Reencontrando a Felicidade

Rabbit Hole
5,5/10
2010, EUA. De John Cameron Mitchell

Como é possível uma pessoa voltar a ter uma vida normal depois de tantos anos em torno de um filho, quando este morre? É em função desta pergunta que John Cameron Mitchell retorna aos cinemas em “Rabbit Hole”, que garantiu um retorno aos holofotes (e ao Oscar) para Nicole Kidman.
A princípio pode se pensar que Mitchell se afastou de seus filmes anteriores, indo para um caminho mais “clássico”, entrando no esquema de Hollywood. Mas essa sensação desaparece ao se assistir aos filmes, já que o poderoso “Hedwig – Rock, Amor e Traição” tratava antes de tudo pela luta do protagonista em relação a sua identidade (em particular, ao “angry inch” do original) enquanto o fraco “Shortbus” era sobre relacionamentos em toda sua natureza.

“Reencontrando a Felicidade” se foca no casal Becca e Howie (interpretados por Nicole Kidman e Aaron Eckhart), que perderam o filho de quatro anos há oito meses após ser atropelado. O filme vai se construindo com momentos pequenos que vão nos permitindo entrar na intimidade dos personagens. Enquanto Becca ainda parece completamente a parte do mundo, e sem conseguir esquecer a morte do filho, Howie se apresenta como mais sociável e querendo seguir em frente, mas ao mesmo tempo preso a lembranças do filho, seja através de vídeos que ele vê todas as noites ou a ida a um grupo de ajuda de pais cujos filhos morreram.

O filme demora a encontrar o ritmo, por vezes parecendo uma paródia, com um olhar um tanto sarcástico quanto a vários temas, desde o grupo de ajuda ou os pequenos detalhes da relação. Mesmo quando encontra, ele segue morno até o final e parece evocar seus personagens, sem saber direito o que fazer ou que direção seguir.

É uma pena que o filme acabe patinando por vezes em lugares comum, como o inevitável momento catártico que acontecerá com Becca, assim como os momento de bom moço de Howie na metade final do filme. Dianne Wiest envelheceu muito mal, fisicamente, e ainda tem um papel muito murcho para dar conta, saindo apagada do filme. Aliás, todo o núcleo familiar é dispensável, seja a trama envolvendo a irmã grávida quanto a mãe que também perdeu o filho.
Enquanto Eckhart passa apenas OK no filme, Kidman consegue se reencontrar em uma grande atuação, trazendo ecos de “Reencarnação” inclusive, talvez a sua melhor interpretação. Ela atinge com precisão o tom de sua personagem e quando o roteiro ameaça desmoronar o filme, na cena do carro, ela segura com uma beleza impressionante, algo só alcançado por ter conseguido criar uma coerência durante o todo filme, sempre soando verdadeira.

O grande achado do filme, porém, é Miles Teller na pele de Jason, o jovem ainda terminando o ensino médio que atropelou a criança. Enquanto Howie tenta superar a dor por meios mais “tradicionais”, como sair com os amigos e engatar num flerte com uma colega do grupo de apoio (Sandra Oh), Becca reencontra por acaso Jason e decide seguir ele, e iniciar um contato com o jovem. Suas cenas são as melhores, e é uma pena que o filme não tenha o promovido à co-protagonista, no que certamente seria um estudo ainda mais interessante dos efeitos do acidente, já que a relação entre os dois é praticamente a única coisa que dá vida ao filme.

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Filed under Cinema, Críticas, Uncategorized

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