O Sequestro de um Herói

Rapt (2009, FRA/BEL) de Lucas Belveaux.
7/10
Visto em 30/03/2011 no Estação Botafogo 1

Bom filme policial, com ritmo ágil que sabe dosar as sequências de suspense com um estudo sobre a família burguesa francesa que se esfacela quando o patriarca, empresário e presidente de uma grande empresa Stanislas (um Yvan Attal no ponto) é seqüestrado e toda sua vida particular é revirada pela mídia, incluindo as diversas amantes e dívidas milionárias de jogo que causaram um rombo na sua fortuna, o que torna o resgate de 50 milhões de euros algo inviável.

São apresentados dois núcleos, o do cativeiro e da família. No primeiro, a relação entre seqüestradores e seqüestrado se inicia de modo muito chocante, mas aos poucos acaba se sustentando mais pelo elemento de suspense do que exatamente de surpresa ou de ação, até uma virada no meio.  Já com a família acontece um oposto: enquanto de início existe uma preocupação grande com a vítima, a medida que o filme avança, os parentes e colegas de trabalho de Stanislas passam a se defender mais da imagem que possuem (deles próprios, da empresa e do sequestrado). Como o protagonista diz em certo momento, “vocês preferiam que eu não tivesse retornado” e não chega a ser exagero essa afirmação.

O final é de uma covardia que só não me assustou, porque toda a parte final encaminhava para ele, mas não chega a atrapalhar tanto. Talvez uma cena a mais teria resolvido, ou um último plano mais longo. O que mais me incomodou no filme, porém, foi a cobertura que a mídia fez estraçalhando a imagem que Stanislas tinha durante os quase dois meses de seqüestro. Por mais que a imprensa seja cruel as vezes, me parece um tanto exagerado a maneira “maléfica” com a qual ela é tratada, não vejo ela tratando de forma tão enfática uma vítima de sequestro.

Um fato a se notar é que por quase todos Stanislas é chamado de “Presidente”, por ter esta posição na empresa. Mas acredito que o filme tenha também um pouco de representação do chefe de governo francês Nicolas Sarkozy, que possui várias semelhanças com o protagonista: Um burocrata habilidoso que conseguiu subir na vida mantendo posições austeras mas ainda assim sendo carismático (ou seja, parecendo jovem e um tanto ligado à “mudanças”), que de repente ao receber os holofotes da mídia (ser eleito Presidente / ser seqüestrado) passa a ser difamado por uma vida particular que antes  nunca lhe dera nenhum problema. Se Belvaux realmente pensou nesta relação, o final, em especial (que faz mais sentido com as relações que o governo francês mantém com os ditadores árabes), ganha uma relevância política sensacional.


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Filed under Cinema, Críticas

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