“O Leopardo” e o fim do mundo

“A Doce Vida”, em 1960, “A Noite”, em 1961, “O Leopardo”, em 1963. Todos filmes italianos de diretores que talvez sejam os três grandes mestres da região: Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Luchino Visconti. É incrível, como cada um a seu jeito, seu próprio estilo, e criando personagens muito característicos, consegue passar uma mesma visão de mundo, desaloradora, mas estranhamente não-pessimista, simplesmente apática, como se fosse algo previsível, talvez pelos grandes ciclos históricos que já tinham vindo.

O mundo, assim como o baile ou a festa mais esplendorosa tem seu fim com o raiar do sol. Na praia, curtindo os últimos momentos de uma festa louca ao final de “A Doce Vida”, um personagem típico felliniano diz “Em 1965 teremos depravidade total. Quão esquálido tudo será”. Visconti achava que em 1865 tudo já tinha perdido a linha. Nada poderia ser pior do que aquele final apresentado em “O Leopardo”, mas não existe um desespero ou algo do tipo. As coisas ruins acontecem porque devem acontecer. Não basta a aristocracia culta e sensata representada pelo Príncipe de Salina (Burt Lancaster) ser superado pela burguesia avarenta e inculta de Don Calogero (Paolo Strappa). Tudo indica que a nova geração, interpretada por Tancredi (Alain Delon), cuja personalidade veríamos em dezenas de ditadores do século XX. Da revolução para o reacionarismo, em uma irônica e maldita justiça com o lema do Príncipe, “Tudo deve mudar para continuar o mesmo”.

“O Leopardo” parece dar um passo a frente à evolução que Visconti trouxe em “Rocco e Seus Irmãos”. As cenas de baile são o destaque do filme, filmadas com uma beleza incrível, um verdadeiro canto dos cisnes a um mundo que parecia estar acabando. A filha do Príncipe (Lucilla Morlacchi) diz que está cansada daquela vida enquanto a ascendente Angelica (Claudia Cardinale) só quer saber de bailes e bailes, festas e festas. Testemunhamos a criação de uma sociedade-pastiche, com suas bibliotecas enormes e inutilizadas, os palácios enormes a serem abandonados. Os burgueses que sonham em viver como aristocratas, mas aqui Visconti parece fazer um tratado de biologia quase, em que os nobres tem sim sangue azul – eles são únicos, especiais.

Sua tese pode ser polêmica ou rejeitável, mas Visconti defende com tanta paixão (e conhecimento de causa, pois ele mesmo é descendente de nobre) que não tem como negarmos a força de seu argumento. Seguindo o lema do Príncipe, tudo tem que mudar para continuar o mesmo, mas um elemento deve mudar e o outro permanecer para que sintamos falta daquilo que partiu. Nesse caso os abusos de poder (em geral) permanecem, especialmente na Itália, que só conheceu estabilidade política no século XX sob o regime de autoritários (Mussolini, Berlusconi). Mas o poder da aristocracia continua a atrair cada vez mais considerando um mundo cada vez mais laico e democrático.

Burt Lancaster sofre da dublagem, algo pelo que não parece machucar muito Alain Delon, talvez pela exigência de cada papel, mas ainda assim impõe uma forte presença em cena. Já Delon e Carradine desfilam pela tela, de cena em cena, como num eterno baile. A cena em que eles (o casal mais belo do cinema?) percorrem as salas abandonadas do palácio é uma das mais bonitas já filmadas por Visconti.

O Leopardo
Il Gattopardo
1963, Itália, França.
De Luchino Visconti.
9,5/10

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Filed under Cinema, Críticas

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