Manhattan

É engraçado né, como funcionam os ciclos. As pessoas as vezes até me falavam “ah você é muito novo para entender esse filme” e parecia ser uma coisa meio sem noção, algo desproposital. Mas é verdade como o cinema cresce com as pessoas e nisso eu lembro aquela fala linda da Virginia Madsen em “Sideways” sobre as razões para ela amar o vinho, de como ele cresce e de como faz pensar nas pessoas que trabalharam para transformar a uva em vinho, e como aquele vinho carrega toda uma história por trás dele. Porque não nos esquecemos, se o filme nos toca de um modo, no mínimo é de se imaginar que em certo momento da vida o diretor e roteirista (e por que não produtor, fotografo, atores, etc) chegaram numa situação parecida com a nossa.

Toda essa volta porque eu acabei de rever Manhattan nesta madrugada e da primeira vez que eu vi lá com uns 14 ou 15 anos eu achei bacana mas nada demais. Numa revisão já aos 20, acho, percebi a genialidade do Allen, mas sinto que é um daqueles filmes que cresce cada vez mais. Até pode não ser material para se por numa lista de 10 ou 20 melhores filmes de todos os tempos, mas certamente é um filme que se pode apreciar melhor com o tempo e relacionar com as nossas experiências. No meu último top100, cheguei a por ele em 38º.

Hoje o filme do Woody me encanta, briga palmo a palmo com “Zelig” pelo posto de sua obra-prima. Os diálogos são sensacionais, puro New York anos 70/80, como a cena em que os personagens se encontram no Museu logo no início do filme. mas não pude deixar de chorar na cena do “Primeiro encontro” dos protagonistas, culminando naquela coisa maravilhosa que é o plano da Queensboro Bridge ao amanhecer. É fácil entender porque Allen não gosta tanto do filme, é uma coisa tão pessoal, que até hoje todo mundo tenta imitar, mas sem se entregar tanto quanto Woody (aparentemente pelo menos) se entrega neste filme. E quase como uma lição ao final da projeção, a gente precisa ter mais fé nas pessoas né? Em nós mesmos. Ou até no poder transformador da arte, em seu sentido mais puro. Seguir em frente, tentar ser mais Tracy (Mariel Hemingway), menos Mary (Diane Keaton), e quem sabe um dia chegar em um nível mais Isaac (Woody Allen), conviver com nossas falhas e nossos defeitos, conhecer e valorizar nossas qualidades.

Hoje vi pela primeira vez “Marley e eu” e “O Amor é cego” e é incrível como apesar de simpáticos, estes filmes empalidecem perto de uma obra verdadeira. Eles superficializam emoções, você fica triste porque um cachorro que viveu toda sua vida morreu (ou por que percebe que uma vida inteira se passou durante aquele ciclo e você não fez o que queria? rs), ou aprende que pode amar uma pessoa obesa ou com um defeito físico bizarro, pois o coração é que importa. São coisas que não ficam com a gente no final, não nos fazem pensar, evaporam ainda nos minutos pós-exibição. É engraçado como pessoas citam “Marley e eu” como melhor filme, filme mais inspirador, etc, mas aqueles sentimentos que despertaram ali você sempre teve, e sempre soube, ou seja, é um mero catalizador de emoções, e não um potencializador, como se espera que a arte seja.

Assim se apresenta “Manhattan”: É um filme no qual todos podemos nos relacionar, mas um pouco como no cinema de Ozu, em um nível sentimental, não cópia carbono. As vezes de um jeito que você nem sabe porque te emociona, mas tem um certo feeling que te arrebenta. Acredito que ele se inspirou um bocado no Conceito de Angústia de Kierkegaard, em que se você está vivo, deal with it, tem que fazer alguma coisa, tem o mundo ao seu redor, mil escolhas, dormir ou continuar escrevendo (lendo) esse texto ou ver outro filme ou ver outro filme enquanto se escreve um texto, ou grava um cd, ou toma uma Coca, ou água, etc. Não há tempo de se pensar. Os personagens de Woody agem assim, precisam decidir constantemente se ligam pra pessoa com quem está apaixonada (“Match point”!), se leem os jornais para se inteirar dos assuntos da atualidade ou de puro interesse (“Ah não, não estava lendo o artigo sobre as massas anônimas da China, estava vendo os artigos de lingerie” diz Isaac para Mary) e sempre lendo, fazendo referências, tentando acompanhar mostras, conhecer restaurantes, estar um na frente do outro. Mary uma hora diz que sabe vários fatos e curiosidades de cabeça, mas isso não parece ajudar nem um pouco na relação dela com outras pessoas, seja de modo romântico ou pura amizade. Apesar de inteligentes e engraçados, os personagens de Allen (principalmente a feminina principal) parece não saber lidar com o mundo em sua volta e com as exigências da vida.

E enquanto tudo isso acontece, ele ainda consegue valorizar a sua paisagem, o ambiente ao seu redor, fazer a mais incrível carta de amor a uma cidade no audiovisual. É incrível como o filme lida com emoções universais, mas ainda assim consegue captar, assim como o Allen anterior “Annie Hall”, o espírito de uma cidade que passava por tempos complicados, em uma época cheia de crime e vandalismo – é a mesma de “Taxi Driver” do Scorsese, lembremos! – e que era cada vez mais vista como decadente pelos americanos, mas Woody não se entrega, se destinando a mostrar o lado bom de Nova York (e Manhattan em especial), com suas belezas naturais (ressaltadas pelas lentes do Gordon Willis, no que é na minha opinião a fotografia em preto e branco mais bonita da história do cinema), suas neuroses e hábitos, dando corda para a idéia estereotipada de uma Nova York neurótica (que Woody Allen foi o grande porta-bandeira), em que os analistas ou ligam as três da manhã para o paciente chorando e entram em coma depois de uma viagem de ácido ou são super severos no estilo mais tradicional de Freud.

Manhattan pulsa no filme, é vibrante e decadente, não por acaso os dois adjetivos mais pertinentes ao se referir a obra de Woody Allen do meio dos anos 70 para cá. É um filme que faz chorar por nunca ter ido naquela cidade e ser hoje impossível vivenciar aquela atmosfera particular presa numa cápsula espaço-temporal, ou de qualquer maneira por nunca conhece-la como o Woody a conhece(ia), até porque aquela cidade ali talvez nem exista. É parar de querer o que é dos outros e tentar se contentar com o que é seu, olhar pela janela, olhar para as pessoas em seu redor – seja os amigos mais próximos ou a população em geral – e amar aquilo que lhe pertence, segurar ao máximo o seu espaço e o seu tempo, pois nada mais lhe fará conexão do que esta experiência. O difícil é reconhecer e tentar se expressar da melhor maneira possível, transformar a vida em arte, como fizeram todos aqueles nomes citados na Academia dos Supervalorizados ou as coisas que nos fazem a vida valer a pena. Woody Allen conseguiu tudo isso neste filme de 1979.

Manhattan
“Manhattan” (1979, EUA) de Woody Allen
10/10

A minha cena favorita:

4 Comments

Filed under Cinema, Textos

4 responses to “Manhattan

  1. Manhattan pulsa. Bastaria isso.❤

  2. “é um mero catalizador de emoções, e não um potencializador, como se espera que a arte seja.”. BOA!
    Uma das melhores sessões foi Manhattan no formato Scope no CCBB. Belíssimo.

  3. Também participo da liga, mas não conhecia ainda o seu blog. Parabéns, ganhou mais um fã. Adorei! Vou até rever este filme, pois quando assisti – há tempos – não achei nem de longe um dos melhores do Allen como dizem por aí. O jeito de ver as coisas mudam com os anos.

  4. Mateus Nagime

    Nossa, Rudá, tinha esquecido desta sessão, eu vi com você né, num sábado a noite, incrível. Lembrei que ganhei o poster do catálogo da mostra, vou pendurar no quarto!!

    E muito obrigado, Beto! Também não conhecia o seu blog, vou ler!! E revê sim, Allen aliás geralmente funciona comigo melhor em revisões! Annie Hall, Maridos e Esposas, A Outra, todos esses que hoje eu amo de paixão reagi meio friamente na primeira vez que vi!

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