem o que Rosselini pretendia lá. Primeiro vemos um jovem indiano e sua vida, em forma de documentário, e parece que ele foi vendido como tal, mas a narração e o próprio formato de filmagens deixa claro se tratar de uma tentativa de tentar capturar um movo de vida não tradicional, ao estilo Nanook. É engraçado como ele apesar de mostrar de uma maneira negativa a forma com que em determinado ponto o protagonista briga com sua esposa, ele nunca parece cogitar em dar a voz a ela também na narração.

Há imagens bonitas, especialmente de elefantes, e a restauração parece boa sem ter alterado muito a fotografia original, mesmo com a digitalização e atualização de cores, já que os materiais positivos de preservação estavam descorados. A mudança de foco no final também não ajuda em nada e parece um pouco precipitada.

 

“Photographic Memory” (EUA/França) de Ross McElwee  6,5/10

 

Um filme meio estranho, que por muitas vezes cai no vergonha alheia: Um diretor experimental de cinqüenta anos, diretor experimental, daqueles que saem filmando tudo de sua própria vida, resolve fazer um filme sobre sua relação complicada com o filho, Aidan. Desde os tenros momentos da infância, registrados em vídeo numa paz absoluta, até os atos de rebeldia da adolescência.

O  engraçado é que apesar do filho claramente se sentir um pouco chateado com aquela filmagem toda em sua vida, ele mesmo acabou ao chegar na adolescência mexendo com direção, fazendo filmes, registrando vários momentos de sua vida com os amigos e durante suas aventuras em esqui. Além disso, ele trabalha com muitas coisas em mídia, faz camisas, tem o próprio site, e sintoma de sua geração, fica o tempo todo em redes sociais, celulares, aplicativos, computadores, etc.

É isso, basicamente o que o pai não consegue entender: Existem cenas clássicas, quase encenadas de tão óbvias: Ele tentando conversar com o filho e este ocupado no computador. Os dois ficam brigando tanto (além do uso do filho de drogas e álcool) queRoss decide se por no lugar do filho: Resolve relembrar sua vida por volta dos 21 anos, idade do filho: Abre seus diários, vê suas fotos e resolve voltar a França, aonde passou 1 ano para reencontrar o antigo chefe e a ex-namorada. Pensa que assim ele pode entrar mais em contato com o filho.

No retorno a casa, parece que tudo se resolve: O filho diz que vai fazer faculdade de cinema (antes dizia que faculdade não era pra ele), e que acordou com a ideia de fazer um filme: Ele acorda, bebe, sai pra praia e começa a correr. Basicamente, ele finalmente conseguiu dobrar o pai com o cinema, e pra mim fica uma dúvida se Ross percebe isso ou não, se  ele percebe que a única maneira do filho ter uma relação com seu pai é entrando no jogo dele. Pensando melhor, sim, Ross percebe tudo isso e claramente liga todo seu filme a essa cena final. É impressionante como por exemplo, o filho claramente deixa de conversar com ele em alguns momentos por conta da câmera – e em uma cena explicita isso, mas o on continua. Só que quando Maud, a ex-namorada pede para desligar e assim falar sobre o relacionamento, na mesma hora Ross desliga a câmera.

Talvez tenha sido tudo uma trajetória de autodescobrimento para Ross. A narração é fraca, e por vezes se utiliza muitas frases clichês, e é engraçado que segundo declaração do diretor, era a parte francesa – justamente a mais fraca de longe – que seria o cerne do filme.

2 Comments

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2 responses to “O velho, o novo e o eterno

  1. Rudá Lemos

    Fiquei curioso com esse “Photographic Memory”.
    Tá ótima a cobertura, Mat, aproveitae!

  2. Pingback: Ranking do Festival de Veneza «

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