O primeiro grande filme

Hoje o dia começou com Polanski, que se põe na briga fortemente para um prêmio (talvez de elenco?). Também vi o primeiro latino-americano, decepção, quando resolvi “esnobar” a Madonna que tá causando maior frisson aqui, mas ainda não vi como o filme dela foi recebido. Daqui a pouco, as 19h30 (14h30 no Brasil) tem Garrel e enquanto isso, talvez um Rosselini antigo e um filme experimental inglês. As críticas dos filmes que vi pela manhã:

 

“Carnage” (França/Alemanha/Polônia/Espanha) de Roman Polanski 8/10

Hoje vi o primeiro grande filme do Festival: “Carnage”, de Roman Polanski. A adaptação teatral fica evidente desde o início do filme, e chega a incomodar por um momento, mas quando o filme ganha fôlego, nada mais segura o brilho do diretor polonês. Apesar do filme ser quase todo rodado em interiores, no apartamento de um casal novaiorquino, o início do filme é importante justamente por se tratar de uma cena externa: Enquanto se desenrolam os créditos iniciais, vemos se iniciar uma briga entre duas crianças (uma delas o filho do diretor), num parque.

Em seguida, começam os embates entre os pais das crianças, para tentarem resolver o problema: Um dos filhos teve sérias complicações dentárias, mas os pais da vítima (Jodie Foster e John C. Reilley) decidem conversar e resolver amigavelmente com os pais do agressor (Christopher Waltz e Kate Winslet). Enquanto no início, tudo vai bem, pouco a pouco, quem passa a perder o controle são os pais, em embates cada vez mais amargos, agressivos e cruéis.

Polanski traça um destino meio amargo para a humanidade: Enquanto as crianças são abertas, resolvem tudo de forma mais clara (não confundir com honesta e limpa, o que seria equivocado e nunca é tratado desta maneira), ou seja no exterior, os adultos precisam se esconder em suas personas, em tentativas de aproximação falsas, em personalidades calculadamente criadas para impressionar. E assim, como no filme de Buñuel, nunca conseguem sair de cena. O final então, com a ação depois de tanto clímax, voltar ao exterior para justamente não resolver, ter uma respiração “artificial” é genial.

Claro que toda esta estrutura cria situações estereotipadas, como quando num ataque de fúria depois do marido, um advogado, passar o filme inteiro no celular, Kate Winslet destrói o aparelho dele e ri de sua reação desolada, mas para pouquíssimos momentos depois sofrer a vingança, quando sua bolsa é arremessada no chão. Porém, coisas que poderiam muito bem cair na idiotice ficam perfeitas como sátira, como a devoção de Jodie Foster por seus livros de arte e pela causa de paz na África.

As composições de plano são perfeitas, com o uso de espelhos e closes em momentos importantíssimos, ajudando no ritmo de humor negro que levou a platéia aqui de Veneza ao delírio. A trilha de Alexander Desplat é outro ponto forte, funcionando perfeitamente no ritmo do filme. Mas os destaques mesmo são os atores, que conseguem transformar o filme em uma coisa sensacional.

Christopher Waltz, lembrando muito Jack Nicholson é o destaque do elenco, fazendo caras e bocas incríveis, com um tom cômico maravilhoso e uma movimentação de cena super espontânea. Winslet está perfeita no papel de uma mulher quase ao estilo Desperate Housewives (aí incluindo sua personagem em “Foi Apenas um Sonho”), em que tenta manter a aparência de um casamento feliz, mas de repente, não agüenta mais e mostra suas fragilidades. Jodie Foster passa o filme inteiro meio nas sombras, para brilhar no final, numa virada que ela poderia muito bem transformar sua personagem numa caricatura. Reilley também, demora para engrenar, mas quando seu personagem mostra a que veio, ele nos relembra que apesar de ser quase sempre um ator meio na berlinda tanto da indústria quanto da crítica é um dos melhores americanos da década.

“El Campo” (Argentina/Itália/França) de Hernán Belón 4/10

É um filme estranho, que parece perdido. No início parece se tratar de um filme de terror, ou com toques sobrenatruais, mas depois abandona completamente esta premissa, o que seria tranqüilo se aproveitasse para fazer uma observação sobre sua protagonista, algo com o qual “Sobrenatural” que estreou no Brasil este ano faz muito bem – apesar de como o título brasileiro entrega, assumir os efeitos no meio da trama.

Aqui não, todo o clima que é construído no início, se dissipa e nada fica em seu lugar: O casal que foi pra uma casa abanonada no meio do campo, aonde parece que ninguém vive começa a ter problemas, pois a mulher implica demais com o local, além de afrouxar a superproteção que ela tem na filha nova, que ainda não começou a andar.

Porém, o diretor não se resolve e acaba nem tratando bem a história da casa meio misteriosa no campo com os vizinhos estranhos, nem a relação entre o casal de protagonistas. O filme ainda se move lentamente e o terceiro ato em especial é decepcionante.

2 Comments

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2 responses to “O primeiro grande filme

  1. Hudson

    Tô adorando a cobertura, Mathieu! Acompanhando aqui diariamente. Mas vê se pára de contar muitas coisas sobre o enredo do filme! Hahahah! Beijão!

  2. Pingback: Ranking do Festival de Veneza «

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